"ANÃ BRANCA"

Telescópio da Nasa mostra como planeta sobreviveu à morte de estrela

Os pesquisadores avaliam que a descoberta oferece um raro vislumbre do que poderá ocorrer com o Sistema Solar em um futuro distante, já que o Sol deverá esgotar o hidrogênio de seu núcleo daqui a cerca de cinco bilhões de anos

Antes da morte de uma estrela semelhante ao Sol, um planeta gigante conseguiu escapar de um destino que parecia inevitável. Informações divulgadas pela NASA nesta quarta-feira (1º/7) mostram que novas observações feitas pelo Telescópio Espacial James Webb ajudaram a explicar como o exoplaneta "WD 1856 b" sobreviveu à fase final da evolução de sua estrela e hoje orbita uma "anã branca" a uma distância extremamente pequena. O estudo foi publicacado na revista Nature

Bilhões de anos atrás, a estrela que abriga o planeta entrou na fase de "gigante vermelha", quando aumentou drasticamente de tamanho antes de expelir suas camadas externas. O processo deu origem ao que cientistas chamam de "anã branca", remanescente estelar "extremamente quente e densa". Contudo, o WD 1856 b, um gigante gasoso com dimensões semelhantes às de Júpiter, completa uma volta ao redor da estrela em apenas 34 horas, mantendo uma órbita inferior a 3 milhões de quilômetros.

Para entender como isso foi possível, pesquisadores de diferentes países analisaram o trânsito do planeta em frente à anã branca utilizando o James Webb. A técnica permitiu medir tanto a temperatura quanto a composição da atmosfera do exoplaneta. 

As observações feitas indicaram que o planeta é muito mais quente do que seria esperado caso recebesse apenas radiação emitida pela estrela, além de fornecer pistas sobre como ele migrou para ma órbita tão próxima após o fim da vida da estrela. 

O planeta foi identificado em 2020 por pesquisadores que utilizaram o satélite Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS) e o já aposentado Telescópio Espacial Spitzer, ambos da NASA. O sistema está localizado a cerca de 80 anos-luz da Terra.

Segundo o autor principal  do estudo, Ryan MacDonald, da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, a anã branca orbitada planeta possui dimensões similares às da Terra. "O planeta tem aproximadamente o tamanho de Júpiter, enquanto a anã branca que ele orbita possui dimensões semelhantes às da Terra. Isso significa que o planeta é cerca de sete vezes maior que sua estrela."

A proximidade entre o planeta e a anã branca chama atenção: a distância é aproximadamente 50 vezes menor do que a existente entre a Terra e o Sol. Se essa fosse sua posição original, o planeta teria sido destruído quando a estrela se expandiu. A grande questão para os cientistas era explicar como ele conseguiu sobreviver e alcançar a órbita atual.

Massa e temperatura 

As observações do James Webb também permitiram estimar que o WD 1856 b possui entre 4 e 11 vezes mais a massa de Júpiter. Além disso, os pesquisadores calcularam sua temperatura em cerca de 126 °C, valor considerado elevado para um planeta aquecido apenas pela fraca radiação emitida por uma anã branca. 

Esse aparente paradoxa acabou se tornando a principal pista sobre sua pista sobre sua trajetória. Para os pesquisadores, o calor observado é um vestígio de um episódio ocorrido há bilhões de anos, quando o planeta passou por um intenso aquecimento durante sua migração em direção à estrela.

O coautor Christopher O'Connor, da Universidade Northwestern, explicou. "A principal questão é como o WD 1856 b chegou à posição em que se encontra hoje. Existem duas hipóteses. Na primeira, o planeta teria sido engolfado pela estrela durante sua fase final de evolução e conseguido sobreviver em seu interior. Na segunda, sua migração orbital teria ocorrido devido às perturbações gravitacionais produzidas por outros objetos do sistema. A anã branca faz parte de um sistema estelar triplo, e as estrelas companheiras podem ter alterado gradualmente a órbita do planeta."

Ao combinar modelos de evolução térmica com os dados coletados pelo telescópio, os cientistas concluíram que o aquecimento ocorreu entre "3 e 5,5 bilhões de anos após a formação da anã branca". Isso reforça a hipótese de que o planeta permaneceu inicialmente em uma órbita distante, escapando da destruição durante a fase de gigante vermelha, e só muito tempo depois foi deslocado para a região interna do sistema.

"À medida que o planeta migrou para o interior do sistema, sua interação com o intenso campo gravitacional da anã branca provocou um aquecimento significativo. Desde então, ele vem resfriando lentamente", explica O'Connor.

Atmosfera com metano

A análise da luz da estrela atravessando a atmosfera do planeta durante o trânsito também revelou detalhes sobre sua composição química. Os pesquisadores identificaram sinais claros de nuvens e de hidrocarbonetos, principalmente metano.

A coautora Victoria Boehm, da Universidade Cornell, afirmou: "Detectamos assinaturas inequívocas de pequenas partículas de nuvens e de hidrocarbonetos, muito provavelmente metano. Esta é a primeira vez que observamos uma atmosfera em um planeta que transita uma estrela já extinta."

Ela acrescentou:

"Recentemente observamos outros quatro trânsitos do WD 1856 b com o James Webb para investigar sua composição atmosférica com muito mais profundidade. Estamos ansiosos pelos resultados."

O que isso revela sobre o futuro do Sistema Solar

Os pesquisadores avaliam que a descoberta oferece um raro vislumbre do que poderá ocorrer com o Sistema Solar em um futuro distante. Daqui a cerca de cinco bilhões de anos, o Sol deverá esgotar o hidrogênio de seu núcleo, expandir-se até se tornar uma gigante vermelha e, posteriormente, encerrar sua evolução como uma anã branca.

Nesse processo, Mercúrio e Vênus certamente serão destruídos, enquanto o destino da Terra ainda é incerto. Já os gigantes gasosos, como Júpiter e Saturno, podem sobreviver e sofrer alterações em suas órbitas, cenário semelhante ao observado no sistema do WD 1856 b.

Segundo Ryan MacDonald, esta é a primeira vez que cientistas conseguem "olhar para o futuro" e investigá-lo. 

"Estamos acostumados a utilizar telescópios para observar o passado do Universo. Esta é a primeira vez que conseguimos olhar para o futuro e investigar o que poderá acontecer com os planetas externos de um sistema semelhante ao nosso após a morte de uma estrela como o Sol. É como utilizar uma máquina do tempo para vislumbrar o futuro distante do Sistema Solar."

James Webb

O Telescópio Espacial James Webb é atualmente o principal observatório espacial voltado à exploração do Universo. Desenvolvido em uma parceria entre a NASA, a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Agência Espacial Canadense (CSA), o equipamento tem como objetivo investigar desde corpos do Sistema Solar até galáxias formadas nos primeiros momentos do cosmos.

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