ARTIGO

Análise: Sofrência sob o ponto de vista feminino

"Marília fez sua revolução primeiro como compositora, comendo pelas beiradas, conquistando a confiança do mundo country"

Cláudio Ferreira - Especial para o Correio
postado em 06/11/2021 06:00 / atualizado em 06/11/2021 11:42
Marília mudou o jogo da música no país -  (crédito:  Reprodução/Redes Sociais)
Marília mudou o jogo da música no país - (crédito: Reprodução/Redes Sociais)

Uma das rainhas do gênero que domina rádios, plataformas musicais e as redes sociais Brasil afora, Marília Mendonça deixou a sua marca como desbravadora em um mundo que, até 2015, era eminentemente machista. As letras da música sertaneja já falavam de sofrimento há muito tempo, mas sempre pela ótica masculina, segundo a qual uma desilusão amorosa pode ser facilmente curada com muito álcool e algum sexo casual.

Marília fez sua revolução primeiro como compositora, comendo pelas beiradas, conquistando a confiança do mundo country. Quando teve oportunidade de trocar os bastidores pelos palcos, mostrou a que tinha vindo. O primeiro sucesso, Infiel, foi uma espécie de vingança por todas as traições que as mulheres tiveram que engolir na sociedade machista — desta vez, os papéis foram trocados e a voz feminina, ouvida. O resultado foi a conquista de milhões de fãs e o impulsionamento da vertente conhecida como feminejo, catapultando carreiras como as de Naiara Azevedo e da dupla Maiara e Maraísa.

Como todo fenômeno repentino, Marília Mendonça e o feminejo provocaram aquela primeira impressão de que "iam passar". Mas foi preciso uma tragédia para interromper uma carreira de números superlativos de acessos nas plataformas digitais e nas redes sociais.

A moça seguiu quebrando padrões. Fez sucesso quando estava gordinha e só emagreceu depois. Aparecia de óculos de grau em público sem problemas. Fazia questão de não se limitar a um só estilo nos figurinos, para aproveitar a liberdade que o sucesso, o dinheiro e o empoderamento trazem.

Não são apenas os números de likes, downloads e compartilhamentos que dão a ideia da dimensão de Marília Mendonça na música brasileira. Por maiores que sejam, eles são frios. O calor veio do jeito com que Marília, em pouco tempo, entrou na casa das pessoas sem a menor cerimônia. E ficou, como aquela prima divertida, que gostava de pegar o violão e cantar. Infelizmente, agora só teremos as gravações para nos lembrarmos de quem estabeleceu os parâmetros do empoderamento feminino no universo do sertão pop.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE