A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, ganhou uma nova indicação nos Estados Unidos. A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora norte-americana, aprovou o medicamento para reduzir o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em adultos com diabetes tipo 2 que apresentam risco aumentado de eventos cardiovasculares. A decisão amplia o debate sobre o tratamento da doença metabólica e seus impactos sobre o coração e o cérebro.
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O Mounjaro já era utilizado nos Estados Unidos para o controle da glicemia em pessoas com diabetes tipo 2. A tirzepatida atua simultaneamente sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1, envolvidos na regulação da glicose, da saciedade e do apetite. A mesma molécula é comercializada no país como Zepbound, com indicação para tratamento da obesidade.
Desafio
A nova indicação coloca em evidência um dos principais desafios do diabetes tipo 2: as consequências da doença vão além da alteração dos níveis de açúcar no sangue. Ao longo dos anos, o diabetes pode contribuir para alterações nos vasos sanguíneos e aumentar a probabilidade de complicações cardiovasculares.
“É nesse contexto que a nova indicação ganha relevância. O AVC está entre os eventos que podem ocorrer quando alterações vasculares comprometem a circulação cerebral”, explica o neurocirurgião Orlando Maia, do Hospital Quali Ipanema, no Rio de Janeiro.
O acidente vascular cerebral ocorre quando há uma interrupção ou alteração súbita do fluxo sanguíneo em uma região do cérebro. O problema pode ter diferentes causas e é dividido principalmente em dois tipos. O AVC isquêmico, mais frequente, acontece quando um vaso responsável por levar sangue ao cérebro é obstruído. Já o hemorrágico ocorre quando um vaso se rompe e provoca sangramento dentro do crânio.
Apesar das diferenças entre os mecanismos, ambos exigem atendimento rápido. “O AVC isquêmico é o tipo mais frequente. Ele acontece quando um vaso que leva sangue ao cérebro é obstruído, reduzindo ou interrompendo o fornecimento de oxigênio e nutrientes para determinada região. O AVC hemorrágico ocorre quando há sangramento dentro do crânio em consequência do rompimento de um vaso sanguíneo”, afirma Maia.
Risco
A relação entre diabetes e AVC está associada principalmente aos efeitos da doença sobre o sistema cardiovascular. O diabetes tipo 2 pode coexistir com outros fatores que aumentam o risco vascular, como hipertensão, alterações do colesterol, excesso de peso e sedentarismo. Por isso, o acompanhamento de quem tem a doença não se limita ao controle da glicemia.
É justamente nesse ponto que o especialista considera importante interpretar a nova indicação da tirzepatida. Segundo Maia, a decisão da FDA não significa que o medicamento elimine a possibilidade de um AVC ou funcione como uma proteção absoluta contra eventos neurológicos. “A nova indicação chama atenção justamente porque amplia a discussão sobre o cuidado cardiovascular de pessoas com diabetes tipo 2 que apresentam risco aumentado de eventos cardiovasculares”, afirma.
Para o médico, a principal mudança está na ampliação da perspectiva sobre o tratamento. “Para o paciente, isso reforça uma ideia importante: controlar uma doença metabólica não significa olhar apenas para um número de glicemia. O risco vascular e as possíveis repercussões para o coração e para o cérebro também fazem parte desse contexto”, diz.
Indiviualização
A avaliação, porém, precisa ser individualizada. A presença de diabetes não significa que todos os pacientes terão o mesmo risco cardiovascular, assim como a indicação de um medicamento não substitui outras medidas de prevenção. Controle da pressão arterial, dos níveis de colesterol e da glicemia, além de alimentação adequada, atividade física e acompanhamento médico, continuam fazendo parte da estratégia de redução do risco cardiovascular.
“Nenhum medicamento deve ser interpretado como proteção absoluta contra um evento neurológico”, ressalta Maia. “A principal mudança trazida pela nova indicação está na dimensão do cuidado cardiovascular de determinados pacientes com diabetes tipo 2. A prevenção continua dependendo de uma abordagem clínica individualizada, considerando os diferentes fatores de risco de cada pessoa”, completa.
