Música

Samba que vence o tempo

Uma das rodas mais tradicionais do Brasil, Moacyr Luz e Samba do Trabalhador celebra 20 anos de atividade com disco ao vivo

As segundas-feiras são especiais no Renascença Clube. Localizado em Andaraí, no Rio de Janeiro, o reduto sambista começa a tomar forma por volta das 16h30, quando Moacyr Luz e os demais integrantes do Samba do Trabalhador entram em ação. "Tem coisas que só se encontram na nossa roda", garante o músico e compositor carioca. O que começou em uma quadra vazia, em 2005, hoje é tomado por barraquinhas de comidas, roupas, bebidas e, mais importante, por amantes do ritmo tipicamente brasileiro.

"Tudo lá é voltado para o samba, tanto para a música quanto para o jeito de ser sambista", afirma Moacyr, carinhosamente apelidado como Moa. "Ao entrar no clube, você dá de cara com paredes pintadas por representações afro-brasileiras e afro-religiosas, o que torna tudo mais cativante, até encontrar a nossa roda. Depois, é torcer para que a próxima segunda chegue logo para voltar lá", descreve o compositor.

Pouco a pouco, a roda do Renascença se tornou ponto de encontro para os músicos e demais cariocas que trabalhavam durante o fim de semana e folgavam somente na segunda — daí o nome Samba do Trabalhador. "Nosso projeto foi crescendo de uma maneira que a gente não esperava nem previa. Hoje, a gente faz shows por todo o Brasil, lança músicas novas, faz releituras de sambas antigos e recebe convidados ilustres quase toda semana", celebra Moa.

A roda que reúne milhares de pessoas semanalmente e se transformou em referência nacional agora celebra o marco de duas décadas em atividade com o disco Moacyr Luz e Samba do Trabalhador, 20 anos. "Um grupo existir há tanto tempo já é uma coisa importante. Ainda mais por sermos um grupo que toca toda segunda-feira há 20 anos no mesmo lugar, construindo uma mesma história com um mesmo repertório", defende o artista. "Não dava para deixar a data passar em branco", acrescenta.

O álbum, inclusive, é a representação perfeita do trabalho feito pelos músicos todas as segundas, segundo Moa. "Se você ouvir o disco e depois nos ver ao vivo, não muda uma vírgula, não muda nada. A gente é exatamente aquilo", assegura.

O projeto apresenta novas parcerias entre o carioca e demais compositores, além de revisitar clássicos do músico como Vila Isabel, feita com Martinho da Vila, e Cachaça, árvore e bandeira, em colaboração com Aldir Blanc. O álbum ainda conta com faixas inéditas, como é o caso de Vai clarear. "Fizemos essa composição juntos, que traz uma mensagem de esperança, tanto para o samba, quanto para mim", revela o instrumentista que sofre de Parkinson desde 2008.

"Nos últimos dois anos, eu cheguei a um ponto em que eu tocava com muita dificuldade e mal conseguia andar. Para não parar de vez, eu contava com a ajuda dos meus amigos músicos. Porém, em outubro, eu fiz uma operação que teve um êxito muito grande, superando todas as expectativas possíveis. Então, esses 20 anos também servem para comemorar a minha música e a minha vida", destaca o carioca.

Em 2025, Moa também foi celebrado com o lançamento do documentário Moacyr Luz, o embaixador dessa cidade, de Tarsilla Alves. "Eu acho que as pessoas tinham certeza de que eu ia morrer, mas acabou que não morri e ainda consegui assistir ao filme", brinca o compositor.

"Não é um documentário sobre a minha vida, e, sim, sobre a minha maneira de viver", explica o músico. "Eles me acompanharam durante uma semana inteira andando pelo Rio de Janeiro, mostrando o que eu faço na segunda, na terça. E eu fui apresentando a cidade, os bares, os lugares, as praias, a vida que se leva no Rio", continua.

"Eu falo até pouco que sou carioca, porque eu não gosto de me gabar", ri o artista. "Mas eu jamais poderia fazer um samba como esse em São Paulo ou até mesmo em Brasília, onde a pressa é muito grande e ninguém se permite estar, numa segunda-feira, às 16h30, sentado tomando uma cerveja e vendo uma roda de samba. Então, o Rio de Janeiro sempre foi fundamental para a minha história", declara. Segundo Moa, a produção deverá ser disponibilizada no catálogo da Globoplay em breve.

Longevidade

O segredo por trás da longevidade de uma das rodas de samba mais tradicionais do Brasil? Respeito, confirma Moa. "Há uns anos, fomos convidados para fazer shows em 12 cidades diferentes em apenas um mês, viajando direto, sem voltar para casa. Aí, eu brinquei com os meninos: "Agora ou a gente acaba ou é para sempre". Graças a Deus nós conseguimos passar por isso, mesmo dividindo o quarto e fazendo todas as refeições. Passamos por essa pedreira do nosso relacionamento", lembra o artista.

"A gente superou a pandemia e alguns atritos internos, justamente por termos uma identidade própria e respeitamos a formação pessoal de cada um. Respeitamos uns aos outros e vamos levando. É como se fosse um casamento: tem que ceder um pouco dos dois lados, para que a balança fique equilibrada. Quando você consegue ter esse tipo de compreensão, as coisas ficam mais fáceis", aconselha o músico.

 

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