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'Sem fugir do inevitável', afirma Cássio Scapin, sobre maturidade e resistência

Aos 62 anos e após ser símbolo da Parada do Orgulho LGBT sobre envelhecimento na comunidade, Cássio Scapin transforma o passar do tempo em um discurso público. "O envelhecimento não é democrático no Brasil", avalia o artista, em entrevista

Aos 62 anos, Cássio Scapin atravessa uma fase rara na trajetória de um artista brasileiro: a da maturidade plena, em que experiência, consciência e inquietação coexistem sem nostalgia nem acomodação. Com mais de quatro décadas dedicadas ao teatro, à televisão e à formação cultural, o ator, diretor e produtor não se prepara para a despedida. Ao contrário: constrói, em voz alta, uma permanência.

Em um país que ainda associa valor à juventude e produtividade à aparência, Scapin escolheu transformar o tempo em linguagem, o envelhecimento em discurso público e a própria trajetória em instrumento de diálogo social.

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Reconhecido por personagens que marcaram gerações — como o inesquecível Nino, de Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, ou o Santos Dumont da minissérie Um só coração, na TV Globo —, ele sabe que sua imagem está ligada à memória afetiva coletiva. Mas nunca permitiu que isso se tornasse um limite.

Enquanto ganhava projeção na televisão, construiu uma carreira sólida no teatro, protagonizando montagens densas, politizadas e esteticamente arrojadas, como Angels in America, ainda nos anos 1990.

"Para mim, o Castelo foi um período muito produtivo, muito importante, mas não foi a minha vida inteira. Eu nunca parei de avançar em outras áreas", afirma. O que ele chama de "mundo paralelo" foi, na verdade, a base de uma trajetória consistente, sustentada por rigor artístico e inquietação permanente.

Orgulho e apoio mútuo

Em dezembro de 2024, ao completar 60 anos, Scapin tornou-se também representante da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, cuja edição teve como tema "Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro". A escolha sintetizava sua própria caminhada. Para ele, discutir longevidade dentro da comunidade vai muito além da questão identitária. "O envelhecimento não é democrático no Brasil. Pessoas mais velhas estão muito vulneráveis. E, na comunidade, isso é agravado porque muita gente não tem rede familiar", observa.

Segundo o ator, uma geração inteira envelhece hoje em solidão, fruto de rupturas históricas necessárias para existir em décadas menos tolerantes. "A gente precisa pensar em cumplicidade no envelhecimento, em novas formas de convivência, em casas coletivas, em apoio mútuo. Precisamos mudar os parâmetros", completa.

Essa consciência atravessa também sua reflexão pessoal. "Não nos ensinaram a imaginar o depois", costuma repetir. Para Scapin, a construção desse "depois" precisa começar no presente. Ele segue ativo, curioso, disposto a se reinventar. Pensa em voltar a estudar, cogita dedicar-se à psicologia, busca novas formas de compreender o mundo e a si mesmo. "Continuo absolutamente produtivo, com energia vital pulsante. A gente precisa inventar esse lugar do depois agora", diz. Para ele, longevidade não é espera, mas projeto: financeiro, afetivo, simbólico e existencial.

A disciplina com o corpo, frequentemente citada como exemplo, também faz parte dessa coerência. Praticante de balé, adepto de exercícios diários e atento à saúde, Cássio rejeita a ideia de que se trata de uma tentativa de preservar juventude. "Eu sempre fui rigoroso com isso. Não faço em busca da juventude. Faço para mim, para que o meu externo corresponda ao meu interno", explica.

Ao mesmo tempo, o sagitariano recusa qualquer ascetismo artificial e não se priva de pequenos prazeres. "Tenho um ritual à noite, uma taça de vinho para encerrar o dia. Isso também é cuidado." Para ele, envelhecer bem passa por aceitar ajustes, não por negar transformações: "As coisas vão se adequando. O importante é você se sentir coerente consigo".

Essa postura também orienta sua relação com a indústria cultural, historicamente marcada pelo culto à juventude. Scapin reconhece que o mercado é excludente, mas percebe mudanças graduais. "A sociedade está envelhecendo. Novos paradigmas vão surgir. O mercado começa a entender que pessoas mais velhas são um nicho importante", analisa.

