Livros

Viagem pela distopia: jornalista registra possível colapso da democracia dos EUA

Jamil Chade, autor de Tomara que você seja deportado, conversa nesta quarta-feira (3/9) com o público no Sempre um Papo

Depois de um ano percorrendo 15 estados norte-americanos e mais de 10 mil km, o jornalista e escritor Jamil Chade chegou à conclusão de que os Estados Unidos vivem um momento de encruzilhada decisiva e inédita. Ao longo dessa travessia, Chade escreveu sobre o que via e ouvia. O resultado são os 47 textos reunidos sob o título de Tomara que você seja deportado — Uma viagem pela distopia americana e publicados pela editora Nós. É sobre essa experiência tão próxima com a América de Donald Trump que o autor fala nesta quarta-feira (3/9), no encontro com os leitores no Sempre um Papo, na Caixa Cultural

Chade desembarcou em Nova York em 2024, com a família, para uma estadia de um ano. Durante esse tempo, constatou "um sistema político (...)  quebrado", se sentiu em uma sátira distópica nos comícios que "flertavam com ideias supremacistas" facilmente classificáveis de fascistas e conheceu "pessoas repletas de indignação, ansiosas e sem destino". Teve a certeza, após muitas entrevistas e convivência com o cotidiano americano, de que o colapso da democracia no país é iminente. "Estamos, nos Estados Unidos, num momento de uma encruzilhada fenomenal para a história da democracia no mundo e eu quis fazer um diário do que ia acontecer, sem saber o que ia acontecer. Então, mantive os textos na forma como foram escritos no dia em que aconteceu. Foram escritos na forma do diário de uma viagem", explica o autor. 

O título do livro vem de um episódio vivido pelo filho de Chade na escola: durante uma briga, o menino ouviu de uma coleguinha a frase "tomara que você seja deportado". É uma agressão tristemente conectada com o que vêm passando milhares de migrantes ainda residentes no país. O governo de Donald Trump já teria deportado mais de 200 mil pessoas, segundo dados recolhidos pela rede CNN. Imigração é um dos temas dos textos de Chade.

As deportações foram um compromisso de campanha de Trump e o governo tem usado estratégias de desumanização dessas populações para justificar tratamentos que espalham medo e horror, como crianças tiradas de sala de aula e menores deportados sem acompanhamento dos responsáveis. "Quando Trump fala aquelas coisas ou quando o movimento dele desumaniza as pessoas, não é algo improvisado, é a construção de um discurso. Você desumaniza para poder cometer abuso, porque, obviamente, eles 'não são tão humanos quanto nós e não devem ter os mesmo direitos'. Isso com os imigrantes ou qualquer um que seja oposição. Desumanização é uma estratégia de poder utilizada diariamente", aponta Chade.

Em uma passagem, Chade lembra que, na Alemanha de 1930, os inimigos do povo também foram escolhidos e as deportações resultaram em mais de 5 milhões de mortes. "Quando você autoriza a desumanização, a xenofobia e, de forma institucional, o muro, você não controla mais onde vai ser a expressão dos fenômenos. E chega no pátio da escola de garotos de 10 anos", explica.

Geopolítica é outro tema do livro. O autor lembra que o presidente americano encara a ascensão chinesa como o grande desafio de seu governo, mas os braços do domínio americano podem ir do Vaticano à Groenlândia, sobre a qual Trump já admitiu usar a força caso leve adiante o projeto de se apoderar da ilha dinamarquesa. A presença de nacionalistas cristãos e a maneira como o governo dos Estados Unidos está hoje permeado por católicos ultraconservadores também tem presença nas análises de Chade. 

A invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, em Washington, ganha alguns capítulos ao ser analisada do ponto de vista da anistia concedida por Trump aos 1,4 mil condenados no episódio, outra promessa de campanha. Em um dos textos, uma entrevista com um anistiado, Jake, conhecido como o "Viking do Capitólio", dá a medida da receita de radicalização: "(...) descobri que, naquela mesa, estava diante de mim talvez um dos resultados mais bem acabados de desinformação, impunidade e desprezo pelos fatos. Um personagem que não tratava mais a política como uma escolha racional, mas como uma questão de fé e uma missão baseada em teorias conspiratórias, na Bíblia e na certeza de que seu movimento é irreversível". 

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Entrevista// Jamil Chade

Você fala em colapso da democracia americana e em uma certa dificuldade de reação a isso.
Como chegamos a esse ponto?

Eu acho que tem alguns elementos que explicam. Primeiro, a internet atomiza a nossa sociedade. O individualismo criou uma situação muito desconfortável nessa luta, nessa resistência. O segundo ponto fundamental é que justamente quando a democracia mais precisa da massa mobilizada, houve uma estratégia muito bem armada para fechar os espaços cívicos. Não que a rua foi fechada, mas não tem hoje um incentivo suficiente para fazer uma ocupação no sentido de que ela vá ter um resultado na decisão. E três, um ponto que pode explicar: uma geração inteira que dava a democracia como algo garantido, que vinha nas certidões de nascimento, quando a gente sabe que não é uma obra completa, ela tem que ser feita todos os dias. Um ponto fundamental que a gente perdeu. Não existe "a instituição vai resistir". Não. Nós somos a instituição.

A falta de resistência em massa ao fim da democracia passa pela própria história americana, que nunca viveu regimes autoritários?

