
Quando o sistema de drenagem dos olhos é obstruído, a pressão ocular aumenta, o que pode causar danos à visão, desencadear uma condição conhecida como glaucoma e elevar as chances de ficar cego. Uma pesquisa publicada ontem na revista Immunity aponta agora como células imunológicas especializadas que atuam como "faxineiras" podem ser um novo alvo promissor para terapias de prevenção à cegueira.
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"Essa pesquisa nos ajuda a entender o papel do sistema imunológico na regulação da pressão ocular", disse Liu. Para o estudo, os pesquisadores rastrearam macrófagos residentes marcados com fluorescência nos olhos de camundongos. Quando removeram seletivamente essas células, o canal de drenagem do olho ficou obstruído, houve acúmulo de fluido e a pressão ocular aumentou.
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Ao Correio, Katy Liu, autora principal do estudo e professora assistente do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade Duke, afirmou que a motivação para a pesquisa foi que até então não se conhecia a função do sistema imunológico no sistema de drenagem ocular. "Sabíamos da presença de células imunológicas chamadas macrófagos nos tecidos de drenagem, e, pela primeira vez, nossos estudos identificaram macrófagos residentes especializados nesse sistema."
Nova abordagem
Tatiana Leão Vanini, oftalmologista especialista em glaucoma na clínica Olhar Prime, detalha que a pressão intraocular é definida por um líquido produzido e renovado a cada 24 horas, o humor aquoso, que preenche todo o espaço entre a íris e a córnea. "Justamente no ângulo entre essas duas estruturas temos o trabeculado, que faz a drenagem desse líquido. Com o passar dos anos, os poros desse trabeculado vão se obstruindo e isso eleva a pressão intraocular. Os macrófagos são células de defesa que estão presentes nessa região e que funcionariam como 'faxineiras', limpando esses poros do trabeculado e permitindo uma melhor drenagem do líquido, resultando numa melhor pressão intraocular."
Segundo Leão Vanini, os tratamentos clínicos visam a redução da produção do humor aquoso por meio de colírios. "Para mexer na via de escoamento, ou seja, no trabeculado, só temos disponíveis tratamentos cirúrgicos e por laser, mas não há abordagem medicamentosa ainda."
Liu reforça que os resultados demonstram que os macrófagos residentes são essenciais para manter a pressão ocular saudável. "A disfunção desse sistema pode contribuir diretamente para o desenvolvimento do glaucoma." Segundo os cientistas, essa descoberta pode levar ao desenvolvimento de futuros tratamentos para glaucoma. O próximo passo é realizar pesquisas que identifiquem essas células no tecido ocular humano.
"Agora temos um alvo específico para o desenvolvimento de novas terapias que podem normalizar a pressão ocular e impedir a perda de visão, ao contrário dos medicamentos atuais que não atuam na causa da doença", destaca Daniel Stamer, autor correspondente e professor da Universidade Duke. Para os pesquisadores, a descoberta representa um avanço na compreensão de como o sistema imunológico contribui para a saúde dos olhos.
Segundo Liu, a próxima etapa a ser cumprida pela equipe é comparar os macrófagos residentes nos olhos humanos com os de camundongos. "Estamos muito entusiasmados com os próximos passos, que consistem em identificar características únicas dos macrófagos residentes em ratos e compará-las com as células presentes em olhos humanos com e sem glaucoma. Com base em estudos em outros tecidos oculares, prevemos que as estruturas serão semelhantes e desempenharão funções similares."
Liu ainda afirma que a ciência dispõe de bons métodos para que as terapias alcancem os tecidos de drenagem do olho. "Nosso objetivo é atingir especificamente a população de macrófagos residentes para aumentar sua capacidade de manter a pressão intraocular."
Saiba Mais
Grande marco
As medicações atuais apenas atuam aumentando a drenagem do humor aquoso e não agem diretamente nas células, que, na verdade, podem estar relacionadas a esse processo. Em alguns pacientes, pode até haver perda no número de células responsáveis por essa drenagem; com isso, a pressão aumenta, porque não há estruturas funcionantes suficientes. Esse é um marco muito importante para que, no futuro, possamos ter remédios capazes de aprimorar a atividade dessas células. Atualmente, não existe nenhuma forma de estimular ou proteger diretamente essas estruturas. No entanto, sempre orientamos que pacientes com doenças crônicas busquem praticar atividade física, melhorar a alimentação e com isso aprimorar o funcionamento do sistema imunológico.
Núbia Vanessa, oftalmologista do CBV Hospital de Olhos
Duas perguntas para
Gustavo Bonfadini, oftalmologista no Rio de Janeiro
Essa descoberta pode ajudar a diagnosticar o glaucoma mais cedo?
Sim, potencialmente. À medida que compreendemos melhor o papel das células inflamatórias e imunológicas no glaucoma, surge a possibilidade de identificar biomarcadores precoces da doença, antes mesmo que ocorra perda significativa de fibras do nervo óptico. Se no futuro for possível detectar alterações no comportamento ou na atividade dos macrófagos residentes, isso poderia funcionar como um sinal de alerta precoce para risco de dano glaucomatoso. Hoje, utilizamos exames estruturais e funcionais, como tomografia de coerência óptica (OCT), avaliação do nervo óptico e campo visual, para detectar alterações iniciais.
O que tem mudado na forma de avaliar o glaucoma?
O aspecto mais interessante dessa descoberta é que ela reforça uma alteração importante na forma como entendemos o glaucoma. Durante décadas, a doença foi tratada quase exclusivamente como um problema de pressão intraocular. Hoje sabemos que ela é muito mais complexa e envolve fatores vasculares, metabólicos, genéticos e imunológicos. A participação das células do sistema imune, como os macrófagos residentes, mostra que o glaucoma também pode ser visto como uma doença neurodegenerativa, com componentes inflamatórios, semelhante ao que ocorre em outras doenças neurológicas.

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