
A endometriose, doença que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta 10% das mulheres em idade reprodutiva, pode causar impactos que vão muito além da dor pélvica e das alterações menstruais. Estudos recentes reforçam a necessidade de compreender a condição de forma mais ampla. Segundo os trabalhos, o quadro aumenta o risco de diabetes tipo 2 e provoca diferentes sintomas, incluindo manifestações digestivas, neurológicas e psicológicas.
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A primeira pesquisa, liderada por cientistas da George Mason University, nos Estados Unidos, analisou dados de quase 3 milhões de mulheres acompanhadas durante 25 anos. Publicado na revista Diabetology, o estudo apontou que pacientes com endometriose apresentaram risco 46% maior de desenvolver diabetes tipo 2 em comparação com aquelas sem a doença.
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Os pesquisadores ressaltam que o resultado demonstra uma associação, e não que a endometriose seja responsável diretamente pelo desenvolvimento do diabetes. Uma das hipóteses é o papel da inflamação crônica característica da endometriose sobre a saúde metabólica.
Um dos achados que mais chamou a atenção foi o fato de a associação ser mais forte entre mulheres na pré-menopausa e sem obesidade, grupos que, tradicionalmente, não são considerados os de maior risco para diabetes tipo 2. As chances de desenvolver o quadro também variaram de acordo com o tipo de endometriose e foi mais acentuado em pacientes que tinham a doença extrapélvica, quando ela se localiza fora da região pélvica.
"Estudos anteriores avaliaram a endometriose principalmente como uma condição isolada e, em geral, relataram pouca ou nenhuma associação geral com o diabetes tipo 2", destacou Fuzak Nunziato, autor principal do estudo. "Nossos resultados contribuem para uma compreensão crescente de que a condição pode afetar mais do que apenas a saúde reprodutiva."
Segundo Igor Trotte, ginecologista e endocrinologista no Rio de Janeiro, a endometriose é uma doença inflamatória crônica. "Sabemos que mediadores inflamatórios, como algumas citocinas, podem interferir nas vias de sinalização da insulina e reduzir a capacidade de tecidos, como músculo e tecido adiposo, de captar adequadamente a glicose."
"Quando esse processo se mantém ao longo do tempo, o organismo precisa produzir quantidades maiores de insulina para manter a glicemia normal. É o que chamamos de resistência à insulina. Em indivíduos predispostos, a manutenção dessa atividade pode contribuir, ao longo dos anos, para o desenvolvimento do diabetes tipo 2", detalhou.
Dificuldades no diagnóstico
Outro estudo, liderado pelo Instituto de Pesquisa Sant Pau, na Espanha, e publicado na revista Human Reproduction, reforça que a endometriose também pode apresentar manifestações fora do sistema reprodutivo. Os cientistas analisaram dados de mais de 22 mil mulheres e identificaram quatro padrões principais de sintomas.
Entre as manifestações avaliadas estavam dor pélvica crônica, dor abdominal, sintomas gastrointestinais, síndrome do intestino irritável, enxaqueca, ansiedade, depressão, fadiga crônica e infertilidade.
Nas mulheres na pré-menopausa, 18,8% apresentaram um perfil de alta carga de sintomas, marcado por dor intensa, problemas gastrointestinais e alterações de humor. O maior grupo, com cerca de 30% das participantes, apresentou quadros moderados, principalmente relacionados à dor e à saúde emocional. Outro grupo, correspondente a 29,6%, foi caracterizado principalmente por questões psicológicas e neurológicas, como ansiedade, depressão e enxaqueca.
Os resultados ajudam a explicar uma das dificuldades históricas no diagnóstico da endometriose, a grande diversidade de manifestações. Uma mulher pode procurar atendimento inicialmente por causa de enxaquecas, alterações intestinais, fadiga ou sofrimento emocional, sem que esses sintomas sejam relacionados à doença. Isso pode levar a consultas com diferentes especialistas e atrasar a identificação de uma possível causa comum.
Segundo Marina Aguiar de Almeida, ginecologista e obstetra do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN), em Brasília, entender a paciente como um todo é fundamental. "Conhecer o hábito intestinal, rotinas de sono, alimentação, dores e angústias que vão além da pelve faz parte de uma abordagem integrada e de um tratamento e acompanhamento eficazes."
"O maior sinal da endometriose ainda é a dor pélvica, mas conhecer as outras queixas por meio da escuta ativa é de extrema importância. Sintomas que melhoram e pioram com o ciclo menstrual são o primeiro alerta para que o médico suspeite de endometriose e encaminhe a paciente ao especialista", completou.
