ESTUDO BRASILEIRO

Enxaguante com CBD combate placa bacteriana sem manchar os dentes

Pesquisa de USP e UFU testou diferentes concentrações de canabidiol e encontrou resultados semelhantes aos da clorexidina, considerada padrão-ouro para controle do biofilme

Dentes, fio dental  -  (crédito: Magnific )
Dentes, fio dental - (crédito: Magnific )

Um enxaguante bucal à base de canabidiol (CBD) apresentou capacidade de combater a formação de placa bacteriana semelhante à da clorexidina, um dos principais agentes usados na odontologia para o controle do biofilme (camada de bactérias que se acumula sobre o esmalte do dente). A diferença está em um efeito colateral conhecido do antisséptico: enquanto a clorexidina provocou alteração visível na coloração dos dentes, as formulações com CBD mantiveram a superfície dental mais próxima da cor original.

Os resultados são de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A pesquisa avaliou diferentes concentrações de CBD e identificou que as formulações com 0,05% e 0,1% apresentaram ação contra o acúmulo de placa bacteriana e leveduras comparável à clorexidina a 0,12%.

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O trabalho foi publicado na revista científica Clinical Oral Investigations. Apesar dos resultados promissores, trata-se ainda de uma pesquisa experimental, com uma amostra pequena, e não de uma comprovação de que enxaguantes com CBD já possam substituir os produtos utilizados atualmente.

CBD não manchou os dentes

O principal diferencial observado pelos pesquisadores foi a coloração dos dentes. Durante os testes, a clorexidina provocou um grau elevado de alteração de cor nos fragmentos dentários analisados. Já os enxaguantes contendo CBD apresentaram alterações significativamente menores, mantendo os dentes próximos à tonalidade original e dentro de limites considerados aceitáveis pelos pesquisadores.

O resultado chama atenção porque o manchamento é um dos efeitos indesejados associados ao uso prolongado da clorexidina. O produto também pode provocar alterações no paladar e irritações na boca. Por isso, segundo os pesquisadores, encontrar uma formulação capaz de controlar o biofilme sem provocar esses efeitos pode representar uma alternativa para o desenvolvimento de novos produtos de higiene oral.

Entre as concentrações avaliadas, o CBD a 0,05% apresentou um dos resultados mais relevantes. Nessa formulação, os pesquisadores observaram redução do acúmulo de biofilme sem alterações significativas na integridade do esmalte.

A concentração de 0,1% também apresentou efeito antimicrobiano semelhante ao da clorexidina. Já a formulação com apenas 0,01% de CBD não apresentou o mesmo desempenho. A ação do canabidiol estaria relacionada à capacidade de interferir nas membranas dos microrganismos e dificultar sua adesão à superfície dental.

Teste simulou exposição frequente ao açúcar

Além de avaliar a formação da placa bacteriana, os pesquisadores investigaram se as formulações poderiam proteger o esmalte diante de um dos principais fatores associados à cárie: a exposição frequente ao açúcar.

Para isso, parte dos fragmentos de esmalte utilizados no experimento recebeu aplicações de uma solução com 20% de sacarose oito vezes ao dia, em intervalos de duas horas. Nos grupos que receberam placebo ou a menor concentração de CBD, de 0,01%, os pesquisadores observaram redução significativa da dureza do esmalte, indicando processo de desmineralização.

Já as formulações com 0,05% e 0,1% de CBD preservaram a microdureza do esmalte em níveis semelhantes aos observados com a clorexidina. O CBD também não provocou aumento significativo da rugosidade da superfície dental, outro indicador utilizado pelos pesquisadores para avaliar possíveis danos ao esmalte.

Pesquisa envolveu 14 voluntários

O estudo utilizou um modelo experimental chamado in situ, no qual o material é testado dentro da boca dos participantes, mas em condições controladas. Foram recrutados 14 voluntários saudáveis, com idades entre 20 e 40 anos. Desses, 13 concluíram todas as etapas da pesquisa.

Cada participante utilizou um dispositivo intraoral personalizado, produzido em resina por impressão 3D. Pequenos blocos de esmalte bovino foram fixados ao aparelho para simular a superfície dos dentes humanos. Três vezes ao dia, os voluntários retiravam o dispositivo e o mergulhavam durante 30 segundos em uma das cinco soluções testadas: placebo, clorexidina ou CBD nas concentrações de 0,01%, 0,05% e 0,1%.

O experimento foi dividido em cinco fases de sete dias. Entre elas, houve períodos de sete dias sem utilização do aparelho para evitar que os efeitos de uma solução interferissem na etapa seguinte. Ao final de cada período, os pesquisadores coletaram o biofilme formado e analisaram os fragmentos de esmalte com técnicas de microscopia e outros métodos de avaliação.

Apesar dos resultados positivos, os próprios dados precisam ser interpretados dentro dos limites do experimento. A pesquisa teve apenas 14 participantes, dos quais 13 completaram o protocolo, e utilizou fragmentos de esmalte bovino em dispositivos intraorais. Portanto, os resultados não equivalem a uma demonstração de eficácia em uma população ampla nem significam que um enxaguante com CBD possa ser usado atualmente como substituto da clorexidina.

Também são necessários estudos maiores e outras etapas de pesquisa para avaliar aspectos como segurança e eficácia em períodos mais longos, além de determinar se os resultados observados no modelo experimental se repetem em condições clínicas.

O estudo recebeu financiamento de instituições públicas brasileiras, incluindo a FAPESP e a CAPES. A pesquisa reuniu pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP-USP), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e do Instituto de Ciências Biomédicas da UFU.

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postado em 02/09/2026 18:04
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