Cinema

Filmes em cartaz trazem novas perspectivas de personagens consagrados

'Hamnet: a vida antes de Hamlet' e 'O beijo da mulher aranha' trazem diferentes ângulos para dramas pessoais que cercaram figuras reais, como Shakespeare, e imaginárias, criadas por Manuel Puig

Os brasileiros mais atentos ao Oscar não esquecem do momento em que Gwyneth Paltrow, há 26 anos, tomou o Oscar de Fernanda Montenegro, na comédia Shakespeare apaixonado. No papel da travestida Viola, em cena, a atriz se declara ao jovem escritor William Shakespeare: "Oh, Will — enquanto (vivo) Thomas Kent, meu coração te pertence. Mas, por (eu) ser Viola, um rio nos aparta". Retomando a vida amorosa do bardo inglês, mas numa tonalidade endurecida, séria e transformadora, no longa Hamnet: a vida antes de Hamlet (um dos favoritos ao Oscar), a diretora Cholé Zhao cerca período de metamorfose, quando, em fins do século 16, uma tragédia o atingiu.

"Se você se aprofunda no significado de certos solilóquios (criados por Shakespeare), encontra as raízes de quem ele é. Foi nisso que concentrei minha atenção", destacou o ator Paul Mescal (de Gladiador II), em material de divulgação do novo longa que trouxe, entre infinidades de prêmios, uma curiosidade para os brasileiros: votada pela Associação de Críticos de Toronto, no quesito interpretação, a estrela do longa, Jessie Buckley (que assume o papel da esposa de Shakespeare), ficou em segundo lugar, empatada com Wagner Moura (premiado com o Globo de Ouro — premiação que também destacou Jessie como melhor atriz).

A atriz irlandesa de 36 anos, formada pela prestigiosa britânica escola Rada (Academia Real de Artes Dramáticas), está a passos do Oscar, pelo papel de Agnes, depois de vencer o Critics Choice, o prêmio da Associação de Críticos de Washington, o troféu da Sociedade de Mulheres Jornalistas e inúmeras distinções entre associações de críticos norte-americanos.

Posicionado na lista do The New York Times Book Review como uma das cinco melhores obras de ficção de 2020, um livro de Maggie O'Farrell deu base para o filme que teve por produtores Sam Mendes e Steven Spielberg. Ambientado em meio à disseminação da peste (que ocasionou a morte, aos 11 anos, de Hamnet, filho de Shakespeare), o enredo priorizou, na escrita, o menino. "Todo (meu) impulso para escrever veio da vontade de colocá-lo em cena e dizer que essa criança foi importante, foi amada. Sem ele, não teríamos Hamlet", já pontuou Maggie.

"Tive medo da morte toda a vida e, como resultado, tive medo do amor também", revelou, recentemente, a diretora do filme, Chloé Zhao (uma chinesa criada no Reino Unido). Ela, que venceu o Oscar de direção por Nomadland, comentou à imprensa internacional da experiência "visceral" de Hamnet: "Para mim, parecia quase poesia, e esse é o tipo de linguagem em cinema que adoro". Zhao se afirmou no ritmo do livro, para montar o filme, ao lado do brasileiro Affonso Gonçalves (de Ainda estou aqui). O diretor de fotografia Lukasz Zal foi inspirado por discussões em torno de masculinidade e feminilidade: "(Buscamos) o que seria essa dança entre Shakespeare e Agnes? Falamos sobre morte, amor, sobre a família deles, o ciclo da vida".

"Eu te dou a minha vida" é uma das falas marcantes na trama de Hamnet, muito concentrado sobre Agnes, uma mulher entrosada com falcões e com misturas de insumos da floresta (o que ocasiona o apelido de "bruxa"). "Ela é um pouco outsider em sua própria vida, e encontra conforto e consolo nessa floresta", decifra Jessie, atriz lembrada por A filha perdida (que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) e Entre mulheres.

Vista como uma curandeira, Agnes, que conta com a companhia do irmão Bartholomew (papel de Joe Alwyn), vive embalada pelos sussurros (elemento que norteia parte da escrita de Shakespeare). Entre ambos, para além da conexão com o mito de Orfeu e Eurídice, impõem-se o destemperado e a agitação, a partir da morte de Hamnet (Jacobi Jupe), amigo outrora inseparável das irmãs Judith e Susanna, e que servirá de inspiração para Hamlet (nos palcos da ficção, interpretado por Noah Jupe, conhecido por produções como Um lugar silencioso).

Sonhos de liberdade coloridos e vibrantes

 Foi para a renomada Variety que Bill Condon, o diretor que rearranjou, em musical de cinema, a obra O beijo da mulher aranha, revelou impulsos com a obra literária de Manuel Puig: “O fundamental é, ao se questionar a revisão e releitura de uma obra, disparar a dúvida: é realmente necessário refazer?”

Tomado por um ímpeto, e a meio termo entre uma produção independente e o esquema de cinema comercial, Condon — que dirigiu A Bela e a Fera e Dreamgirls, além de redigir o roteiro de Chicago — remexeu a obra que, em cinema, rendeu notoridade para o brasileiro Héctor Babenco, que obteve até indicação ao Oscar de melhor direção, em 1986. Revendo o material que ainda originou, em 1993, musical da Broadway (com criações de John Kander e Fred Ebb), Condon buscou elementos de aceitação pessoal e reconhecimento, e mergulhou na revisão a fim de estabelecer uma real narrativa de amor, antes ignorada. Nisso, calibrou com mais sentimentalismo o encontro forçado, no cárcere da ditadura argentina, do deslumbrado Luis Molina (Tonatiuh, ator de ascendência mexicana) e o revolucionário e ativista Valentín (Diego Luna).

O filme que rendeu premiações, nos anos 1980, para William Hurt (melhor ator no Festival de Cannes, no Bafta, no Oscar e ainda indicado ao Globo de Ouro, ao lado dos colegas Sonia Braga e Raul Julia) traz Jennifer Lopez como uma diva musical dos anos 1940 e 1950. O longa foi filmado em Montevidéu (Uruguai) e Nova York (EUA). Condon brinca que filmes musicais têm morrido desde a invenção do gênero. Numa entrevista ao The Hollywood Reporter, o realizador arriscou: “No íntimo as pessoas adoram, elas amam filmes musicais, mas elas precisam de autorização”. Entre os cuidados pontuados pela cantora e atriz Jennifer Lopez, Condon citou a entonação vocal e a adequação à maneira de se mover contempladas pelas estrelas (de época) com formação em grandes estúdios.

 

Mais Lidas

Agata Grzybowska/ Universal - A diretora Chloé Zhao orienta os protagonistas Paul Mescal e Jessie Buckley, em cena de Hamnet: a vida antes de Hamlet
Universal/Divulgação - A centelha de toda uma explosão dramática: o menino Hamnet (Jacobi Jupe)
Divulgação - A natureza assenta muito da dramaturgia composta no filme que venceu o Globo de Ouro
Paris Filmes/ Divulgação - O filme musical O beijo da mulher aranha