
Uma expedição com 16 pesquisadores que passou 19 dias em ecossistemas de altitude no norte do Amazonas revelou um mundo isolado com características surpreendentes. No topo de montanhas de cume plano, conhecidas como tepuis, a equipe encontrou uma biodiversidade mais parecida com a da Cordilheira dos Andes do que com a da própria floresta amazônica que a cerca.
O cenário, a 1.260 metros de altitude, é radicalmente diferente. Paredões rochosos, riachos de águas avermelhadas e uma vegetação coberta de musgo criam um ambiente único. Os cientistas chamam essa região de Pantepui, um conjunto de formações montanhosas que se espalham pelo Escudo das Guianas, entre Brasil, Venezuela e Guiana.
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“Essa paisagem é totalmente diferente das que vimos até agora e se assemelha à dos Andes”, afirmou o herpetólogo Taran Grant, professor da Universidade de São Paulo (USP). “A quantidade de musgo sobre as pedras, o riacho e a fauna não têm nada a ver com a Amazônia lá embaixo. Geograficamente estamos na Amazônia, mas em termos biogeográficos isso aqui é o Pantepui”.
Alcançar as áreas mais ricas em biodiversidade, como as florestas de neblina, exigiu superar um terreno rochoso e acidentado. Após duas tentativas frustradas de abrir caminho, a solução veio da tecnologia: um drone mapeou o relevo e identificou uma rota segura para a equipe explorar a mata fechada.
Além do platô principal na Serra do Aracá, os pesquisadores estabeleceram um segundo acampamento em uma montanha mais baixa e isolada, apelidada de “Aracazinho”. A comparação entre os dois locais revelou contrastes nítidos. Enquanto o platô principal é dominado por rochas e espécies adaptadas à altitude, o Aracazinho tem solo mais arenoso.
Essa diferença de altitude e isolamento resultou em uma fauna distinta. O Aracazinho se mostrou um ponto de encontro entre espécies de terras altas e baixas, criando uma comunidade biológica mista. A descoberta foi confirmada pela coleta de anfíbios e pequenos mamíferos específicos de cada ambiente.
“O fato de essa montanha ser um pouco mais baixa faz com que haja uma mistura de comunidades, com gêneros típicos da Amazônia e outros próprios do Pantepui”, explicou Antoine Fouquet, pesquisador do Centro de Pesquisa sobre a Biodiversidade e o Meio Ambiente (CRBE) do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França.
Todo o material coletado passou por um laboratório de campo montado no acampamento. Os animais foram fotografados para registrar suas cores em vida, tiveram amostras de tecido e sangue extraídas para análises genéticas e de parasitas e, por fim, foram preparados para preservação. O processo garante que os espécimes possam ser estudados por centenas de anos em coleções científicas.
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
Ciência e Saúde
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