Dor e sangramento
O estudo também analisou mulheres que apresentavam, simultaneamente, endometriose e adenomiose. Na adenomiose, um tecido semelhante ao endométrio cresce dentro da parede muscular do útero, podendo provocar dor intensa e sangramento menstrual excessivo. Nesse grupo, 57% das pacientes estavam concentradas nos perfis de maior carga de sintomas, caracterizados por dor intensa, manifestações gastrointestinais e sofrimento emocional.
Outro aspecto importante foi o impacto na qualidade de vida. As pacientes com maior carga de sintomas apresentaram piores indicadores de saúde física e mental, além de mais limitações para atividades cotidianas, mobilidade, participação social e bem-estar emocional.
Exame de sangue: diagnóstico mais rápido
Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, descobriram que pessoas com endometriose apresentam diferenças em um grupo de hormônios masculinos. Segundo a pesquisa, publicada na European Journal of Endocrinology, essa alteração pode ser usada para criar um exame de sangue capaz de detectar a doença.
Para o trabalho, os cientistas analisaram os níveis hormonais no sangue de 159 mulheres com endometriose confirmada e 57 sem a doença. A análise concentrou-se nos andrógenos, incluindo os 11-oxigenados, um grupo produzido pelas glândulas suprarrenais.
Ao avaliar os dados, os pesquisadores descobriram que pessoas com endometriose apresentavam um perfil hormonal distinto, incluindo altos níveis do andrógeno 11-oxigenado e 11-cetotestosterona. Essa diferença foi usada para identificar pacientes com a condição, alcançando 95% de eficácia.
O autor principal do estudo, Douglas Gibson, do Centro de Saúde Reprodutiva da Universidade de Edimburgo, afirmou que as descobertas representam um avanço significativo na compreensão da endometriose. "Tradicionalmente vista como uma doença impulsionada pelo estrogênio, a nossa investigação desafia essa crença, demonstrando diferentes níveis de androgénios na doença. Estamos otimistas de que esta nova perspectiva conduzirá a um diagnóstico mais precoce e ao desenvolvimento de novos tratamentos inovadores para as pessoas afetadas pela condição."
De acordo os especialistas, o estudo fornece novas informações cruciais sobre o importante papel dos hormônios masculinos no desenvolvimento da endometriose e também pode oferecer uma possível via para futuros alvos terapêuticos.
Em colaboração com a Edinburgh Innovations, o serviço de comercialização da universidade, a equipe agora busca parceiros da indústria para ajudar a desenvolver um exame de sangue, baseado nos trabalhos realizados, eficaz para diagnóstico de endometriose.
De acordo com Alexandre Brandão, ginecologista da Maternidade Brasília, da Rede Américas, e especialista em endometriose, ter um exame que ajuda a confirmar o diagnóstico de endometriose seria muito positivo e importante. "Vai contribuir para o tratamento e reduzir, significativamente, a demora na confirmação do quadro e agilizar o início do tratamento clínico adequado das pacientes."
"Um outro ponto que considero tão importante quanto, ou até mais relevante, é conscientizar os profissionais de saúde e divulgar informações para a população em geral sobre os sintomas da endometriose." Segundo o especialista, o principal deles é a cólica menstrual incapacitante. "Ter uma dor leve, um desconforto que, às vezes, melhora sem fazer nada durante o período menstrual, é uma coisa. Agora, uma cólica que faz a pessoa parar o que está fazendo para tomar remédio, deixar de trabalhar, estudar ou de fazer atividades que gosta por causa da dor, isso não é normal."
Palavra de especialista
Mudanças nos cuidados
"A endometriose ainda é uma doença que pode se esconder atrás de sintomas muito comuns. Dor menstrual, dor pélvica, questões intestinais, dor na relação e até infertilidade podem ter diversas causas. Além disso, durante muito tempo a dor menstrual intensa foi banalizada, tanto pela sociedade quanto, infelizmente, pela própria medicina. Outro obstáculo é que um exame normal não necessariamente exclui a doença. O ultrassom transvaginal, principalmente quando realizado com protocolo e por profissional experiente em endometriose, é extremamente importante, mas lesões superficiais podem não ser identificadas. Da mesma forma, uma ressonância normal não deve fazer com que a história clínica da paciente seja simplesmente descartada. Hoje, felizmente, estamos caminhando para uma abordagem mais precoce e individualizada. Não é necessário esperar a doença 'ficar grave' ou a mulher passar anos sofrendo para começar a tratar os sintomas. A investigação pode acontecer paralelamente ao tratamento clínico, e a laparoscopia deixou de ser encarada simplesmente como uma etapa obrigatória para toda paciente antes de qualquer tratamento."
Karoline Prado, ginecologista e obstetra, em Santa Catarina
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