Luta contra o câncer

Canetas emagrecedoras podem ajudar contra tumores

Três estudos apontam evidências da associação entre a utilização das canetas emagrecedoras e o impacto sobre tumores de mama, pulmão, intestino e fígado. Especialista associa o sobrepeso e a resistência insulínica à doença

Cientistas buscam entender se as canetas emagrecedoras também podem auxiliar mulheres com risco elevado de câncer  -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Cientistas buscam entender se as canetas emagrecedoras também podem auxiliar mulheres com risco elevado de câncer - (crédito: Reprodução/Freepik)

As famosas canetas emagrecedoras, originalmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2 e hoje utilizadas no combate à obesidade, começam a despertar crescente interesse da comunidade científica por um possível benefício adicional: a prevenção e o controle do câncer. Estudos apresentados durante reunião da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, apontam que os agonistas do receptor GLP-1 podem estar associados à redução da incidência de tumores, ao menor risco de progressão da doença e ao aumento da sobrevida entre pacientes oncológicos.

Uma das pesquisas discutidas no congresso — e publicada pela revista JCO Oncology Practice — analisou dados de 111.646 mulheres entre 45 e 80 anos e identificou uma associação entre o uso desses medicamentos e menor ocorrência do câncer de mama. As participantes que utilizavam agonistas de GLP-1 apresentaram cerca de 30% menos probabilidade de receber o diagnóstico da doença em comparação com aquelas que não foram tratadas com essa classe de remédios. O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade da Pensilvânia e apresentado por Elizabeth McDonald, professora de radiologia da Faculdade de Medicina Perelman e especialista em câncer de mama do Abramson Cancer Center, nos Estados Unidos. 

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Para chegar às conclusões, os cientistas revisaram prontuários eletrônicos de pacientes com índice de massa corporal igual ou superior a 25 que realizaram exames de imagem mamária entre janeiro de 2022 e junho de 2025. Do total analisado, 15.264 tinham prescrição documentada de medicamentos GLP-1, enquanto 96.382 não.

Os autores avaliaram o surgimento de novos casos em duas populações distintas: a amostra completa e um grupo menor de 30.528 mulheres classificadas por fatores como idade, raça, etnia, índice de massa corporal, densidade mamária e presença de diabetes. A redução observada foi consistente nas duas análises. Na população geral, houve 35,1% menos diagnósticos para aquelas que utilizaram GLP-1. Na comparação ajustada, a diferença alcançou 30,5%.

"Embora nosso estudo não confirme definitivamente uma associação entre medicamentos GLP-1 e redução da incidência de câncer de mama, ele contribui para um número crescente de evidências que justificam novas pesquisas", afirmou McDonald durante a apresentação.

Outro estudo italiano que envolveu cerca de 27 mil pacientes, também apresentado durante a reunião da Asco, revelou que a combinação dos medicamentos para perda de peso com o tratamento convencional esteve associada a uma redução de aproximadamente 30% no risco de morte por câncer de mama.

Outro trabalho, liderado pela Cleveland Clinic, em Ohio, baseou-se em dados de 12 mil pessoas com tumores de mama, pulmão, intestino ou fígado e indicou que os usuários das canetas apresentaram entre 38% e 50% menos probabilidade de desenvolver formas avançadas da doença ou de sofrer metástase em outros órgãos.

Relação direta com o peso

De acordo com  Solange Sanches, vice-líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center, a discussão sobre o GLP-1 está intimamente ligada ao papel da obesidade no desenvolvimento do câncer de mama. Isso porque o tecido adiposo não funciona apenas como um depósito de energia. "Ele é metabolicamente ativo, produz hormônios, citocinas inflamatórias e fatores de crescimento. Sabemos que, em mulheres com excesso de peso ocorre um aumento do estrogênio nesse tecido, além de um estado de inflamação crônica de baixo grau e outras alterações, como resistência à insulina e hiperinsulinemia. Esses fatores estimulam a proliferação celular, favorecem danos ao DNA e criam um ambiente propício ao surgimento e à progressão de tumores."

Médica especializada em câncer de mama da Oncologia D'Or, Laura Testa destaca que há muito tempo o sobrepeso, a resistência insulínica e todas alterações metabólicas estão associadas ao maior risco de câncer de mama. "Temos um pilar importante no cuidado das pacientes que tiveram esse diagnóstico, os tratamentos também abordam esse mecanismo que favorece o ganho de peso. É frequente no nosso dia a dia cuidar dessas mudanças relacionadas à obesidade", observa. 

Apesar do entusiasmo, pesquisadores alertam que não está claro se os resultados decorrem exclusivamente da redução do peso corporal ou de ações diretas dos medicamentos sobre vias biológicas relacionadas ao câncer. Para responder a essas questões, a Universidade da Pensilvânia trabalha na criação de um ensaio clínico multicêntrico destinado a avaliar a eficácia dessa estratégia em mulheres com risco elevado para a doença.

ALIADOS À PERDA DE PESO

Agonistas do receptor de GLP-1 são medicamentos que imitam o hormônio GLP-1, estimulando a insulina, promovendo saciedade, retardando o esvaziamento gástrico e reduzindo o apetite. 

PALAVRA DE ESPECIALISTA

Benefícios passíveis de confirmação

"A Asco 2026 marcou uma evolução importante nessa história. Em 2025, os dados sugeriam que os agonistas de GLP-1 poderiam reduzir o risco de desenvolver cânceres relacionados à obesidade. Em 2026, passamos a observar sinais de benefício também após o diagnóstico oncológico, incluindo redução do risco de progressão metastática em câncer de mama, de pulmão, de fígado e colorretal, além de possíveis ganhos em sobrevida.

Ana Paula Cardoso, oncologista do Einstein Hospital Israelita
Ana Paula Cardoso, oncologista do Einstein Hospital Israelita (foto: Estúdio Baena)
 

Se esses achados forem confirmados em estudos prospectivos, os GLP-1 poderão representar uma nova ferramenta dentro de uma estratégia mais ampla de prevenção oncológica, especialmente para mulheres com sobrepeso, obesidade ou risco aumentado. Eles não substituiriam medidas estabelecidas, como mamografia, ressonância, atividade física, alimentação saudável, redução do consumo de álcool e controle do peso. Mas poderiam se tornar uma intervenção complementar importante."

Ana Paula Cardoso é oncologista do Einstein Hospital Israelita

 

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postado em 03/06/2026 04:45
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