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'Adoro trocar de pele', afirma Nikolas Antunes, que retorna em 'Dona Beja'

Na adaptação de "Dona Beja", Nikolas Antunes aposta em personagem de transformação silenciosa com traços de ambiguidade — característica que pontua trabalhos anteriores como as séries "Olhar indiscreto", da Netflix, e "Estranho amor", da RecordTV

A poucos dias da estreia de Dona Beja na Max, marcada para 2 de fevereiro, Nikolas Antunes atravessa um momento de rara intensidade criativa. Integrante do elenco da aguardada releitura do clássico exibido nos anos 1980, o ator dá vida a Clariovaldo Pereira — o Valdo — capataz fiel e figura central na engrenagem emocional da trama. Mais do que um coadjuvante funcional, Valdo surge como um personagem de camadas, deslocamentos internos e escolhas que reverberam ao longo dos 40 capítulos da novela assinada por Daniel Berlinsky e Antônio Barreira.
“Gosto muito de lançar trabalhos que vão além do entretenimento e que têm importância cultural”, afirma o pernambucano de 43 anos. Na visão do ator, Dona Beja permanece atual justamente por retratar, sob a moldura de uma novela de época, estruturas de poder que atravessam séculos: “É uma história sobre uma heroína meretriz, de origem pobre, que se relaciona com poderosos e atravessa abusos, lutas, recomeços e vitórias. Esse tipo de trama reflete a sociedade de maneira atemporal”.
Esse olhar atento para as forças invisíveis que movem a narrativa também orientou a construção de Valdo. Distante de ambições grandiosas ou jogos de interesse, o personagem se ancora em uma ética simples, quase primitiva. “Pessoas simples têm uma qualidade de presença diferenciada”, observa Antunes.
“O Valdo é um sujeito de presença muito forte, com uma sabedoria bastante simples. Poder, dinheiro ou luxúria não fazem a cabeça dele. Ele está atrás de uma ausência que o acompanha desde sempre.” É justamente essa lacuna íntima que impulsiona sua trajetória de transformação — discreta no início, mas decisiva no desfecho.
A preparação para o papel exigiu mergulho físico e sensorial. Ambientada no século 19, Dona Beja demandou do elenco uma adaptação rigorosa ao ritmo da vida rural, ao figurino pesado e à prosódia de época. No caso de Antunes, a lida no campo foi menos obstáculo e mais reencontro. “Eu sou chegado à vida na roça, tenho muita facilidade para respirar nesse ambiente”, conta.
Para dar verossimilhança ao capataz que não se separa do cavalo, o ator retomou com intensidade um hábito antigo: voltou a montar com frequência e fez aulas específicas de equitação. Nos bastidores, a égua Dama se tornou presença constante, quase uma extensão do personagem.
A estética cinematográfica da produção também marcou o processo. Antunes descreve bastidores exigentes, fisicamente cansativos, mas recompensadores. “Quanto mais trabalho dá, mais bonito fica”, resume. Conhecido pela entrega total aos projetos, ele encara o rigor como parte essencial do resultado final: “Sou movido a desafios. Costumo ser o primeiro a chegar e o último a sair, de preferência com um sorriso no rosto”.

Universos distintos

Paralelamente à estreia de Dona Beja, o ator também colhe os frutos de trabalhos recentes em registros muito distintos. Em Estranho amor, vive o policial Rodrigo Guimarães em uma série que aborda de forma frontal a violência contra a mulher. A experiência, segundo ele, exigiu um cuidado extra. “É impossível esquecer do que estamos tratando durante as gravações. Isso fica impresso nos personagens e na vida dos atores.”
O desafio maior esteve em equilibrar a dureza moral de um personagem inicialmente machista com a sensibilidade exigida pelo tema. “O Rodrigo faz coisas erradas e justifica pelos resultados. Foi assustador no começo, mas a história é também sobre redenção, ou a busca por ela.”
Essa capacidade de transitar entre universos tão distintos — do drama policial contemporâneo ao épico de época, passando por produções bíblicas como Paulo, o apóstolo, em que interpretou Netaniel — é, para Antunes, o motor da carreira. “Eu adoro trocar de pele. Sou um contador de histórias. Minha pira é mergulhar nisso, ajudar a contar a história da obra inteira e a do meu personagem.”
Com passagens marcantes pelo streaming — em séries como Reencarne, na Globoplay, Olhar indiscreto, sucesso da Netflix, e, agora, na aposta da Max —, Valdo se soma à galeria de personagens moralmente ambíguos que pontuam sua trajetória. Antunes, porém, evita simplificações.
“Não acho que o Valdo seja alguém que inspire torcida”, admite o leonino. “Mas ele cumpre muito bem a missão dele”, defende. Uma missão que passa menos pelo julgamento do público e mais pela revelação de contradições humanas — silenciosas, profundas e, por isso mesmo, tão potentes.
Divulgação -
Márcio Farias/Divulgação -
Aline Arruda/Netflix -
REPRODUÇÃO -
Estevam Avellar/TV Globo -

 

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