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Ricardo Pereira fala de trabalhos no Brasil, em Portugal e na Espanha

O ator português Ricardo Pereira retorna às novelas brasileiras como vilão em "Coração acelerado" e vive fase internacional intensa com projetos também entre Portugal e a Espanha. Por aqui, ele também poderá ser visto no filme "Minha amiga"

Depois de quatro anos afastado das novelas brasileiras, Ricardo Pereira está de volta à teledramaturgia nacional em um papel que marca e provoca: o de vilão. O ator português integra o elenco de Coração acelerado, novela das sete da Globo, e interpreta Jean Carlos, um personagem denso, cheio de contradições e zonas de sombra. Escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, a trama teve suas primeiras cenas gravadas em Goiás — experiência que, segundo o ator, atravessou diretamente a construção do papel.

“Voltar só fez sentido porque havia um personagem com densidade e uma história que dialoga com o público de hoje”, afirma Ricardo. Para ele, viver um vilão é sempre um convite mais exigente: “São personagens que pedem mais camadas, mais troca e mais responsabilidade”. Seu último trabalho foi o cruel Danilo, principal antagonista de Cara e coragem, em 2022.

Jean Carlos, como faz questão de frisar, está longe do arquétipo óbvio do antagonista. “Ele é movido por desejos, contradições e fragilidades muito humanas. Não gosto de personagens que se explicam facilmente, e o Jean tem zonas de sombra interessantes, que vão se revelando aos poucos”, diz. A ambientação inicial  em Goiás também colaborou para esse desenho mais cru: “Quando a locação é verdadeira, ela atravessa o ator e influencia a interpretação. Isso dá uma camada extra de verdade às cenas".

Fernando Young - Ricardo Pereira, ator português

Para além do palco

O retorno às novelas brasileiras ocorre em meio a uma fase particularmente intensa e internacional da carreira de Ricardo Pereira. Em Portugal, ele está em turnê com Uma brancura luminosa, primeira adaptação nacional da obra do dramaturgo norueguês Jon Fosse, vencedor do Nobel de Literatura em 2023. Além de atuar, Ricardo assina a coprodução do espetáculo ao lado da atriz Sandra Barata Belo, ampliando seu envolvimento artístico para além do palco.

“O texto do Jon Fosse exige concentração, técnica e presença absoluta”, explica o ator, cujo personagem morreu no primeiro capítulo, mas segue mergulhado na trama principal por ser pai da protagonista, Agrado (Isadora Cruz), e ponto de conexão trágica e rivalidade entre as irmãs Janete (Letícia Spiller) e Zilá (Leandra Leal). “Estar também como coprodutor amplia a responsabilidade artística, porque passamos a pensar o espetáculo como um todo — da criação à circulação.” Há, inclusive, planos concretos para trazer a peça ao Brasil. “O público brasileiro é extremamente aberto e curioso. Quando tem acesso ao teatro português contemporâneo, responde muito bem. Existe um terreno fértil para esse encontro”, comemora.

O ano de 2025 consolidou esse trânsito constante entre países, formatos e linguagens. No Brasil, Ricardo gravou a série Fúria, da Netflix, criação de Igor Verde e Gustavo Bragança, com direção geral de José Henrique Fonseca. “É uma série intensa, ambientada no universo dos clubes de luta, com uma narrativa muito contemporânea”, adianta. Seu personagem circula nesse submundo com habilidade e ambiguidade: “É um cara muito safo, malandro, inserido num contexto de grande tensão dramática. Acredito que o público vai se surpreender”.

No cinema, foram três longas-metragens: Minha amiga, com Monica Martelli e Ingrid Guimarães; Vindima, coprodução luso-brasileira das produtoras Fado Filmes e Gullane; e A sogra perfeita 2, da Paris Filmes. Sobre Minha amiga, o ator destaca a troca em cena: “Monica e Ingrid têm um timing impecável e uma generosidade enorme”. Já Vindima simboliza, para ele, a potência do diálogo entre Brasil e Portugal. “Essas coproduções permitem contar histórias que atravessam fronteiras com naturalidade.”

No streaming europeu, Ricardo também esteve em evidência com Lume, minissérie policial luso-espanhola exibida pela RTP Play e pela Max, e Eva & Nicole, também na Max. Em Portugal, estreou ainda Azul, no OPTO, e integrou o elenco de Mar branco, da Netflix, contracenando com Paola Oliveira e Caio Blat.

Globo/Estevam Avellar - Ricardo Pereira como Danilo em Cara e coragem

Reconhecimento

Em meio a tantos projetos, veio também o reconhecimento. Em 2025, Ricardo Pereira conquistou seu segundo Globo de Ouro de Melhor Ator de Ficção, pela atuação na novela A herança, exibida pela SIC. “Mais do que o prêmio em si, ele representa a confirmação de um caminho de pesquisa, consistência e entrega ao longo dos anos”, reflete o ator de 46 anos, que estreou no Brasil em 2004 como o mocinho Daniel de Como uma onda, da TV Globo — emissora onde também protagonizou Negócio da China (2008) e Aquele beijo (2011). 

Equilibrar uma agenda tão intensa, atravessando diferentes culturas e personagens em curto espaço de tempo, exige método e consciência. “Cada personagem pede um corpo, um ritmo e uma energia específicos. Tento encerrar um trabalho antes de começar o outro, mesmo que simbolicamente, para conseguir me entregar por inteiro”, argumenta o virginiano detalhista.

Essa travessia constante entre Brasil, Portugal e Espanha é, segundo ele, fruto de escolhas muito claras. “A qualidade do texto e da equipe é sempre o principal critério. Estar entre culturas diferentes exige adaptação, mas amplia o repertório artístico e humano.” Para Ricardo, o público de ambos os lados do Atlântico se reconhece nesse intercâmbio. “Há uma base cultural comum, uma língua compartilhada, mas com sotaques, ritmos e visões distintas. Isso gera curiosidade e identificação ao mesmo tempo.”

O ano de 2026 se desenha como mais um decisivo para ele. “Minha expectativa é seguir construindo projetos com sentido, que dialoguem com o público e comigo enquanto artista. O maior desafio é manter a qualidade das escolhas sem perder o prazer e a verdade no trabalho. E tem muita coisa boa para estrear”, resume.

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