Ainda assim, o paulistano não romantiza: "A nossa área sempre foi cruel com o envelhecimento". Consciente de que a invisibilidade é um risco estrutural, ele prefere concentrar energia no presente. "Faço tudo o que tenho vontade agora, porque todos estamos destinados ao esquecimento", desabafa.

Reflexões no divã

Talvez seja dessa lucidez que tenha nascido o projeto Reflexões no meu divã, série de vídeos nas redes sociais em que compartilha, de forma espontânea, questões surgidas em sua terapia. A proposta, inicialmente experimental, transformou-se em espaço de escuta coletiva.

"Percebi que as perguntas que eu levava para a análise eram perguntas que muita gente fazia, mas não tinha com quem falar. O divã virou partilha", conta. Sem roteiros, sem encenação, ele fala a partir do que o atravessa: medo, finitude, insegurança, desejo, perdas, solidão. "É tudo muito sincero. Eu anoto o que está me incomodando e falo. As pessoas se reconhecem", conta.

O retorno do público, muitas vezes, o emociona. Chegam relatos íntimos, histórias de dor, confissões de fragilidade. Ele não se coloca como conselheiro. "Não sou terapeuta. O que posso fazer é oferecer presença, dizer que a pessoa não está sozinha." Essa troca, segundo ele, também o transforma, amplia sua percepção de responsabilidade e reforça a dimensão coletiva de sua própria trajetória.

Entre os temas recorrentes dessas reflexões está o desejo na maturidade. Em uma cultura que erotiza quase exclusivamente corpos jovens, Scapin insiste em desconstruir estigmas. “A libido não acaba. O sexo melhora com o tempo. Você conhece melhor seu corpo, seus limites, seus prazeres. A gente deseja e é desejável”, afirma. Para ele, a sexualidade aos 60 é menos impulsiva, mas mais consciente, menos performática e mais verdadeira.

Se há algo que gostaria de ter compreendido antes, admite, é a impermanência. “As coisas são perecíveis. Às vezes terminam antes do tempo. Talvez eu devesse ter tido mais liberdade, mais irresponsabilidade em alguns momentos.” Ainda assim, não se arrepende do percurso. Reconhece-se como alguém comprometido, fiel à própria ética, profundamente ligado ao trabalho. “Minha vida sempre esteve misturada com a arte. Eu não me percebo em outro lugar.”

Futuro

Essa fusão entre existência e criação se reflete nos projetos previstos para 2026. Em Distopia Hughie, ele aborda o impacto da inteligência artificial sobre a arte, a verdade e os afetos. “Me angustia pensar onde ficam a imaginação, o desejo, o humano”, diz. Em O avarento, releitura do clássico de Molière, discute etarismo, poder econômico e pulsão sexual na velhice. “Não é um velho ridículo. É um homem que ainda é desejado, que ainda ocupa espaço.” Ambos os trabalhos dialogam diretamente com suas inquietações atuais: o medo do apagamento, a transformação tecnológica, a disputa por sentido.

Aos 62 anos, porém, o sentimento predominante não é o de celebração, mas o de batalha. Produzir cultura no Brasil, especialmente fora do mainstream, segue sendo um processo árduo. “É uma guerrilha. Captar, montar, realizar. Nada é fácil”, afirma. Ainda assim, ele persiste: “Minha pulsão é levantar e lutar”.

Entre tantas reflexões, uma pergunta permanece sem resposta: “Será que era só isso?”. É a pergunta da finitude, da perda, do desligamento. “Você começa a pensar que o relógio anda ao contrário. Não sabe quanto tempo tem.” Paradoxalmente, essa consciência não o paralisa. Ao contrário: “Isso me dá vontade de estar vivo. De desfrutar. Eu não tenho medo da morte”.

No cotidiano, seu maior ritual é simples: acordar e ser recebido com alegria por seus dois cães. “Eles ficam felizes só porque você acordou. Isso te conecta com a existência.” Para ele, ali está uma forma elementar de filosofia: presença, afeto, agora. “A arte também está nisso. Na simplicidade”, conclui Cássio Scapin.

