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Covid: impacto duradouro nas crianças

Estudo britânico constata que, seis anos após a pandemia de Sars-CoV-2, desenvolvimento de habilidades importantes para a autorregulação e a atenção continua prejudicado em meninos e meninas que, na época, começavam o ensino fundamental

Crianças em idade escolar: grupo foi muito afetado pelo fechamento das escolas forçado pelo avanço da pandemia -  (crédito:  Universidade de Birningham/Divulgação )
Crianças em idade escolar: grupo foi muito afetado pelo fechamento das escolas forçado pelo avanço da pandemia - (crédito: Universidade de Birningham/Divulgação )

Seis anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia de covid-19, um estudo sugere que os períodos de isolamento afetaram significativamente — e de forma duradoura — o desenvolvimento das funções executivas das crianças. Consideradas a base do desenvolvimento humano, essas habilidades são as que permitem, entre outras coisas, controlar impulsos, manter a atenção e alternar entre tarefas, sendo fundamentais desde o aprendizado da leitura ao planejamento da vida adulta. 

Publicado na revista Child Development, o estudo analisou como a função executiva evolui nos primeiros anos de vida e investigou o impacto da pandemia nessa trajetória. Os pesquisadores, do Reino Unido, acompanharam 139 crianças entre 2 anos e meio e 6 anos e meio, avaliando repetidamente as habilidades ao longo de quatro anos. 

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Os resultados mostram que a função executiva progride de forma consistente ao longo da primeira infância (do nascimento aos 6 anos), algo de que já se suspeitava. Porém, os cientistas também constataram que as interrupções sociais e educacionais provocadas pela pandemia tiveram um impacto mensurável no ritmo desse desenvolvimento. 

Os participantes foram avaliados com a Minnesota Executive Function Scale (MEFS), um teste aplicado em tablet no qual as crianças precisam classificar figuras de acordo com regras que mudam ao longo da tarefa. Para completar os níveis mais avançados, os pequenos devem lembrar regras, ignorar respostas automáticas e adaptar-se rapidamente às mudanças — processos centrais das funções executivas. 

Complexidade

"As funções executivas formam um conjunto de processos mentais de alto nível que coordenam habilidades cognitivas básicas, como memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva", explica Eleanor Johns, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Lancaster e coautora do estudo. "Essas capacidades permitem, por exemplo, que a criança siga instruções complexas, evite agir impulsivamente e adapte seu comportamento a novas situações", diz.

Segundo a especialista, estudos anteriores já haviam demonstrado que essas habilidades estão associadas a diversos desfechos ao longo da vida. Crianças com melhores funções executivas tendem a apresentar melhor desempenho escolar, especialmente em matemática e leitura, além de maior probabilidade de alcançar estabilidade profissional e bem-estar psicológico quando adultas. 

Por isso, argumenta Johns, compreender como essas capacidades se desenvolvem nos primeiros anos é considerado essencial para orientar políticas educacionais e intervenções precoces. Pesquisadores apontam que garantir boas habilidades executivas entre 3 e 5 anos pode gerar benefícios duradouros para a sociedade. 

Trajetória

O estudo britânico confirmou que o desenvolvimento dessas habilidades segue uma trajetória consistente ao longo da primeira infância. As avaliações mostraram que os escores de função executiva aumentaram progressivamente entre 30 meses e 78 meses — aproximadamente dos 2 anos e meio aos 6 anos e meio. 

Além disso, as diferenças individuais entre as crianças se mostraram relativamente estáveis ao longo do tempo. Ou seja, aquelas que demonstravam melhores habilidades executivas aos 30 meses tendiam a manter o desempenho superior anos depois. 

Outro fator associado ao desempenho foi o nível educacional da mãe. Filhos de mulheres com maior escolaridade obtiveram pontuações mais altas nas avaliações cognitivas, o que reforça a influência de fatores socioeconômicos e ambientais no desenvolvimento infantil, ressaltam os autores.

 

Três perguntas para Letícia Corrêa, pediatra

Por que o período de 2 a 6 anos é considerado tão crítico para o desenvolvimento do cérebro? 

Os primeiros 1 mil dias de vida, que hoje estudamos muito, são uma fase fundamental, em que as condições ambientais podem interferir no desenvolvimento cerebral. Sabemos que tanto a alimentação quanto o ambiente em que a criança é criada fazem grandes diferenças no cérebro do bebê futuramente. Por exemplo, estudos mostram que, nas crianças que mamam e que recebem colo dos pais, o cérebro fica mais pesado e mais desenvolvido, comparado com as que não recebem leite materno, colo, afeto e segurança do ambiente familiar. Então, até os 2 anos é a época de maior desenvolvimento, quando o cérebro está formando conexões e aprendizados — a primeira infância é um dos focos da pediatria, porque, se você cuida dessa fase, cuida do adulto que terá lá na frente. 

O que a senhora percebe de possíveis impactos da pandemia no desenvolvimento das crianças?

