Meio ambiente

Floresta não vira savana, mas empobrece com incêndios

O estudo aponta que o futuro da floresta depende menos da sua capacidade de resistir a um único evento e mais de como ela responde à combinação de múltiplos distúrbios

Por duas décadas, pesquisadores causaram queimadas experimentais em Tanguro (MT) -  (crédito: Paulo Brando/Divulgação )
Por duas décadas, pesquisadores causaram queimadas experimentais em Tanguro (MT) - (crédito: Paulo Brando/Divulgação )

Resistente, a Floresta Amazônica não deve se tornar uma savana, como já foi citado por especialistas em clima e biodiversidade. Mas incêndios, secas severas e tempestades têm causado mudanças profundas no funcionamento do ecossistema, com empobrecimento da flora e da fauna, inclusive com risco de extinção de espécies. A conclusão é de um estudo que acompanhou, ao longo de duas décadas, áreas de transição entre Amazônia e Cerrado em Mato Grosso, submetidas a queimadas experimentais e a eventos climáticos extremos. 

Publicada na revista Pnas, o estudo aponta que o futuro da floresta depende menos da sua capacidade de resistir a um único evento e mais de como ela responde à combinação de múltiplos distúrbios — um cenário cada vez mais comum com o avanço das mudanças climáticas e da pressão humana. "A mensagem é clara: precisamos proteger as florestas remanescentes, pois uma vez degradadas, grande parte dos seus serviços é perdida", destaca Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale, em New Haven, e um dos autores do estudo, que recebeu apoio do Instituto Serrapilheira, do Brasil. "Isso implica implementar políticas públicas de exclusão do fogo em áreas florestais da Amazônia e de recuperação de áreas degradadas."

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A pesquisa foi conduzida na Estação de Pesquisa Tanguro, um dos principais laboratórios de campo para o estudo da Floresta Amazônica. A instalação foi criada em Querência (MS), em 2004, pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e permite aos cientistas observar o impacto do desmatamento e do uso da terra na dinâmica florestal. 

Experimentos

Por conta própria, os pesquisadores fizeram queimadas experimentais ao longo de mais de duas décadas, acompanhando a resposta da vegetação a incêndios repetidos, secas severas e tempestades de vento. Expostas às alterações do entorno, as bordas florestais foram as mais impactadas negativamente. Segundo os autores, com avanço da agricultura e do desmatamento, essas regiões ficam mais quentes, secas e sujeitas à dispersão do fogo, matando grandes árvores e dificultando a regeneração natural.

Na área estudada, porém, a floresta mostrou sinais de resiliência após a interrupção dos incêndios. Especialmente nos locais mais preservados, no interior da mata, a recuperação da diversidade e da estrutura da vegetação foi rápida, diferentemente do que aconteceu nas bordas, onde a riqueza de espécies sofreu reduções acima de 40%, mesmo após anos de recuperação. 

Uma das descobertas relevantes é a mudança no perfil das espécies que dominam a floresta após os distúrbios. Árvores típicas da Amazônia, mais especializadas e adaptadas a ambientes úmidos, diminuíram. Em seu lugar, cresceram as chamadas generalistas, capazes de sobreviver em diferentes condições ambientais. O processo, conhecido como homogeneização, reduz a diversidade biológica e pode comprometer funções ecológicas importantes. "Essa homogeneização florestal tem sérias implicações sobre o funcionamento, a estrutura e os serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas ao longo do tempo, levando a uma simplificação funcional e estrutural da comunidade", explica Maracahipes.

O pesquisador esclarece que, diferentemente do que relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) já sugeriram, a Floresta Amazônica não deve se transformar em uma savana. "Modelos climáticos historicamente simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os a dois estados possíveis: floresta ou savana. Essa abordagem ajudou a consolidar a ideia de um ponto de não retorno, que, claro, foi e é importante para políticas de conservação da Amazônia", reconhece. Porém, mesmo que a mata seja resiliente, a frequência e a intensidade de incêndios provocam importantes alterações no ecossistema, especialmente nas bordas, ressalta. 

 

  • Google Discover Icon
postado em 21/04/2026 05:05
x