ESTUDO

USP descobre rede genética capaz de prever a progressão da hepatite para câncer de fígado

Estudo aponta que conexão entre sistema nervoso e imunológico pode servir como biomarcador da progressão da doença

A pesquisa analisou mais de 1.800 amostras de bancos de dados públicos de países como Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan -  (crédito: Freepik)
A pesquisa analisou mais de 1.800 amostras de bancos de dados públicos de países como Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan - (crédito: Freepik)

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram um conjunto de genes capaz de indicar como a hepatite viral pode evoluir no organismo, desde o grau de inflamação no fígado até o risco de desenvolvimento de câncer hepático. A rede genética foi chamada de “neuroimunoma” e conecta o sistema nervoso ao sistema imunológico, tornando-se um biomarcador para acompanhar a gravidade da doença.

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O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi publicado na revista científica Journal of Medical Virology. A pesquisa analisou mais de 1.800 amostras de bancos de dados públicos de países como Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan.

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Foram examinados tecidos do fígado e células do sangue de pacientes infectados por diferentes vírus da hepatite. Segundo o coordenador da pesquisa, Otávio Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP, a primeira descoberta chamou atenção.

“Nossa primeira descoberta foi que as células de defesa no sangue de pacientes com hepatite começam a expressar genes que são tipicamente associados ao sistema nervoso. Isso mostra que, em vez de operarem como dois sistemas independentes, eles parecem estar muito integrados”, explicou.

A análise utilizou técnicas de aprendizado de máquina para avaliar como esses genes se comportam ao longo da progressão da doença. Os cientistas observaram que, à medida que a hepatite avança para o câncer de fígado, o chamado carcinoma hepatocelular, ocorre uma desregulação desses genes, com alguns passando a ser mais ou menos expressos.

“Esse conjunto de genes pode vir a se tornar um biomarcador da progressão da doença. Há mudanças claras entre os estágios iniciais e avançados do tumor, o que permite monitorar o agravamento da hepatite viral”, afirmou o cientista de dados Adriel Leal Nóbile, bolsista da FAPESP.

Entre os genes identificados, destacam-se NRG1 e DBH. O DBH está ligado à produção de noradrenalina, neurotransmissor associado à resposta ao estresse. De acordo com os pesquisadores, isso pode indicar uma relação entre estresse e crescimento do tumor.

“O DBH é um gene associado à produção de noradrenalina. Isso indica que a via ligada ao estresse é potencializada no ambiente do tumor avançado, mostrando uma possível relação bidirecional entre o estresse e o crescimento do tumor”, disse Nóbile.

A pesquisa também encontrou associação entre genes do neuroimunoma e transtornos mentais, como depressão e ansiedade. Embora o estudo não tenha medido diretamente a gravidade dessas condições em pacientes com hepatite, os autores apontam que há evidências de ligação entre alterações neuroimunes e manifestações psiquiátricas.

“Sabe o conceito de psicossomática segundo o qual o corpo seria influenciado pela mente? Com o neuroimunoma mostramos que não é só uma interferência do sistema nervoso no sistema imune. É uma rede muito conectada”, afirmou Cabral-Marques.

Além da hepatite, os pesquisadores acreditam que essa conexão entre sistema nervoso e imunológico pode estar presente em outras doenças crônicas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a hepatite viral é a segunda principal causa infecciosa de morte no mundo, responsável por cerca de 1,3 milhão de óbitos por ano. A doença é considerada sistêmica, pois pode afetar diferentes órgãos além do fígado.

“Futuramente, o neuroimunoma pode servir como um marcador tanto para prever a gravidade da doença hepática quanto para indicar possíveis complicações psiquiátricas, tão frequentes em pessoas com hepatite. Assim, seria possível comprovar de forma mais assertiva a relação desses sintomas com uma base biológica, e não apenas emocional”, afirmou Nóbile.

 

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postado em 03/03/2026 15:44
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