Visão do Direito

O combate ao crime organizado precisa ir além da força e investir em tecnologia

"Com o devido respeito, não poderiam estar mais errados: o crime organizado, encastelado em comunidades, não tem como ser derrotado simplesmente pela violência"

 Eixo Capital. José Augusto Leal, sócio do Castro Barros Advogados e presidente do Conselho de Defesa & Segurança da Britcham- Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil -  (crédito:  Divulgação)
Eixo Capital. José Augusto Leal, sócio do Castro Barros Advogados e presidente do Conselho de Defesa & Segurança da Britcham- Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil - (crédito: Divulgação)

Por José Augusto Leal* — Em escala cada vez maior, os criminosos vêm utilizando drones para vigilância e lançamento de explosivos. O uso ainda é rudimentar, mas certamente constitui um importante alerta para os inevitáveis futuros embates entre as forças de segurança e o crime organizado.

Essa crescente adoção de drones pelos criminosos tem de ser estudada em profundidade, pois são enormes as chances de esse uso pelas facções criminosas na defesa de "seus" territórios se tornar algo corriqueiro. Em resposta a isso, as forças de segurança e os governantes devem se debruçar sobre os resultados desses estudos (que devem ser levados a cabo com máxima prioridade), de maneira a desenvolverem táticas e adquirirem os equipamentos e sistemas de contramedidas necessários para mitigar os riscos do uso de drones pelo crime.

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Isso porque o uso de blindados, helicópteros e outros veículos tradicionais já se mostrou pouco eficaz: afinal, é sabido que o uso de blindados em áreas confinadas como as dos Complexos da Penha, do Alemão, entre outras, traz benefícios limitados, pois a mobilidade desses veículos fica prejudicada. Logo, o apoio aos policiais acaba sendo comprometido. As evidências indiscutíveis disso remontam à Segunda Guerra.

O uso de helicópteros também enfrenta limitações, pois, salvo aquelas aeronaves pesadamente blindadas, como os AH-64 Apache, helicópteros não têm como pairar por muito tempo para investigar movimentações de criminosos, sob pena de serem alvejados e, quiçá, abatidos (já foram encontradas armas de grosso calibre, como metralhadoras .50, em poder de criminosos). E, se não podem pairar, a coleta de informações fica prejudicada. Drones, por sua vez, podem cumprir essa função de vigilância com custo e risco muito menores.

Além disso, considerando os locais onde as forças a serviço do crime costumam se concentrar (comunidades, repletas de inocentes, usados como escudo humano), custo em vidas humanas só é aceitável para quem não se importa com isso ou para quem o considera dano colateral aceitável diante de um imaginado sucesso desses confrontos contra o crime organizado, como se essa fosse a melhor (ou, pior, a única) estratégia eficaz.

Com o devido respeito, não poderiam estar mais errados: o crime organizado, encastelado em comunidades, não tem como ser derrotado simplesmente pela violência. Essa talvez seja a menos eficiente das estratégias, devendo ser aplicada com moderação junto com outras iniciativas, como o rastreio dos recursos financeiros que sustentam as facções criminosas, a identificação de "empresários" e - sim - agentes públicos que dão apoio ao crime.

No campo do confronto, tecnologias que minimizem os riscos a que os policiais e cidadãos inocentes estão expostos constituem investimento imprescindível, assim como o ingresso real, firme e perene do Estado nessas comunidades, desalojando os criminosos. Isso envolve estudos sobre o uso de drones, bloqueadores de sinais e armamento não letal e muito, muito treinamento.

Mesmo isso tende a ser insuficiente. Não basta ao Estado reprimir: tem de efetivamente ingressar de forma profunda e perene, de maneira a gerar esperança e perspectivas sobretudo para a população jovem, que é a grande fornecedora de recursos humanos para as facções criminosas. A ausência desse componente, aliás, parece ter sido uma grande falha das operações iniciadas em 2008, com o objetivo de "pacificar" as comunidades que receberam as UPPs.

Enfim, parece claro (mesmo para aqueles que, como eu, não têm acesso a informações privilegiadas sobre a situação das facções criminosas no Estado do Rio de Janeiro) que, se as autoridades não alterarem seus métodos, os resultados continuarão a ser os mesmos e operações cada vez mais letais se repetirão, seguidas de críticas e constrangimento merecidos. Torço para que uma solução baseada mais na inteligência e menos na força seja desenvolvida pelo novo governo.

Sócio do Castro Barros Advogados e presidente do Conselho de Defesa & Segurança da Britcham- Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil*

 

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Por Opinião
postado em 08/10/2026 03:00
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