
Um som inesperado — delicado, quase como o miado de um gato doméstico — está mudando o que a ciência sabia sobre a comunicação da onça-pintada. Pesquisadores do Projeto Onças do Iguaçu registraram, pela primeira vez, que fêmeas da espécie emitem vocalizações suaves e afetivas para interagir com seus filhotes, um comportamento até então não descrito em grandes felinos do gênero Panthera, como leões, tigres e leopardos.
Até então, acreditava-se que esses animais não eram capazes de produzir sons semelhantes ao miado, devido a diferenças anatômicas em relação aos felinos de menor porte. O novo achado revela uma espécie de “linguagem materna”, distinta dos sons mais graves — como o esturro — usados em contextos de reprodução ou marcação de território.
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“A descoberta redefine o que se conhecia sobre a comunicação desses animais e abre uma nova janela para entender a complexidade comportamental das onças”, explicou, em nota, Vânia Foster, do Projeto Onças do Iguaçu. “Ao identificar essa forma de vocalização entre mãe e filhote, conseguimos avançar na compreensão de como elas se comunicam em momentos-chave do cuidado parental, algo ainda pouco documentado para a espécie. Esse tipo de conhecimento ajuda a revelar dimensões mais sutis do comportamento desses felinos e contribui para orientar estratégias de pesquisa e conservação.”
Felipe Feliciani, analista em conservação do WWF-Brasil, reforça o impacto da descoberta: “Esse registro mostra que a comunicação das onças pode ser mais sofisticada do que se imaginava. Entender como as fêmeas interagem com seus filhotes ajuda a ampliar o conhecimento sobre o comportamento da espécie e reforça a importância de aprofundar os estudos sobre o maior felino das Américas”.
Monitoramento
O comportamento raro só foi identificado graças a anos de monitoramento contínuo no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. Desde 2018, o projeto mantém cerca de 60 pontos com armadilhas fotográficas, além de colares com tecnologia GPS e VHF, acompanhando diferentes gerações de onças.
Esse acompanhamento sistemático é essencial para flagrar situações incomuns, como a interação entre mãe e filhotes em ambiente natural — algo difícil de observar em expedições pontuais, especialmente na densa vegetação da Mata Atlântica.
A região do Alto Paraná concentra um dos últimos grandes remanescentes de Mata Atlântica com população reprodutiva de onças-pintadas. No início dos anos 2000, havia apenas 11 indivíduos no parque. Hoje, são cerca de 25 animais, com reprodução regular.
“Triplicar a população de onças em 25 anos é prova inequívoca da relevância das ações de conservação e conexão das paisagens para a preservação da espécie”, afirma Feliciani.
Esse avanço está diretamente ligado ao Corredor Tri-nacional do Iguaçu, que integra áreas protegidas no Brasil e na Argentina e permite a circulação dos animais, evitando o isolamento genético.
Ameaças
Apesar da recuperação, a principal ameaça à espécie continua sendo o ser humano. O desmatamento e a fragmentação das florestas reduzem o habitat e aumentam os conflitos com comunidades rurais. Casos de abate por retaliação e caça ilegal ainda são recorrentes.
O impacto é ainda maior devido ao ciclo reprodutivo lento: os filhotes permanecem com a mãe por cerca de dois anos, período em que aprendem habilidades essenciais para sobreviver. A perda de uma fêmea adulta, portanto, compromete não apenas um indivíduo, mas gerações futuras.
Saúde ambiental
Mais do que um predador de topo, a onça-pintada é considerada um indicador da qualidade ambiental. Onde ela está presente, há equilíbrio ecológico, com floresta preservada, água limpa e cadeias alimentares funcionando.
A nova descoberta reforça a importância de investir em monitoramento contínuo e em políticas de conservação. Além de proteger a espécie, esses esforços ampliam o conhecimento científico sobre a vida selvagem — revelando comportamentos que, até pouco tempo, eram completamente desconhecidos.
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