
Tulio Starling atravessa a cena brasileira como quem carrega no corpo uma memória longa de palco, rua, ensaio e espera. Aos 35 anos, o ator mineiro formado em artes cênicas pela Universidade de Brasília (UnB) soma quase duas décadas de trabalho e vive um momento de consolidação que não se confunde com acomodação. "Eu gosto de abordar muita coisa como novidade, para ter uma curiosidade de aprendiz", afirma o José Maria de Três Graças, deixando claro que a experiência, para ele, nunca anulou o risco nem o espanto.
Nascido em Belo Horizonte e brasiliense por formação e afeto, Tulio chegou ao Distrito Federal aos 15 anos e aqui construiu os alicerces da carreira. Foram 12 anos de trabalho intenso com criadores do teatro e do cinema, passando pela cofundação da Agrupação Teatral Amacaca, ao lado do lendário Hugo Rodas, e pela experiência no Teatro Oficina, em São Paulo, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa. Dois mestres que marcaram sua trajetória e cujo legado segue pulsando no corpo do ator.
Quando fala de Brasília, de onde saiu em 2017, o tom muda, ganha suavidade. "É de muito amor, muito pertencimento e muita ligação com várias pessoas e com o território em si. Me sinto muito em casa, o coração até acalma", derrete-se.
Desde que se mudou para São Paulo, em 2017, a carreira ganhou projeção nacional. Após viver Chico, irmão de Juma Marruá, no remake de Pantanal, em 2022, Tulio emendou trabalhos no cinema, na televisão e no streaming, passando por séries como Hit Parade, Vicky e a Musa, Dois tempos e Justiça 2, além dos longas Faroeste caboclo, A porta ao lado e O pastor e o guerrilheiro. Em No Rancho Fundo, novela das 18h de 2024, veio o primeiro protagonismo. Agora, em Três Graças, ele vive o médico José Maria, personagem de arco longo e densidade particular.
Sabor de novidade
Assumir um papel na novela das 21h tem sido, segundo ele, um exercício de descoberta. "Mesmo tendo acumulado a experiência imensa de No Rancho Fundo, eu gosto de abordar muita coisa como novidade", diz. Para Tulio, o fato de José Maria não ser um protagonista clássico amplia as possibilidades: "Intensifica a imprevisibilidade dos rumos do personagem, já que o arquétipo não é tão previamente estabelecido. Acho isso tudo muito instigante e divertido".
O ponto de aproximação com o atual personagem está no compromisso ético. "O meu ponto de aproximação com o José Maria é o comprometimento dele com o ofício que ele escolheu na vida", afirma. Ao traçar um paralelo entre medicina e atuação, Starling explica: "O ofício médico e o ofício do ator têm coisas em comum. São muito sobre o outro. A gente atua para o outro". Para ele, interpretar José Maria passa pela recusa à mentira: "Ele não consegue conviver com a ideia de praticar a medicina de uma maneira mentirosa, com remédios que não tratam".
À medida que o personagem avança na denúncia da falsificação de medicamentos da fundação onde trabalha, o conflito se adensa. "Como médico, ele tem compromisso com a ciência. Então, ele enfim vai conseguir ter a certeza científica de que os remédios são mesmo falsos", antecipa. Mas a novela cobra seu preço: "Como numa novela toda ação tem uma complicação, ele vai acabar sofrendo uma represália muito séria", fala o taurino, apontando para os desdobramentos dramáticos que reposicionam forças na trama.
Para construir esse olhar, Tulio buscou experiências concretas. Passou um dia acompanhando o trabalho do Programa Einstein em Paraisópolis. "Foi uma das oportunidades que tive de conversar mais demoradamente com um médico e observar sua maneira de se relacionar com o ofício", relata. "Pude chegar mais perto dos profissionais da medicina pra entender um pouco desse olhar que se forja em alguém que tem o senso de dever e o conhecimento médico", completa. Houve ainda aulas assistidas, leituras e escutas atentas. "Tudo sem pretensão alguma de entender de medicina, porque não é disso que se trata o ofício do ator, mas sim de alimentar imaginário."
O tempo como aliado
Ao refletir sobre a própria trajetória, Tulio fala do tempo como aliado. "Tem mais de 20 anos que eu faço isso com muita paixão", diz, lembrando que o conhecimento acumulado se manifesta, sobretudo, no corpo. "Mesmo que você faça um doutorado sobre ele, o documento mais completo sempre vai ser o seu corpo na cena".
A novela, para ele, exige síntese e dinamismo. "Fazer novela convida o ator a descobrir um poder de síntese, originalidade e dinamismo que eu tenho achado muito legal de tentar alcançar".
Quando o assunto retorna a Brasília, o círculo se fecha. "Até hoje, quando eu penso em um lugar para experimentar alguma coisa no campo da cena, minha imaginação sempre passa por Brasília", diz. O desejo é de continuidade, de troca, de formação. "Eu adoraria que alguma empresa ou instituição se interessasse em construir um movimento consistente de formação técnica em arte e cultura nos vários territórios aí do DF e eu pudesse participar disso".
Tulio não termina a conversa sem agradecer pelo trabalho atual. "Só ler, capítulo a capítulo, uma novela cuja escrita é capitaneada pelo Aguinaldo Silva, já é uma oportunidade muito rara. O que ele, o Virgílio Silva e o Zé Dassilva fazem com a construção da trama, o encadeamento dos conflitos, é muito gostoso de perceber desde o texto escrito. Estou tendo a oportunidade de conhecer e trabalhar com novos colegas de trabalho, tanto no elenco quanto na direção. E estou seguindo na construção da minha relação com o público, nessa linguagem, e nessa escala de tamanho, de alcance, que a tevê aberta produz", elogia.
E tem algo que é importante que o ator destaca sobre aprender sobre essa relação com o público: a presença nas redes sociais. "Eu estou tentando ser mais presente de um jeito que seja prazeroso para mim. Estou aos poucos conseguindo. É sem dúvida uma grande resolução de ano novo. Inclusive, você que está lendo essa entrevista… já me segue? Agradeço pelo estímulo ao blogueirinho que me habita", ele conclui, aos risos.

Diversão e Arte
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