SAÚDE

Adultos com obesidade acima dos 40 anos têm melhora cardiovascular

De acordo com os autores do estudo, a tendência está relacionada principalmente ao aumento da prescrição de medicamentos para controle do colesterol, como as estatinas, e de fármacos para hipertensão

Atenção: apesar da melhora nos indicadores cardiovasculares entre os mais velhos, a equipe reforça  que a obesidade continua associada a diversos problemas de saúde -  (crédito: Image by Freepik)
Atenção: apesar da melhora nos indicadores cardiovasculares entre os mais velhos, a equipe reforça  que a obesidade continua associada a diversos problemas de saúde - (crédito: Image by Freepik)

Adultos com obesidade e mais de 40 anos apresentam, atualmente, níveis de pressão arterial e de gordura no sangue semelhantes aos de pessoas com índice de massa corporal (IMC) normal, segundo um estudo liderado por pesquisadores do Imperial College London. A pesquisa, publicada na revista The Lancet, incluiu dados de quase um milhão de pessoas. De acordo com os autores, essa tendência está relacionada principalmente ao aumento da prescrição de medicamentos para controle do colesterol, como as estatinas, e de fármacos para hipertensão.

 A análise identificou uma grande mudança nas últimas três décadas em países de alta renda. Em diversos locais, adultos mais velhos com obesidade passaram a registrar níveis de colesterol não HDL, que inclui LDL e VLDL, conhecido como "ruim", e de pressão arterial próximos, ou até mesmo menores, do que o visto em pessoas com o IMC normal.

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Por outro lado, a pesquisa mostrou que essa coincidência não ocorreu entre adultos com menos de 40 anos. Nesse grupo, as diferenças nos níveis de pressão arterial e colesterol entre pessoas com obesidade e indivíduos com IMC normal permaneceram praticamente inalteradas, o que, segundo os pesquisadores, pode ser explicado pelo menor uso de medicamentos preventivos nessa faixa etária.

Apesar da melhora nos indicadores cardiovasculares entre os mais velhos, a equipe reforça  que a obesidade continua associada a diversos problemas de saúde, como diabetes, doenças renais, enfermidades hepáticas e diferentes tipos de câncer.

O professor Majid Ezzati, principal autor do estudo e integrante da Escola de Saúde Pública do Imperial College London, realçou os resultados da pesquisa. "Numa altura em que os medicamentos para perda de peso estão cada vez mais utilizados, os nossos resultados fornecem um panorama da saúde cardiovascular das pessoas que provavelmente lhes serão prescritos, o que permite ao sistema de saúde compreender como os tratamentos para a pressão arterial e o colesterol beneficiam a população em conjunto com os medicamentos para a perda de peso."

Obesidade e saúde cardiovascular

Embora a relação entre obesidade, hipertensão e colesterol elevado seja amplamente conhecida, ainda havia poucas evidências sobre como esses indicadores evoluíram ao longo do tempo em comparação com pessoas de IMC normal.

Para responder a essa questão, os pesquisadores avaliaram informações de cerca de um milhão de pessoas reunidas em 110 bases de dados de saúde, coletadas entre 1990 e 2024. O estudo incluiu participantes da Inglaterra, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia e Finlândia.

Os dados mostram que, na década de 1990, adultos com obesidade apresentavam, de forma geral, pressão arterial e colesterol não HDL mais elevados do que indivíduos com IMC normal. Desde então, na maioria participantes analisados, a redução desses indicadores foi mais intensa entre pessoas com sobrepeso e obesidade de 40 a 79 anos.

Os resultados foram ainda mais expressivos entre pessoas de 60 a 79 anos. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, idosos com obesidade, sobretudo aqueles com a condição grave, chegaram ao fim do período analisado com níveis de pressão arterial e colesterol não-HDL semelhantes ou até inferiores aos observados em pacientes com IMC normal.

Segundo os pesquisadores, a principal explicação para essa mudança é o aumento do tratamento medicamentoso voltado à prevenção cardiovascular. Nas últimas três décadas, pessoas com obesidade passaram a receber com maior frequência prescrições de estatinas e medicamentos anti-hipertensivos.

Vagner Vinicius Ferreira, cardiologista do Hospital Mantevida, em Brasília, diz que o controle rigoroso da pressão arterial e do colesterol diminui de forma expressiva o risco de infarto e AVC, mas não elimina as demais consequências da obesidade. "O excesso de gordura corporal continua aumentando o risco de diabetes tipo 2, doença renal crônica, esteatose hepática, alguns tipos de câncer, apneia do sono e problemas osteoarticulares. Portanto, controlar os fatores de risco cardiovasculares é fundamental, mas não substitui o tratamento da obesidade como doença crônica."

Jovens vulneráveis

Entre adultos com menos de 40 anos, a pesquisa encontrou pouca ou nenhuma redução na diferença dos níveis de colesterol e pressão arterial entre pessoas com obesidade e aquelas com IMC normal. Os dados indicam que o uso de medicamentos para controle desses fatores de risco permanece baixo nessa faixa etária, reforçando a hipótese de que o tratamento farmacológico é o principal responsável pela melhora observada entre os mais velhos.

"Intervenções precoces no estilo de vida, exames de rastreio e, quando apropriado, medicação nesse grupo mais jovem devem ser considerados para prevenir complicações cardiovasculares a longo prazo associadas à obesidade", disse Ysé d'Ailhaud de Brisis, assistente de pesquisa em saúde populacional da Escola de Saúde Pública do Imperial College London.

Para a endocrinologista Fernanda Parra, de São Paulo, em jovens, o principal problema é o tempo de exposição precoce à obesidade, associado a um ambiente metabólico que começa a se deteriorar mais cedo. "Além disso, muitas vezes há subdiagnóstico e menor intervenção nessa faixa etária, o que atrasa o início de tratamento preventivo. Isso faz com que o risco se acumule ao longo do tempo."

"A abordagem precisa ser precoce, contínua e multifatorial. Isso inclui prevenção desde fases iniciais do ganho de peso, tratamento ativo da obesidade como doença crônica, controle dos fatores metabólicos associados e acompanhamento longitudinal. Quanto mais cedo intervir, menor o acúmulo de risco metabólico ao longo da vida", alerta a endocrinologista.

Palavra de especialista

"O controle de pressão arterial e colesterol reduz significativamente eventos cardiovasculares, mas não elimina os efeitos sistêmicos da obesidade. A obesidade continua atuando por outros mecanismos, como: inflamação crônica de baixo grau; resistência à insulina; disfunção endotelial e risco aumentado de diabetes, câncer e doença hepática. Ou seja, há uma melhora importante do risco cardiovascular, mas não uma neutralização completa do impacto da obesidade. Em jovens com obesidade, o risco permanece mais elevado principalmente porque há menor prescrição de medicamentos preventivos nessa faixa etária; o tempo de exposição à obesidade ainda é menor, mas crescente; há atraso na identificação de fatores de risco, com hipertensão e dislipidemia subdiagnosticadas e menor intervenção precoce no estilo de vida."

Marcelo Bergamo, cardiologista e responsável técnico da Coreclin,
em São Paulo

 

 

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postado em 03/07/2026 05:10
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