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"Quem evoluiu busca reparar danos históricos", avalia o ator Felipe Mafra

No centro de tramas que lançam alerta sobre machismo, abuso e violência contra mulheres, o ator Felipe Mafra reflete sobre a desconstrução da masculinidade tóxica. "Tive que me livrar de muitos pensamentos misóginos e tóxicos que eram ensinados"

Felipe Mafra, ator -  (crédito: Neto Lins/Divulgação)
Felipe Mafra, ator - (crédito: Neto Lins/Divulgação)

Em Dona de mim, uma cena repercutiu nas redes sociais na semana passada: o protagonista Marlon (Humberto Morais), um policial militar, embarca em uma operação delicada ao perceber um sinal feito por uma mulher que está sendo vítima de violência doméstica e, no salvamento dela, atira no agressor armado, matando-o. Na sequência, ele expõe ao delegado, Nicolas, o seu dilema emocional por ter tirado a vida de um homem. Na pele da autoridade civil, Felipe Mafra marca presença especial na produção e, ao Correio,  reflete sobre seu trabalho mais recente na novela de Rosane Svartman e sobre como o ofício de atuar pode — e deve — tocar nas feridas da sociedade.

“Foi uma experiência linda gravar uma cena tão humana, sutil e didática como essa”, diz Felipe, ao comentar a sequência dramática. A cena chamou atenção por retratar um agente da lei com humanidade, sensibilidade e sofrimento, além de trazer uma utilidade pública relacionada às mulheres que são vítimas do machismo. “Tenho certeza de que o público se emocionou e, ao mesmo tempo, tomou conhecimento sobre como proceder em uma situação de violência para pedir ajuda”, afirma.

Para o ator de 43 anos, não se trata de levantar bandeiras, mas de contar histórias com verdade. “Acredito que o termo 'militância' ficou desinteressante para as pessoas. Soa como palestra”, pontua ele, que também pode ser visto na 13ª temporada da série Reis, na RecordTV.

“Quando um drama humaniza o indivíduo que existe em uma corporação como a força militar, o público se lembra de que, por mais que haja violência e corrupção, há também muitos homens e mulheres dedicados a proteger o cidadão. E essa é a maneira mais efetiva de chamar atenção para esse fato. Menos discurso e mais entretenimento."

 

Sem fugir de conflitos

Não é a primeira vez que Felipe se envolve com temas espinhosos. E ele não foge dos conflitos — dentro e fora de cena. Em Vai na fé, também de Rosane Svartman, o ator viveu um homem que assedia um casal de mulheres; em Verdades secretas 2, deu vida a um cliente violento de uma garota de programa.

Cenas difíceis, que exigem mais do que técnica: pedem consciência e sensibilidade. “Quanto mais intenso o tema, mais preparo exige. Em VS2, além do preparador de elenco, havia uma coreógrafa erótica que pensava a movimentação. Mas a maior parte é buscar internamente a motivação do personagem para vivenciar em cena”, revela.

Mas Felipe vai além do trabalho artístico. Ele enxerga mudanças na sociedade — mesmo que lentas — e acredita que a masculinidade tóxica não é um problema insolúvel. “Hoje, discutimos assuntos que uma década atrás eram abafados. Apesar do preconceito ainda forte, vejo que muitos homens cis e héteros têm respeitado mais a individualidade da mulher e a diversidade de gênero”, observa.

“Estamos longe do ideal, mas um pouquinho melhor que ontem no caminho da boa convivência com a verdade do outro".

  • Felipe Mafra, ator
    Felipe Mafra, ator Neto Lins/Divulgação
  • Felipe Mafra, ator
    Felipe Mafra, ator Neto Lins/Divulgação
  • Felipe Mafra, nas redes sociais
    Felipe Mafra, nas redes sociais Reprodução/Instagram
  • Felipe Mafra é ator e cantor
    Felipe Mafra é ator e cantor Neto Lins/Divulgação

A desconstrução, segundo ele, começa com um movimento interno. “Não existe receita. Empatia e letramento são caminhos pessoais. Nasci nos anos 1980, e tive que me livrar de muitos pensamentos misóginos e tóxicos que eram ensinados como verdades absolutas. Frases como 'mulher não sabe dirigir' ou 'lugar de mulher é na cozinha' eram socialmente aceitas. Hoje, quem evoluiu reconhece o valor das mulheres e busca reparar danos históricos.”

Para Felipe Mafra, o caminho é longo — mas é possível. E, com histórias marcantes como a de Dona de mim, ele segue de peito aberto para ser instrumento do debate. Sem panfletos, e com humanidade.

 


postado em 17/06/2025 08:00
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