
Manoel Carlos sempre escreveu por meio da escuta. Antes de ser o novelista das Helenas, antes de paralisar o país com dilemas morais que atravessavam salas de estar, ele foi um observador atento da vida comum, dos silêncios entre uma frase e outra, das escolhas feitas quase sem perceber. Ele circulava pelo Leblon — o bairro que o paulistano mais carioca escolheu como seu universo — como quem pesquisa o mais sublime: a vida. E essa vida que lhe escapa hoje, aos 92 anos, encerra uma trajetória que ajudou a moldar não apenas a teledramaturgia brasileira, mas a maneira como o Brasil se reconhece na ficção.
Chamado com justiça de cronista da dramaturgia, Maneco — como era conhecido — não se interessava por grandes vilões caricatos ou reviravoltas espetaculares — ainda que tenha se aventurado nessas áreas com louvor. O cotidiano era o território dele, especialmente o da classe média urbana do Rio de Janeiro, com seus apartamentos ensolarados, seus cafés demorados, suas famílias atravessadas por afetos profundos e conflitos éticos complexos. Ele entendia que o drama mais potente não nasce do extraordinário, mas do que parece banal: entre um comentário sobre o preço do tomate e a violência que assola a humanidade, uma decisão tomada por amor, um silêncio prolongado, um sacrifício feito em nome de alguém.
Foi nesse espaço íntimo que surgiram as Helenas, talvez o mais emblemático de seus legados. O nome das suas protagonistas não homenageava sua mãe, sua filha, um amor do passado: era um tributo à mulher brasileira, na sua condição mais humana — apaixonada, errada, errante. Cada uma delas diferente da outra, mas todas carregando uma mesma inquietação: mulheres que amam demais, que erram, que se contradizem, que envelhecem, que sofrem e que resistem.
Da loira Vera Fischer à negra Taís Araújo, da veterana Regina Duarte à jovem Bruna Marquezine, da mãe Lilian Lemmertz à filha Julia Lemmertz. As Helenas de Manoel Carlos não eram arquétipos, mas pessoas. E ao acompanhá-las, o público brasileiro acompanhou também transformações profundas na forma como a mulher era representada na televisão — com mais densidade psicológica, autonomia emocional e complexidade moral, como declarou ao Jornal Nacional a atriz Lilia Cabral, uma de suas preferidas e que, ironicamente, nunca foi Helena.
Com titulos doces como Felicidade, História de amor e Viver a vida, novelas com sua grife não apenas fizeram sucesso; elas se tornaram marcos culturais e atemporais. Em Por amor, Maneco tocou em um dos maiores tabus sociais ao colocar em cena o limite do amor materno, perguntando até onde alguém pode ir para proteger um filho. Em Laços de família, abordou a diferença de gerações, a doença e o amor em suas formas menos idealizadas. Em Mulheres apaixonadas e Páginas da vida, levantou bandeiras doloridas como o descaso com os idosos, a violência doméstica e a luta contra o alcoolismo. Foram histórias que provocaram debates nacionais, dividiram opiniões e, sobretudo, fizeram o Brasil parar para conversar consigo mesmo.
Havia em sua escrita um profundo humanismo. Manoel Carlos acreditava que ninguém é completamente bom ou mau, e que a vida é feita de zonas coloridas e cinzentas. Seus personagens erravam muito, mas raramente eram julgados pelo autor. Ele próprio declarava que "brincava de Deus" e oferecia ao público algo cada vez mais raro: tempo para compreender, para sentir empatia, para refletir.
Em uma televisão que, hoje, corre atrás de impacto imediato, com a inovadora novela vertical de capítulos de até três minutos e velocidade de série norte-americana, a obra de Manoel Carlos permanece como lembrança de que a emoção duradoura nasce da observação paciente. Aquela que surge quando estamos na padaria do bairro tomando um café enquanto, na mesa ao lado, o universo de uma pessoa comum nos atravessa sem pedir licença.
Ao longo de décadas, Maneco construiu uma obra que dialoga diretamente com a memória afetiva de milhões de brasileiros. As suas novelas acompanharam nascimentos, lutos, amores, separações. Foram trilha sonora de épocas, de famílias reunidas diante da tevê, de conversas que continuavam no dia seguinte e viravam manchetes de jornais e capas de revistas. O legado do novelista é imensurável porque não se mede apenas em audiência ou prêmios, mas na forma como suas histórias entraram na vida real das pessoas.
Com sua morte, o Brasil se despede de um autor que acreditava na força da palavra simples, do gesto contido, do drama que nasce do amor. Manoel Carlos partiu, mas deixou um espelho delicado e honesto de quem somos — e de quem tentamos ser. Um legado que seguirá vivo enquanto houver quem se reconheça na ficção como parte da própria vida.
Obrigado por tudo, Maneco. Nesta noite de sábado, a Bossa Nova ganha melodia melancólica, mas o país inteiro te aplaude de pé como quem exalta o sol que se põe no horizonte do Leblon no fim de um domingo.

Diversão e Arte
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