ONCOLOGIA

Pílula ajuda a manter a quimioterapia em dia

Muitos pacientes precisam interromper o tratamento devido a uma queda substancial na contagem de plaquetas. Um remédio oral já comercializado resolveu o problema para 65% de voluntários testados

Um medicamento oral já aprovado para trombocitopenia — condição em que a contagem de plaquetas no sangue está abaixo do normal — em pessoas com doença hepática ajudou pacientes com tumores gastrointestinais a manterem o número adequado dessas estruturas, permitindo que continuassem o tratamento quimioterápico. A constatação é de um ensaio clínico de fase 2 liderado por pesquisadores do Sylvester Comprehensive Cancer Center, da Universidade de Miami, e do Mass General Hospital de Boston, nos Estados Unidos. Os resultados, que serão apresentados no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), de 29 de maio a 2 de junho, mostraram que 65% dos pacientes que receberam o remédio avatrombopag conseguiram concluir o protocolo terapêutico, como planejado. 

Segundo os autores do estudo, os resultados apontam para uma abordagem eficaz contra um efeito colateral comum da quimioterapia, a trombocitopenia. Como as plaquetas ajudam a formar coágulos após lesões, pacientes com baixa contagem dessas estruturas correm o risco de sangramento excessivo e potencialmente fatal, mesmo após ferimentos leves. Não é incomum o tratamento de pacientes oncológicos ter de ser interrompido por essa causa, colocando em risco o sucesso do combate ao câncer. 

O avatrombopag já é aprovado pela agência regulatória dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), para a trombocitopenia em indivíduos com doença hepática. No entanto, até agora, seu uso para baixa de plaquetas provocada pela quimioterapia era incerto. Para verificar se a droga poderia auxiliar pessoas em tratamento de câncer, os autores realizaram um ensaio clínico com 40 pessoas diagnosticadas com tumores gastrointestinais. Segundo os autores, apenas com dados de 23 participantes já foi possível observar a eficácia do medicamento.

Os pacientes recrutados tinham cânceres gratrointestinais, como de estômago ou cólon, e sofriam de trombocitopenia induzida por quimioterapia (TIQ) persistente. Essas pessoas tinham baixa probabilidade de recuperação espontânea entre os ciclos de tratamento, ao contrário daquelas que, embora passassem por uma queda na contagem, voltaram aos níveis considerados normais sem necessidade de medicamentos.  

Pacientes com TIQ persistente normalmente não podem receber a próxima quimioterapia conforme o planejado, colocando em risco o sucesso do tratamento para o câncer. Conforme Flávia Xavier, hematologista do Hospital DF Star e da Oncologia D'OR, a eficácia da quimioterapia tem relação direta com a manutenção do esquema terapêutico. "Quando as plaquetas estão muito baixas, isso pode levar a atrasos e interrupções do protocolo de quimioterapia e impactar negativamente nos resultados."

Os autores do estudo que será apresentado no congresso da Asco também observam que pessoas que passam por mudanças no tratamento costumam ter resultados piores do que aqueles que conseguem seguir o cronograma inicial. "Com base em nossa experiência, esses são os pacientes que mais precisam e que mais se beneficiarão com o uso de um agonista do receptor de trombopoietina", disse Gerald A. Soff, que liderou a pesquisa.

Mais praticidade

Até o momento, nenhum agonista do receptor de trombopoietina foi aprovado para a condição induzida por quimioterapia, mas vários demonstraram resultados promissores em ensaios clínicos. Como o avatrombopag é um medicamento oral, os pacientes podem fazer o tratamento em casa, aumentando a adesão. Segundo os pesquisadores, sobretudo para quem precisa viajar longas distâncias, reduzir idas ao hospital pode ser uma grande vantagem. "Imagine alguém lidando com câncer metastático, não se sentindo bem e tentando manter uma vida normal; ter que ir ao médico toda semana para tomar uma injeção não é o ideal", disse Soff. "Se houver uma boa opção oral, isso seria muito atraente para muitas pessoas."

No ensaio clínico do avatrombopag, a equipe buscou dois efeitos positivos do medicamento. Os pacientes precisavam se recuperar da baixa contagem de plaquetas em até duas semanas, e esse número tinha de permanecer alto durante o próximo ciclo de quimioterapia. Das 23 pessoas que receberam a droga, 65% atingiram os dois objetivos, em comparação com apenas 17% daqueles do grupo placebo. Alguns voluntários continuaram com o tratamento e, agora, a equipe vai analisar os resultados para entender se, a longo prazo, os benefícios são mantidos. 

Momentânea

Nilson de Castro Correia, oncologista Clínico dos Hospitais Anchieta, reforça que o avatrombopag é um comprimido que estimula a medula óssea — a "fábrica do sangue" — a produzir mais plaquetas. "Diferentemente da transfusão, que repõe as plaquetas apenas de forma momentânea, o avatrombopag atua na origem do problema. Ele estimula a produção própria, com um efeito que costuma aparecer em cerca de duas semanas", observa. "Quem mais se beneficia são pessoas que ficam com as plaquetas persistentemente baixas entre um ciclo e outro de quimioterapia e que, por isso, teriam de adiar o tratamento."

Os autores do estudo também querem compreender se o avatrombopag poderia beneficiar pacientes com outros tipos de tumores. Eles se concentraram em cânceres gastrointestinais para minimizar as diferenças de tratamento, mas acreditam que pessoas com diversas doenças oncológicas podem ter os mesmos resultados positivos.

Palavra de especialista // Mais estudos necessários

"A trombocitopenia causada pela quimioterapia é um problema frequente, mas muitas vezes pouco discutido fora do ambiente médico. Além do risco de sangramentos, ela pode comprometer diretamente o tratamento do câncer, levando a atrasos e redução das doses. Por isso, o desenvolvimento de medicamentos capazes de ajudar os pacientes a manterem o tratamento oncológico adequadamente representa uma área de grande interesse na oncologia moderna. No entanto, apesar dos resultados animadores, os especialistas ressaltam que ainda são necessários estudos maiores para confirmar os benefícios e avaliar a segurança do medicamento a longo prazo. Os pesquisadores também precisam entender melhor quais pacientes terão maior benefício e se o medicamento pode trazer riscos adicionais, como aumento da chance de trombose em alguns casos."

Fernando Vidigal, oncologista do Hospital Brasília e diretor regional da Oncologia Américas Brasília

Eu acho...

“Essa medicação ajuda a resolver um desafio muito comum na oncologia: a queda das plaquetas durante a quimioterapia. O paciente precisa manter níveis mínimos adequados para seguir o tratamento com segurança, e o medicamento auxilia justamente nesse controle, contribuindo para a recuperação da medula óssea. O principal desafio ainda é o acesso. A minha expectativa é que, em breve, esteja disponível para um número maior de pacientes. Sem dúvida, é um avanço importante no suporte ao paciente oncológico.”

Angelo Brito, oncologista clínico do A.C. Camargo Cancer Center

 

 

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