Lactose

Intolerância X alergia à lactose: entenda as diferenças

Apesar de alergia e intolerância à lactose poderem surgir após o consumo de leite e derivados, as duas condições têm causas, mecanismos e tratamentos diferentes

A intolerância à lactose está entre os distúrbios digestivos mais comuns, mas ainda é frequentemente confundida com a alergia à proteína do leite de vaca. Apesar de ambas poderem surgir após o consumo de leite e derivados, as duas condições têm causas, mecanismos e tratamentos diferentes. A distinção é importante principalmente porque, no caso da alergia, a ingestão da proteína do leite pode desencadear uma reação potencialmente grave.

Na intolerância, o problema está na digestão da lactose, o açúcar naturalmente presente no leite. Para ser absorvida pelo organismo, a lactose precisa ser quebrada pela enzima lactase, produzida no intestino delgado. A enzima transforma o açúcar em glicose e galactose, que são posteriormente absorvidas.

Quando há produção insuficiente de lactase, parte da lactose não é digerida e chega ao intestino grosso. Ali, é fermentada pelas bactérias da microbiota, produzindo gases e provocando alterações responsáveis pelos sintomas característicos da intolerância. “É importante diferenciar a intolerância à lactose da alergia à proteína do leite, pois na alergia o consumo de leite e derivados pode colocar em risco a vida da pessoa”, explica o gastroenterologista e endoscopista Eric Pereira.

Segundo o especialista, as consequências da alergia podem variar de manifestações leves a quadros graves. “A reação pode ser de leve a grave, até com quadro de anafilaxia, que gera risco de vida. Por isso, a dieta jamais pode ter esses alimentos”, afirma.

Quantidade

Na intolerância, por outro lado, não há uma reação do sistema imunológico contra as proteínas do leite. O desconforto está relacionado à quantidade de lactose que o organismo não consegue digerir. Por isso, algumas pessoas conseguem consumir pequenas quantidades de leite e derivados sem apresentar sintomas, enquanto outras têm manifestações mesmo após uma quantidade menor. “Já na intolerância à lactose, o indivíduo pode ingerir leite ou derivados junto do uso da enzima (lactase) e, assim, ele não terá sintomas. O desconforto abdominal só vai acontecer se não usar a enzima e não há riscos maiores”, diz Pereira.

A intensidade das manifestações depende de diferentes fatores, entre eles a quantidade de lactose ingerida, o grau de deficiência da lactase, a velocidade do trânsito intestinal, a idade e características genéticas relacionadas à produção da enzima.

Os sintomas geralmente aparecem algum tempo depois da ingestão de leite ou derivados e podem incluir dor e distensão abdominal, gases, flatulência, cólicas, diarreia, náuseas e vômitos. Em situações menos frequentes, pode ocorrer constipação intestinal.

Isso significa que a presença ou a intensidade dos sintomas não é suficiente, isoladamente, para determinar se uma pessoa tem intolerância. A avaliação médica leva em conta a história do paciente e a relação entre a ingestão de lactose e o aparecimento das manifestações.

Diagnóstico

A investigação começa, em geral, pela avaliação clínica e pela associação entre o consumo de alimentos com lactose e os sintomas apresentados. Para confirmar a suspeita, podem ser utilizados exames específicos.

“O teste mais disponível e coberto pelos planos de saúde é o teste de tolerância oral à lactose, que é através do sangue”, explica Pereira. Nesse exame, são feitas medições após a ingestão de uma quantidade determinada de lactose para verificar a resposta do organismo.

Outra possibilidade é o teste respiratório do hidrogênio expirado. De acordo com o gastroenterologista, o método é menos incômodo, mas não costuma ser coberto pelos planos de saúde. Há ainda o teste genético, que pode ser indicado em determinadas situações e identifica alterações associadas à persistência ou à redução da produção de lactase ao longo da vida.

O diagnóstico correto é importante para evitar restrições alimentares desnecessárias. A exclusão completa de leite e derivados nem sempre é necessária para quem tem intolerância à lactose e pode dificultar a ingestão adequada de nutrientes presentes nesses alimentos. A conduta deve considerar o grau de intolerância e a resposta individual ao consumo de lactose.

Já nos casos de alergia à proteína do leite de vaca, a abordagem é diferente, justamente porque o mecanismo envolve o sistema imunológico e existe possibilidade de reações potencialmente graves. Por isso, a orientação alimentar e o acompanhamento médico são fundamentais para evitar a exposição ao alimento responsável pela reação.

 

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