
Crítica // Hamnet: A vida antes de Hamlet ★★★★
A abundância e o prenúncio de felicidade se instalam em Hamnet: A vida antes de Hamlet, tão logo Agnes (Jessie Buckley) e o entorpecido Will (Paul Mescal, um coadjuvante de peso) se conectam; isso bem antes de a prole de ambos despontar, somando à família Susanna (Bodhi Rae Breathnach), Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes). Afirmado às vésperas do século 17, entretanto, não resultará no famoso "tudo são rosas".
Gravetos, couro, ervas, raízes, breu e água são elementos marcados a fogo na retina dos espectadores que entram em contato com a direção de fotografia de Lukasz Zal (o talento polonês de Ida, Zona de interesse e Guerra fria). Brilhante também é o desenho de produção a cargo de Fiona Crombie (a mesma de A favorita, do grego Yorgos Lanthimos). Stratford, a cidade de nascimento de William Shakespeare, abriga o incipiente Will do filme. Na tela, ele ainda aparece como tutor de latim, considerado um "sem ofício" pelo autoritário pai, e que sonha com a vida urbana ofertada por Londres.
Num registro delicado, afeito ao encanto do teatro, a diretora chinesa Chloé Zhao se apoia em texto de Maggie O'Farrell para contar da destituição do afeto e do seu renascimento entre duas almas progressistas e mutuamente encantadas. Revalidar sentimentos de espectadores e do público (enquanto personagens que acolhem as peças de Shakespeare, no Globe Theatre) é a tarefa de Zhao, enquanto administra sólida dramaturgia feita de gestos de desatino, presságios e convulsões. Aos protagonistas é reservada uma travessia de desgraça, a partir da morte de um filho, o que dá enorme guinada para o casal que vive "com o coração aberto".
Comandando uma empática personagem, dona de existência harmônica, Jessie Buckley investe numa emoção cristalina, com presença translúcida, e, quando abraça o luto, sugere a grandeza cênica de uma Liv Ullmann, a clássica atriz de Bergman que fez história com o chamado grito primal visto no denso Face a face (1976).
Com filhos que acolhem o terreno lúdico imposto pela tradição teatral pretendida pelo pai, o enredo ganha muita coerência dada a precisa montagem do brasileiro Affonso Gonçalves (talento de Ainda estou aqui e Carol). É o teatro, aliás, que novamente imprime colorido, na renovação dos personagens, conscientes, e em paz, com a ideia de algo que, se algo pulsa, fatalmente, um dia morrerá.
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