Perfeito. A resistência não existe porque nunca foi questionado se a democracia americana sobreviveria ou não, estava dado que era um bem público e que não havia risco de desmanche. E, hoje, eles não sabem o que fazer porque nunca foram desafiados nessa situação. A gente está lidando com uma encruzilhada fundamental. Tem muita gente preocupada, mas o que acho que precisa acontecer em qualquer lugar é uma espécie de insurreição das consciências, massa de gente para defender a democracia, ocupar o lugar, o coreto, a igreja, a avenida, ocupar os lugares.

Você se pergunta, no livro: "o que acontece quando um mito termina?". Que resposta daria hoje?

Não é o fim ainda. É um ponto fundamental. Há uma crise existencial, porque a identidade daquelas pessoas foi baseada numa ideia de política: a ideia de que eu, pelas minhas próprias mãos, vou me erguer para outra situação social naquela sociedade, só depende de mim. Isso acabou. Claro, para a população afro-americana, nunca foi o caso. Como isso acaba? Eu percebi que eles vivem um momento sem destino. Esse sem destino é muito bem aproveitado por populistas. É revestido de ressentimento, do ódio às elites, que não é aquela com dinheiro, mas a que estudou, intelectual, cultural. Por que os atores apoiando a Kamala (Harris) não funcionaram? Porque eles são parte do problema, são os que são olhados com inveja. Aquilo reforçava, no fundo, a ideia das elites, com milhões de pessoas fora disso. E tem esse abandono real, a democracia abandonou essas pessoas. Ela nunca chegou à aquelas pessoas. Então, como pedir àquela pessoa para sair em defesa de algo que não a beneficia. Aí, vem o populista e diz: eu também sou rejeitado pelo sistema. Trump faz isso com maestria, faz com que aquelas pessoas se identifiquem com os que ficaram pra trás, com muito ódio.


Você acha que nós, brasileiros, estamos aprendendo com nossos erros, evitando a anistia das pessoas que invadiram os palácios e dos arquitetos da trama golpista? 

Sem dúvida. Nós estamos dando sinais de maturidade democrática que estão surpreendendo, inclusive, acadêmicos e especialistas estrangeiros. Nossa história não era favorável a uma resistência democrática, era uma história que mostrava que, de tantos em tantos anos, um golpe era promovido com êxito. Então, eu acho que sim, temos aprendido com toda essa ofensiva autoritária, mas não acho ainda que seja suficiente. Falta compreensão popular da ameaça que isso tudo significa. E acho que estamos fracassando em fazer passar a mensagem sobre o risco que representa o colapso da democracia.


Como fazer?

Eu acho que vai ser uma luta de uma geração inteira, não vai ser da noite pro dia. A extrema direita não funciona em ciclos eleitorais, a derrota em uma eleição não significa o fim do movimento. Vai ser uma luta de longo prazo. E tem gente que estuda esse fenômeno, que acha que vai ser necessária uma década de luta para desmontar esse fervor autoritário. E tem a regulação das redes: não consigo imaginar outro caminho que não passe pela regulação das redes. Ir às escolas de forma emergencial para criar um programa de aprendizado de leitura de notícias. Educação da informação. Restabelecer uma compreensão do que é notícia, opinião. Parece básico, mas a gente está num momento em  que o óbvio se produz, então recuperar o óbvio é voltar a ensinar a ler notícia, informação. E não ceder a qualquer argumento de que anistia, acordo, pacto, levam à pacificação da sociedade. Não leva. Nos EUA, a anistia empoderou aquelas pessoas, transformou aquelas pessoas publicamente em vítimas, deu a elas o argumento de que o estado foi repressivo contra elas. E agora elas querem vingança. Não há pacificação na anistia.

Como você encara essa guerra do governo Trump contra o Brasil?

Essa guerra é, acima de tudo, uma guerra geopolítica ideológica. O governo Trump tem uma ambição: redesenhar a ordem internacional para, mais uma vez, ser a hegemonia no século 21. Nós fazemos parte de um obstáculo a esse projeto, não podemos existir como uma força independente. Portanto, enfraquecer as instituições brasileiras é estratégico para o povo americano. O que foi imposto no Brasil não são tarifas, são sanções. A extrema direita globalizada criou por 10, 15 anos uma rede extraordinária de construção de um projeto super ambicioso, que é refundar a sociedade a partir de novas bases. Nessa construção, o Brasil é estratégico. E, aí, o soldado Bolsonaro não é importante, mas ele é o argumento importante para criar uma situação na qual esses objetivos estratégicos americanos chegam do mesmo lado: criar uma sociedade ultraconservadora e redesenhar a ordem mundial. Por isso, não tem negociação que vá resolver isso.

E, diante das querelas de Trump com Rússia, China e Otan, você acha que estamos mais perto disso do que estivemos na guerra fria? Há semelhanças?

Me assusta muito porque, além disso tudo, tem um outro componente que eles mesmos dizem. O governo Trump diz que os EUA vivem hoje seu maior desafio existencial e que nem na guerra fria foi tão grande a ameaça que hoje se tem com a China. Que ou se resolve agora, ou não vai ter volta. Estão dispostos a tudo para evitar o fato de que tem uma potência em ascensão, que é a China, e uma em decadência inevitável, que são eles. E eles querem interromper essa equação. O problema é que isso pode exigir, sim, força militar, então não exclui que possamos ver coisas muito dramáticas nos próximos anos. Quando ele fala em paz, é sempre paz pela força. A paz pela força não é paz, é domínio imperialista, controle, subjugação de outro povo. Ele sequestrou um termo e, dessa vez, é a paz. Por isso, ele quer tanto o Nobel da paz. Isso justificaria e legitimaria a sua própria guerra.

 


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