Carlo Locatelli - Cassio Scapin, ator

Entrevista | Cássio Scapin

Como representante da Parada LGBT+ de 2024 que teve como tema “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro, o que você acha que é mais urgente discutir quando falamos sobre longevidade nessa comunidade?
Olha, acho que uma das principais questões para se discutir não é só a respeito de um envelhecimento LGBTQIAPN+, a gente tem que entender que o envelhecimento é igual para todos, mas o envelhecimento, principalmente no Brasil, não é uma coisa democrática. A gente está muito vulnerável às pessoas dentro de uma faixa etária avançada as pessoas estão muito vulneráveis, porque é uma geração que não está acostumada ao velho, ao velho no sentido de pessoas mais velhas convivendo com pessoas mais velhas tendo que dar conta do mercado de trabalho, do mercado produtivo para sobreviver. Então está acontecendo uma coisa muito difícil, que são pessoas mais velhas cuidando de pessoas mais velhas ainda. Na comunidade, isso tem um agravante, que as pessoas, no geral, uma grande maioria não tem família, ou são pessoas que quebraram padrões com a família por uma questão de movimento histórico, onde não era ainda uma coisa tão aceita como é para as novas gerações. Então a gente tem um grande montante de pessoas sozinhas. Eu acho que o importante para esse grupo é que se discuta uma cumplicidade no envelhecimento, que a gente também mude os parâmetros com relação ao envelhecimento, aos parâmetros estéticos, aos parâmetros de convivência, aos parâmetros do grupo social. Então eu acho que a gente tem avanços, e precisa fazer avanços nesse sentido. Eu sempre penso nesses novos sistemas de co-work, co-work não, co-house, de casas coletivas, de moradias coletivas, onde as pessoas possam ter a sua independência, a sua privacidade, e ao mesmo tempo estejam amparadas e vigiadas por outras pessoas. Eu acho que a gente tem que estabelecer uns parâmetros diferentes para a gente poder envelhecer com mais tranquilidade, ou pelo menos com mais afeto e conforto.

