INOVAÇÃO EM VACINAS

USP desenvolve vacina inovadora que bloqueia replicação do chikungunya

Testada com sucesso em camundongos, a tecnologia inédita é segura até para idosos e pessoas imunossuprimidas

A tecnologia desenvolvida por cientistas da USP e da Alemanha impede que o vírus complete sua maturação, bloqueando novos ciclos de infecção no organismo -  (crédito: Arquivo/Agência Brasil)
A tecnologia desenvolvida por cientistas da USP e da Alemanha impede que o vírus complete sua maturação, bloqueando novos ciclos de infecção no organismo - (crédito: Arquivo/Agência Brasil)

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com cientistas da Universidade de Bonn, na Alemanha, desenvolveram uma abordagem para criar vacinas a partir de vírus geneticamente modificados que conseguem estimular o sistema imunológico sem completar o processo necessário para provocar uma infecção.

A tecnologia foi descrita em um artigo publicado em maio de 2026 na revista npj Vaccines e, nos primeiros experimentos, apresentou resultados positivos contra o vírus chikungunya. O trabalho teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) por meio dos projetos 17/19137-7, 18/11939-0 e 23/09619-5.

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A estratégia consiste em fazer com que o vírus utilizado na vacina consiga realizar apenas uma rodada de replicação dentro do organismo. Depois disso, as partículas produzidas permanecem em uma forma imatura, incapaz de infectar novas células. Dessa maneira, o sistema imunológico entra em contato com o vírus e desenvolve uma resposta de defesa, mas sem que o patógeno consiga estabelecer uma infecção.

Nos testes realizados até agora, uma única aplicação foi suficiente para proteger camundongos contra o chikungunya. Além do resultado específico contra a doença, os pesquisadores identificaram nos animais imunizados uma resposta capaz de neutralizar também o vírus mayaro. A descoberta pode servir de base para uma plataforma que, futuramente, seja adaptada para outros agentes infecciosos.

Segundo Danillo Lucas Alves Esposito, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e primeiro autor do estudo, a estratégia busca combinar a capacidade de estimular uma resposta imune com a segurança de uma vacina que não pode causar a infecção:

“A ideia foi criar um vírus que entra na célula e ativa o sistema imune, mas é fisicamente incapaz de se tornar infeccioso. Assim, o imunizado não apresenta sintomas nem corre o risco de desenvolver a doença. Isso é importante, pois permite uma proteção robusta sem risco de efeitos colaterais, ampliando o uso também para pessoas imunossuprimidas e idosos”, explicou em entrevista à Agência Fapesp.

Como funciona a nova tecnologia

A produção de vacinas já recorre a diferentes formas de estimular o organismo a reconhecer um agente infeccioso. Algumas formulações empregam vírus atenuados, que tiveram sua capacidade de causar doença reduzida por alterações genéticas, enquanto outras utilizam patógenos inativados, que não conseguem se multiplicar.

Também existem plataformas que não dependem do vírus completo. É o caso das vacinas de subunidades proteicas, que utilizam apenas partes do agente infeccioso; das recombinantes, produzidas a partir de proteínas virais obtidas em laboratório; e das conjugadas, que associam componentes do patógeno a proteínas capazes de intensificar a resposta imunológica.

Há ainda os vetores virais, usados para transportar antígenos, além das tecnologias de DNA e RNA mensageiro, que levam às células as instruções necessárias para a produção de proteínas virais.

A proposta desenvolvida pelos pesquisadores da USP e da Universidade de Bonn segue outro caminho. Em vez de simplesmente enfraquecer ou inativar o vírus, os cientistas fizeram alterações para impedir que ele complete a etapa de maturação necessária para adquirir capacidade infecciosa.

“Isso é importante, pois hoje temos uma vacina de vírus atenuado contra o chikungunya que, após um período de suspensão, em 2025, voltou a ser aprovada pelo FDA [agência norte-americana que regula medicamentos], porém com restrições. Ela não é indicada para pessoas muito jovens, idosos, imunocomprometidos ou que têm algumas comorbidades [doenças associadas], pois pode gerar efeitos adversos”, comentou o pesquisador.

Bloqueio da maturação do chikungunya

Para entender a estratégia, é necessário considerar uma etapa do ciclo de vida do vírus. De acordo com Esposito, a maioria dos vírus precisa passar por um processo de maturação antes de adquirir a capacidade de infectar novas células. Entre os arbovírus, grupo que inclui chikungunya, zika, dengue e febre amarela, essa transformação ocorre ao final da replicação dentro da célula hospedeira.

No chikungunya, uma proteína chamada E3 inicialmente permanece sobre outra proteína de superfície, a E2. A segunda é responsável pela entrada do vírus em novas células e só consegue exercer essa função depois que a E3 é retirada.

“Especificamente no caso do chikungunya, a maturação depende da remoção de uma proteína de superfície [E3], que cobre a proteína responsável por permitir a entrada do vírus na célula [E2]. Quando a E3 não é removida, a E2 não fica exposta e o vírus não consegue infectar”, esclareceu Esposito.

Em uma infecção natural, a retirada da E3 é realizada pela furina, uma enzima produzida pelas células do hospedeiro. Para impedir que o vírus utilizado na vacina completasse esse processo, os pesquisadores recorreram a uma linhagem de células humanas que não produz a enzima.

O desafio, porém, era manter a capacidade do vírus de se replicar inicialmente. Essa etapa é necessária para que o sistema imunológico tenha contato suficiente com os antígenos e produza uma resposta de defesa.

Alteração genética impede novas infecções

Os pesquisadores modificaram o material genético do chikungunya para substituir o ponto normalmente reconhecido pela furina por uma sequência que pode ser processada pela enzima TEV, produzida pelo vírus que infecta o tabaco.

Como essa enzima não está presente em seres humanos nem em mosquitos, o vírus modificado consegue completar a primeira etapa planejada em condições controladas, mas não encontra no organismo os elementos necessários para repetir o processo.

“Assim, o vírus é ‘ativado’ artificialmente antes da vacinação. Mas, como essa enzima não está presente no organismo humano, o patógeno não consegue realizar novas infecções”, disse o cientista.

Com a primeira replicação concluída, as novas partículas virais formadas no organismo permanecem imaturas. Elas, portanto, não conseguem avançar para outras células e passam a atuar como estímulos para o sistema imunológico.

“Eles funcionam apenas como antígenos, servindo de modelo para o sistema imune”, completou. 

Tecnologia pode ser adaptada para outros vírus

Os experimentos também apresentaram um resultado que pode ampliar o alcance da plataforma. Além de responder ao chikungunya, os animais que receberam a vacina produziram uma resposta capaz de neutralizar o vírus mayaro, indicando a possibilidade de proteção cruzada entre os dois agentes.

A característica também levou os pesquisadores a considerar aplicações para outros vírus cujo ciclo de maturação dependa de mecanismos semelhantes.

“Como vários arbovírus dependem da furina para se tornarem infecciosos, a plataforma pode ser adaptada para zika, febre amarela e até variantes do SARS-CoV-2 [o vírus da COVID-19], por exemplo”, disse.

A próxima etapa do trabalho envolve a continuidade dos estudos com a vacina contra o chikungunya e o avanço dos testes necessários para avaliar sua aplicação em humanos. Paralelamente, a equipe pretende investigar a adaptação da mesma plataforma para outros arbovírus.

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postado em 19/08/2026 10:11
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