
O Ministério da Saúde anunciou, na segunda-feira (8/6), a suspensão temporária da vacinação contra a dengue com o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan. A decisão foi tomada após a identificação de eventos adversos considerados graves durante o monitoramento de segurança realizado pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI).
A orientação para quem recebeu a vacina é de manter atenção a sinais e sintomas de alerta, especialmente nos primeiros 21 dias de aplicação da dose.
A medida envolve exclusivamente o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, que vinha sendo aplicado em profissionais da atenção primária à saúde e em projetos-piloto realizados em municípios selecionados. A suspensão temporária não afeta a vacina contra a dengue oferecida atualmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, a Qdenga, desenvolvida pelo laboratório Takeda.
Mas como as vacinas se diferem entre si?
A Qdenga recebeu o aval da agência reguladora em março de 2023 e foi incorporada ao sistema público em dezembro do mesmo ano. Já o imunizante em desenvolvimento pelo Butantan tem sido estudado há 15 anos, com a fase 1 de testes clínicos sendo feita entre 2010 e 2012, e a fase 2, em 2013 e 2015.
A Qdenga é feita com o vírus da dengue atenuado, ou seja, o imunizante contém o vírus vivo, mas enfraquecido em laboratório, o que torna seguro para ser aplicado sem causar a doença. O vírus atenuado estimula o sistema imunológico a produzir células e anticorpos específicos.
A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan também é composta pelo vírus atenuado. O seu principal diferencial é sua composição: esse imunizante contém os quatro tipos do vírus da dengue em versões enfraquecidas. A Qdenga, por outro lado, é feita apenas com o subtipo DEV-2 atenuado. Apesar disso, ambas protegem contra os quatro tipos do vírus da dengue, o que é fundamental para evitar uma reinfecção.
A professora Anamélia Lorenzetti, do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília (UnB), explica que a principal diferença é que, por partirem de imunógenos diferentes, a Qdenga tem menor imunogenicidade do que a do Butantan e requer uma segunda dose de reforço, já que utiliza apenas as proteínas de superfície dos vírus 1, 3 e 4. A do Butantan, porém, não precisa de reforço, uma vez que utiliza os vírus completos dos sorotipos 1, 3 e 4, podendo atingir imunidade maior e mais rapidamente. “Ambas têm boas taxas de eficácia demonstradas até o momento”, completa.
A vacina Qdenga é indicada para crianças a partir de 4 anos de idade, adolescentes e adultos até 60 anos, independentemente se a pessoa já teve dengue antes ou não. O imunizante é contraindicado para pessoas com alergia grave a algum dos componentes da vacina, gestantes, mulheres em fase de amamentação, pessoas com imunodeficiência e pacientes com HIV.
Já a vacina do Butantan foi testada em ensaio clínico de fase 3 em 16.235 pessoas com idades de 2 a 59 anos. Dessas pessoas que receberam o imunizante, apenas três (menos 0,1%) apresentaram eventos adversos graves e todos se recuperaram totalmente. A frequência de eventos adversos foi a mesma em todas as faixas etárias, o que indica que a vacina deverá ser indicada para pessoas entre essas idades.
Quanto a efeitos colaterais ou reações, após a aplicação da Qdenga é possivel aparecer sintomas leves e temporários, que duram no máximo até três dias. “Isso acontece porque o virus está vivo, mesmo que muito fraco dentro do sistema, e o corpo reage de forma parecida a uma infecção real de dengue, mesmo que bem mais leve, para criar a imunidade”, explica Anamélia.
A professora explica também que a suspensão das aplicações ocorre em todos os ensaios clínicos de qualquer vacina ou medicamento para ter certeza de que a ocorrência observada é devida à vacina ou a uma outra condição do indivíduo. “Caso esse que ocorreu também durante o desenvolvimento das vacinas da Covid”, diz.
Segundo o ministério, o principal motivo para a interrupção da vacinação com a Butantan não foi a quantidade de ocorrências registradas, mas o fato de algumas manifestações observadas não terem sido identificadas nos estudos clínicos que avaliaram a segurança e a eficácia do imunizante antes da aprovação.
Quando uma vacina começa a ser aplicada em larga escala, o número de pessoas expostas ao medicamento aumenta significativamente, permitindo a identificação de eventos raros que podem não aparecer em pesquisas realizadas com grupos menores de participantes.
A suspensão foi recomendada pelo Comitê Nacional de Farmacovigilância do ministério após análise dos dados disponíveis. A medida permitirá ampliar a investigação dos casos e reunir informações adicionais sobre os eventos observados.

Ciência e Saúde
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