Visão do Direito

Os direitos de envelhecer com dignidade

"Apesar dos avanços na legislação das últimas décadas, a velhice continua sendo tratada por muitos como sinônimo de incapacidade, improdutividade ou invisibilidade"

 Eixo Capital. Belisário dos Santos Júnior, advogado, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) e sócio titular do escritório Rubens Naves Santos Jr. Amorim Advogados -  (crédito:  Divulgação )
Eixo Capital. Belisário dos Santos Júnior, advogado, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) e sócio titular do escritório Rubens Naves Santos Jr. Amorim Advogados - (crédito: Divulgação )

Por Belisário dos Santos Júnior* — O Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado. O Censo 2022 do IBGE mostra que mais de 32 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais. A população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em apenas 12 anos, de acordo com o IBGE. Se, por um lado, a conquista da longevidade é uma vitória da sociedade contemporânea, por outro há ainda muitos desafios. Os principais são garantir que viver mais signifique viver com direitos e com respeito.

Apesar dos avanços na legislação das últimas décadas, a velhice continua sendo tratada por muitos como sinônimo de incapacidade, improdutividade ou invisibilidade. O preconceito etário, o etarismo, está naturalizado em ambientes de trabalho, nos espaços públicos, nos serviços e até dentro das famílias, muitas vezes de forma disfarçada. São discriminações frequentemente aceitas com uma tolerância que a sociedade não admite quando dirigidas a outros grupos vulneráveis.

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Essa realidade revela uma contradição. O Brasil tem uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger idosos. O Estatuto da Pessoa Idosa, instituído pela Lei Federal 10.741/2003 e em vigor há mais de 20 anos, assegura direitos fundamentais relacionados à saúde, à dignidade, à participação social, à acessibilidade e à proteção contra a violência.

Entretanto, o que se observa é uma distância alarmante entre a lei e a vida real dos idosos nas ruas deste país. Milhões deles convivem com dificuldades de acesso à saúde, enfrentam cidades pouco preparadas para suas necessidades, para a falta de equilíbrio e encontram obstáculos que comprometem a autonomia. O direito de envelhecer com dignidade continua sendo, para muitos, mais uma promessa, um desafio, do que um retrato do cotidiano.

A situação fica ainda mais grave quando o assunto é a violência contra a pessoa idosa. Trata-se de uma das mais silenciosas e subnotificadas violações de direitos humanos no país. Não se trata apenas de agressão física. A violência ocorre por meio do abandono, da negligência, da violência psicológica, das humilhações diárias e da exploração financeira, inclusive nas discussões de partilha da pessoa ainda viva.

O idoso é a vítima preferencial das fraudes bancárias. Em inúmeros casos, o agressor está dentro da própria família. São filhos, parentes ou pessoas próximas que se apropriam de aposentadorias, controlam contas bancárias, retêm cartões, pressionam idosos a assinar documentos ou os privam da liberdade de decidir sobre a própria vida. Tudo isso que é tratado, muitas vezes, como conflito doméstico ou até como "picuinhas" familiares é, na verdade, uma grave violação de direitos. A condescendência dói, machuca.

As consequências são devastadoras. Além das perdas financeiras, a vítima frequentemente desenvolve ansiedade, depressão, sentimento de impotência e isolamento social. Em muitos casos, a violência acelera a fragilização física e emocional dos idosos e pode comprometer até a sobrevivência. É preciso dizer com clareza que a violência contra idosos não é apenas um problema moral ou familiar. É uma questão de direitos humanos e uma infração à legislação.

O Estatuto da Pessoa Idosa prevê punições para quem pratica abandono, negligência, discriminação, violência física, psicológica ou patrimonial. Dependendo da gravidade, as sanções podem incluir multas, detenção e reclusão. O ordenamento jurídico brasileiro não considera aceitável que uma pessoa seja desrespeitada, explorada ou violentada em razão da idade.

A forma como uma sociedade trata seus idosos revela o grau de maturidade de seu desenvolvimento. Quando os direitos das pessoas idosas são violados, estamos comprometendo o modelo de sociedade que desejamos construir. Garantir o direito de envelhecer com dignidade não é generosidade. Lembremos de tantas pessoas que, velhas, como escritores, pesquisadores, médicos, artistas, filósofos, filantropos, advogados e presidentes, podem ter mudado ou assegurado o enriquecimento cultural e o futuro de tantos. Respeitar a experiência e o valor de um idoso é obrigação constitucional, legal e humanitária, além de ser um ato de sabedoria.

Advogado, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) e sócio titular do escritório Rubens Naves Santos Jr. Amorim Advogados*

 

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Por Opinião
postado em 18/06/2026 03:00
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