Há tempos, o espaço não despertava tanta curiosidade — e exigia tanto investimento. Na sexta-feira da semana passada (10/4), a reentrada da cápsula Orion na atmosfera quebrou recordes de audiência na televisão e na internet: somente nas redes sociais Instagram e TikTok, o engajamento passou de 100 milhões entre usuários norte-americanos, segundo a ferramenta de estatística Sprout Social. Além de levar o homem ao ponto mais distante da Terra — 406,7 mil quilômetros — alcançado até hoje, a missão Artemis II simboliza uma nova era da corrida espacial, envolvendo vários países, agências públicas e empresas privadas, e com objetivos bem mais ousados do que a Apollo, de 1969.
O aspecto propagandístico ainda é forte, reconhecem especialistas. Mas é inegável que o cenário é bem diferente de meio século atrás, quando os Estados Unidos e a ex-União Soviética disputavam a conquista do espaço, menos por razões científicas e econômicas e mais para mostrar quem "mandava" no mundo. Hoje, outros países participam da exploração espacial, seja enviando sondas à Lua, como já fizeram China, Índia e Japão, ou investindo em tecnologias para nanossatélites, orbitadores, lançadores e rovers, caso de Brasil, Turquia, Austrália, União Europeia, Canadá, África do Sul e Israel, entre outros.
"Quando você tem atores diversos nessa corrida, aumenta a possibilidade de cooperação, o que pode baratear custos e aumentar o retorno", opina Thiago Gonçalves, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) apoiado pelo Instituto Serrapilheira. Além disso, o pesquisador lembra que, mesmo em projetos de agências nacionais, como a norte-americana Nasa, há colaboração de outros países. "O James Webb, por exemplo, não é um telescópio só da Nasa. É também da Agência Espacial Canadense e, sobretudo, da Agência Espacial Europeia, que contribuiu com muitos componentes. Acho que, sozinha, a Nasa não teria tido capacidade de desenvolver um telescópio tão avançado."
A cooperação entre os países, inclusive, é a base dos Acordos de Artemis, um conjunto de princípios bilaterais e multinacionais liderados pelos Estados Unidos e com a adesão de 61 nações até agora, incluindo o Brasil, para definir diretrizes da exploração espacial. Embora não vinculativo — os signatários não são obrigados a cumprir com os objetivos —, o documento é uma tentativa de se regulamentar as atividades humanas fora da Terra.
O professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) Doulgas Galante lembra que, quanto mais programas internacionais, mais dados, amostras e perspectivas científicas. "Os Estados Unidos estão focados no polo sul lunar, enquanto evidências recentes sugerem que a China pode optar por um pouso inicial mais próximo do equador, em uma região geologicamente rica. São estratégias diferentes, que vão gerar conhecimentos complementares."
Galante destaca, porém, a necessidade de uma cooperação sólida entre os programas espaciais. "Sem isso, pode haver conflitos sobre zonas de operação, recursos e até contaminação de locais de interesse científico", diz. Especialmente porque, seja na iniciativa pública ou na privada, a exploração de minérios e outros insumos é um dos principais objetivos das missões tripuladas ou não.
Metais
Metais de terras-raras, titânio, hélio-3 (um combustível promissor para a geração de energia limpa) e gelo de água, fundamental para bases humanas no espaço, por exemplo, são alguns dos recursos na mira tanto de agências nacionais quanto de empresas como a Blue Origins e a Space X. "Na iniciativa privada, o turismo espacial talvez seja um dos menores interesses", conta a astrofísica Thaisa Bergmann, membro titular da Academia Brasileira de Ciências.
Um dos locais mais visados para esse tipo de exploração é justamente a Lua, onde empresas privadas e agências nacionais pretendem estabelecer bases. O Brasil, por exemplo, negocia acordos para projetos de agricultura e satélites no ambiente lunar. Ter humanos permanentemente na Lua poderá garantir a prospecção de recursos, além de estabelecer um ponto de parada e lançamento para viagens mais longínquas, como a Marte.
"Sabemos que há muitas dificuldades, como ter de construir um habitat e adaptar os humanos para viver no espaço, mas já temos condição de fazer isso", acredita Thaisa Bergmann. "Nossa existência na Terra não é infinita, por isso é importante procurar outros espaços para habitarmos. E há o lado do avanço da ciência: ao investir na exploração espacial, nos beneficiamos com as consequências: os celulares, por exemplo, foram desenvolvidos em grande porque a astronomia precisava de imagem digital. E, por fim, não podemos esquecer que o homem é um explorador."
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