
Fogo como ferramenta de prevenção, e não apenas de destruição. Um estudo publicado na revista científica Springer Nature e desenvolvido pelo Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) revela que as comunidades quilombolas Kalunga, no norte de Goiás, utilizam queimadas controladas como uma tecnologia tradicional capaz de reduzir o risco de grandes incêndios florestais no Cerrado.
A pesquisa conclui que o conhecimento ecológico acumulado por gerações fragmenta o combustível vegetal e torna a paisagem mais resiliente ao fogo, mas alerta que as mudanças climáticas e políticas de proibição total das queimadas ameaçam esse sistema ancestral.
Os Kalunga vivem no maior território quilombola do Brasil, onde a agricultura familiar, a criação de gado e o manejo da vegetação fazem parte do cotidiano. Para os pesquisadores, o fogo desempenha um papel central nessa organização produtiva: quando usado em pequenas áreas, no momento adequado e sob monitoramento comunitário, ele ajuda tanto na produção de alimentos quanto na prevenção de incêndios de grandes proporções.
Como o fogo protege a vegetação
A principal estratégia identificada pelo estudo é a formação de mosaicos na paisagem. Em vez de queimar extensas áreas de uma só vez, os agricultores realizam queimadas leves em parcelas diferentes ao longo do tempo.
Na prática, essas áreas queimadas ou cultivadas interrompem a continuidade do capim seco, principal combustível dos incêndios. Assim, caso um fogo acidental surja, ele encontra barreiras naturais e tem mais dificuldade para se espalhar.
Segundo os autores, esse manejo transforma o fogo em uma tecnologia de governança socioecológica: além de sustentar os meios de subsistência, reduz a intensidade e a propagação das queimadas no Cerrado.
A pesquisa destaca que as decisões sobre quando queimar não são improvisadas. Elas fazem parte do chamado Conhecimento Ecológico Tradicional, construído pela observação contínua da natureza.
Os moradores avaliam fatores como:
- umidade da vegetação;
- direção e intensidade dos ventos;
- chegada das primeiras chuvas;
- fases da lua e condições do solo.
As queimadas costumam ocorrer durante a noite ou no início do período chuvoso, quando há maior umidade e menor risco de o fogo escapar do controle. Esse conjunto de saberes, segundo o estudo, tem se mostrado consistente com dados científicos sobre o comportamento do clima na região.
Secas mais longas reduzem as janelas seguras
Ao comparar relatos dos moradores com registros meteorológicos entre 1980 e 2024, os pesquisadores verificaram que as percepções locais refletem uma mudança real no Cerrado. As estações secas estão se tornando mais longas, mais quentes e marcadas por ventos intensos. Como consequência, o período considerado seguro para realizar queimadas controladas diminuiu significativamente.
Esse encurtamento das chamadas "janelas de queima" aumenta o risco de que incêndios inicialmente controlados se tornem eventos de maior gravidade, exigindo adaptação das práticas tradicionais diante de um clima cada vez mais extremo.
Um dos pontos centrais da pesquisa é a crítica às políticas públicas que proíbem indiscriminadamente o uso do fogo. Os autores argumentam que, sem o manejo tradicional, o material vegetal seco se acumula durante anos. Quando ocorre um incêndio provocado por raios, acidentes ou ação humana, a quantidade de combustível disponível favorece a formação de megaincêndios muito mais difíceis de combater.
Além das restrições legais, outras transformações também pressionam o território Kalunga, como a expansão de pastagens plantadas e a substituição de raças de gado adaptadas ao Cerrado por espécies que exigem capins mais inflamáveis.
Como recomendação, o estudo propõe substituir políticas genéricas de proibição por modelos de cogestão do fogo, reunindo comunidades quilombolas e órgãos ambientais na definição de estratégias de manejo.
Entre as medidas sugeridas estão a formalização de janelas de queima definidas localmente, a manutenção de aceiros comunitários e a integração do conhecimento tradicional com critérios técnicos de monitoramento climático.
Para os pesquisadores, reconhecer o saber ancestral dos Kalunga não significa ampliar queimadas, mas utilizar uma prática histórica como aliada na prevenção de incêndios e na conservação de um dos biomas mais ameaçados do país.

Ciência e Saúde
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