Nós percebemos desde março de 2020 a tendência a um aumento de diagnósticos do transtorno de hiperatividade e déficit de atenção. Também existe um aumento da ansiedade em geral nas crianças. Nós tentamos excluir outros fatores, como uso excessivo de tela e desorganização de rotina, mas percebemos, no geral, um aumento desses diagnósticos. É alteração de foco, de comportamento; muita distração durante a aula e até com impacto na capacidade de aprendizagem. A rigidez cognitiva, que é uma inflexibilidade da criança em negociar e ceder, também aumentou: na primeira infância, entre 1 e 5 anos, a criança que não teve socialização terá uma dificuldade maior de negociar. E isso acaba dificultando muito a convivência e também acaba impactando no futuro dessa criança, nas suas relações, no seu trabalho e até na sua capacidade de se organizar na vida.

Qual as principais implicações do estudo britânico?

O que a gente planta hoje a gente colhe amanhã. O cérebro da criança é como se fossem conexões elétricas e quanto mais as conexões que ela cria, maior a capacidade dela conseguir lidar com problemas complexos. Então, quanto mais a gente conversa com a criança, explica para criança, trata ela como um ser pensante, mas ela vai compreendendo o mundo e vai tendo maior capacidade no futuro de compreender o mundo e de produzir trabalhos, habilidades que vão construir cada vez mais. Então, o que a gente faz na infância tem, sim, o impacto para o resto da vida. Vai aumentando a complexidade, mas a base é na primeira infância. (PO)

Oportunidade única para investigar efeitos

O estudo britânico sobre o desenvolvimento das funções executivas na primeira infância ganhou uma dimensão inesperada quando a pandemia começou. Eleanor Johns, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Lancaster e coautora do artigo publicado na revista Child Development, conta que a coleta de dados já estava em andamento quando o Reino Unido decretou o primeiro lockdown nacional, em março de 2020.

Isso permitiu aos pesquisadores comparar o desenvolvimento das crianças antes e depois das restrições sociais. “Iniciamos esse estudo para compreender como a função executiva das crianças se desenvolve durante a primeira infância. No entanto, como nosso estudo longitudinal abrangeu a pandemia de covid-19, também tivemos uma oportunidade única de examinar como essa interrupção sem precedentes afetou as crianças que já estávamos acompanhando”, relata. 

Durante esse período, muitas famílias enfrentaram mudanças bruscas na rotina: fechamento de escolas e creches, isolamento social e aumento do estresse familiar. Segundo os autores, esses fatores podem interferir diretamente no desenvolvimento das funções executivas, já que as habilidades associadas dependem de interações sociais, estímulos cognitivos e ambientes estruturados. Entre os pais que responderam a questionários adicionais sobre a pandemia, 40% das crianças não recebiam qualquer tipo de cuidado formal, como creche ou escola, durante os lockdowns, enquanto pouco mais da metade manteve algum contato com instituições educacionais ao menos um dia por semana.

Variações

Os resultados sugerem que o impacto da pandemia variou conforme a idade das crianças quando as restrições começaram. Entre as que já haviam iniciado a escola primária, o amadurecimento das funções executivas foi mais lento ao longo do período analisado. 

Já os que eram pré-escolares no começo das restrições demonstraram uma trajetória de desenvolvimento mais acelerada posteriormente, possivelmente refletindo uma recuperação após o período de interrupção das atividades. “O início da vida escolar é uma transição importante no desenvolvimento, pois as crianças aprendem novas rotinas, adaptam-se às regras da sala de aula e desenvolvem a autorregulação juntamente com os seus colegas. Quando as escolas fecharam quase de repente, essas oportunidades foram subitamente eliminadas”, diz Eleanor Johns. 

Para a psicopedagoga Luciana Brites, do Instituto NeuroSaber, essa foi uma das constatações mais importantes do estudo. “Os resultados mostram que as crianças que estavam no início do fundamental quando começou a pandemia sofreram um impacto maior e mais duradouro nessas funções executivas do que as que estavam na pré-escola”, descreve. “Isso é muito interessante e significa que não basta só recuperar o conteúdo, temos de recuperar a experiência”, destaca. Brites ressalta que, para a realidade brasileira, onde 28,8 milhões de crianças e adolescentes vivem em situação de pobreza, essa é uma lição importante. “Aqui temos a questão da vulnerabilidade social, e a escola precisa ajudar a resgatar as experiências que foram perdidas”, opina. (PO)

 

Minimizar prejuízos

No cotidiano da sala de aula, práticas simples podem ter grande impacto no desenvolvimento das funções executivas. Ao participar de rodas de conversa, por exemplo, a criança aprende a ouvir, esperar sua vez de falar e organizar pensamentos. Atividades que envolvem sequências, como contar histórias ou seguir instruções, estimulam a memória de trabalho. Já propostas que desafiam a criança a encontrar diferentes soluções para um problema incentivam a flexibilidade cognitiva e a criatividade. Para minimizar possíveis prejuízos cognitivos e socioemocionais, são utilizadas várias estratégias pedagógicas, como as atividades que promovam a expressão de sentimentos e o fortalecimento de vínculos, além de intervenções focadas em atenção e interação social. O brincar livre e orientado também ganha destaque, pois permite que a criança elabore experiências e desenvolva competências de forma natural. É fundamental respeitar o ritmo de cada criança, evitando comparações e desmotivação.

Sabrina Fernandes, pedagoga com pós-graduação em educação especial e inclusiva 

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postado em 22/03/2026 05:03
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