
Descoberto em julho do ano passado, o cometa 3I/Atlas tornou-se o terceiro objeto interestelar já identificado passando pelo Sistema Solar. Antes dele, apenas dois visitantes de fora haviam sido confirmados: o 1I/Oumuamua e o cometa 2I/Borisov.
Entre agosto e outubro de 2025, o objeto foi observado pelo Telescópio ALMA, no deserto do Atacama, no Chile. Durante esse período, ele estava se aproximando do Sol, a uma distância entre 2,6 e 1,7 unidades astronômicas. Uma unidade astronômica corresponde à distância média entre a Terra e o Sol. A pesquisa foi publicada na revista científica The Astrophysical Journal Letters nesta segunda-feira (9/3) e teve a participação de 18 cientistas.
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O ponto de maior aproximação ocorreu em 29 de outubro de 2025, quando o cometa chegou a cerca de 1,35 unidade astronômica do Sol.
Saiba Mais
As observações buscaram identificar moléculas liberadas pelo cometa enquanto ele se aquecia ao se aproximar do Sol. Duas substâncias chamaram atenção: o metanol, um tipo de álcool simples, e o cianeto de hidrogênio, um composto comum em cometas.
A relação entre essas moléculas no 3I/Atlas foi muito maior do que a observada na maioria dos cometas do Sistema Solar.
Em setembro de 2025, medições indicaram razões de metanol para cianeto de hidrogênio de cerca de 124 e 79, dependendo da data da observação. Nos cometas conhecidos do Sistema Solar, a média é de aproximadamente 26.
Esse enriquecimento em metanol é superado apenas por um caso considerado incomum: o cometa C/2016 R2 (Pan-STARRS).
À medida que o 3I/Atlas se aproximava do Sol, a produção de metanol aumentou rapidamente. A atividade também cresceu de forma perceptível quando o cometa atingiu cerca de duas unidades astronômicas, região onde o gelo de água começa a sublimar, ou seja, passa diretamente do estado sólido para o gasoso.
Gases liberados de maneiras diferentes
As observações também revelaram que as moléculas não estavam sendo liberadas de forma uniforme.
O cianeto de hidrogênio foi detectado principalmente na direção oposta ao Sol. Já o metanol apareceu com maior intensidade na região voltada para o Sol.
Os dados indicam que parte do metanol pode não vir diretamente do núcleo do cometa. Ele também pode estar sendo liberado por grãos de gelo presentes na coma, a nuvem de gás e poeira que envolve o núcleo. Essa fonte estendida foi identificada a mais de 258 quilômetros do centro do cometa.
Esse comportamento sugere que o núcleo do 3I/Atlas tem regiões com composições químicas diferentes, um padrão semelhante ao observado pela missão Rosetta no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.
Temperatura e movimento dos gases
As medições também permitiram estimar as condições físicas da coma.
A temperatura do gás foi calculada em cerca de 49 kelvin, equivalente a aproximadamente –224 °C. Mesmo assim, o gás permaneceu relativamente quente em regiões distantes do núcleo, chegando a até 13 mil quilômetros.
A velocidade de expansão do material liberado foi considerada baixa, variando entre 0,2 e 0,5 quilômetro por segundo. Há indícios de que o gás acelera à medida que se afasta do núcleo, o que foi observado pelo alargamento das linhas espectrais do cianeto de hidrogênio.
Pistas sobre a formação em outros sistemas planetários
A composição química do 3I/Atlas oferece pistas sobre o ambiente onde ele se formou.
Observações anteriores do telescópio espacial James Webb já haviam detectado uma grande quantidade de dióxido de carbono em relação à água. A proporção medida foi de 7,6 para 1, valor considerado elevado.
Somado ao enriquecimento de metanol e à presença de metais como níquel e ferro detectados por outros estudos, esse conjunto de evidências indica que o cometa pode ter se formado em um disco protoplanetário exposto a radiação intensa ou próximo à chamada linha de neve do dióxido de carbono, região onde esse composto passa a congelar.

Ciência e Saúde
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