Você fala que “não nos ensinaram a imaginar o depois”. Como foi, para você, o processo de começar a imaginar e construir esse “depois” pleno?
É, essa questão é muito séria, como que é o depois. Eu tenho tentado transformar o meu depois agora no presente. Continuo sendo uma pessoa absolutamente produtiva, com energia vital pulsante e tenho me dedicado, inclusive, a novas experimentações de vida, de maneira de ver a vida, de maneira de me conduzir. Estou pensando em voltar a estudar, penso em me dedicar à psicologia, porque tem a ver com o meu trabalho e com a minha história de vida. Então, é isso, acho que a gente tem que começar a pensar no depois agora. O que é esse depois? Mas um respaldo financeiro, um respaldo afetivo, um respaldo social? A gente não sabe. É o que se relaciona bastante com o que você me perguntou na primeira pergunta. Então, a gente tem que começar a inventar um novo lugar para esse depois, para que a gente exista bem ainda, por muito tempo.
A senilidade e a invisibilidade são fantasmas para muitos que envelhecem, especialmente fora dos padrões. Como você lida com a possibilidade de se tornar “invisível” para uma indústria e uma sociedade que idolatram a juventude?
Eu acho que a gente sempre retorna no mesmo ponto. A questão da invisibilidade é para todos os grupos sociais. Mas existe esse fato concreto. A sociedade está envelhecendo como um todo. Por exemplo, uma pessoa de 60 anos, 20 anos atrás, não ocupariam os lugares, os padrões que uma pessoa de 60 anos ocupa hoje. Então, acredito que haverá uma acomodação no modo de pensar. A gente vai criar novos paradigmas nesse modo de pensar. E a gente vai ser menos invisível. Porque a gente, por um tempo maior, continuará produzindo, continuará entregando, continuará performando dentro das possibilidades e das exigências que a sociedade nova estipula. Se você pensa que hoje existem imóveis de alto padrão destinados a pessoas de terceira idade, você começa a entender que esta invisibilidade começa a ser transformada. Porque o mercado começa a entender que é um nicho importante. Tudo neste mundo de meu Deus tem girado em torno das necessidades mercadológicas. Então, o mercado começa a perceber que pessoas com mais idade podem ser uma fonte rentável, um lugar rentável para o mercado. Então, o mercado também vai ditar. No nosso trabalho de ator, a gente sempre foi muito relacionado com o mercado. A gente sofre dessa questão há muitos anos. Independente da sexualidade da gente, do grupo a que você pertence, nesse sentido. A nossa área das artes é uma área cruel com a questão do envelhecimento já há muitos anos e com a questão da invisibilidade. Porque é uma área que está diretamente relacionada e conversando com o mercado produtivo. Então, a gente já está um pouco lascado. E eu acho que a questão da invisibilidade, todos sumiremos um dia. Essa coisa é inegável. Mais cedo ou mais tarde, sumiremos e seremos esquecidos. Se você perguntar para novas gerações quem foi uma pessoa importante do passado, provavelmente essa pessoa, para um jovem, essa pessoa sequer existiu no mercado da cultura, no mercado da arte, ou propriamente no mercado das finanças. As pessoas nem saberão quem foram. Então, eu acho que particularmente eu lido com essa questão pensando em que é importante fazer tudo o que você tem vontade e deseja fazer para se realizar como pessoa neste momento, no presente, no momento que você pode e que você tem energia para isso. Porque todos nós estamos destinados ao esquecimento.
Suas Reflexões no meu divã nas redes sociais abordam medos íntimos de forma pública. O que te motivou a transformar a terapia em partilha e criar essa ponte com o público?
Começou, essa brincadeira começou de forma completamente despretensiosa. Eu tenho o Matheus Martini, que é um amigo meu, que é videomaker, ele falou, vamos fazer uma experiência. Falei, vamos, que pode ser. Falei, se eu falasse coisas que estão compartilhando aflições pessoais durante uma conversa com o seguidor que eu não conheço, como é que seria. Então, partiu disso. É completamente... A gente faz um trabalho, eu separo temas que estão me afligindo, a gente pode dizer assim, ou coisas, ou temas que me interessam, ou questões cotidianas que surgem no decorrer de um período, e eu anoto o que é que me incomoda, o que é que está me pegando. E a gente, no dia da gravação, eu só solto e discorro. Então, é uma coisa bem sincera. Eu faço bem de verdade, assim, não tem escrito. Eu vou falando o que me vem à cabeça e como esse processo vai se desenvolvendo na hora que eu estou falando. Então, é bem espontâneo. Eu acho que isso é uma coisa que tem funcionado muito nas reflexões do meu divã, porque é uma coisa absolutamente sincera. São questões que me batem e que eu tento dividir e descobrir que tem muitas pessoas que sofrem das mesmas questões. E são questões, às vezes, bastante primárias, corriqueiras, simples. Mas que, quando você se sente com isso, com essa possibilidade de entender, tem outras pessoas que também têm essa questão, as coisas ficam mais leves.

Você mantém uma disciplina rigorosa com o corpo (balé, alimentação, exercícios). Como você equilibra essa busca por um “corpo cênico admirável” com a crítica ao padrão estético da juventude como capital único?
Então, eu acho meio simples isso. Eu sempre fui, desde muito jovem, muito rigoroso com essa questão. Eu sempre tive uma disciplina bastante grande com a dança, com o teatro. O teatro é um lugar de disciplina. Então, eu sempre tive esta questão. E eu não faço em busca da juventude. Isso, como eu já fazia antes, quando eu era jovem, continuo fazendo praticamente as mesmas coisas. E sou uma pessoa que não sou tão regrado, por exemplo, com alimentação. Eu gosto de comer a minha carne de vez em quando, um torresminho, de vez em quando, um chuto, pé na jaca com pizza. Não é o meu habitual. Mas eu não me poupo, não me privo de prazeres. Eu bebo, tomo vinho praticamente toda noite. Eu adoro vinho. O vinho encerra o dia. Dizem que não se pode, por exemplo, que não se deve beber antes de dormir. Eu, terminando o dia, tomo uma tacinha de vinho, duas, para assistir um filme, para ver uma série. É quase um ritual de desligamento do meu dia. Então, eu acho que, principalmente, é isso. Eu não faço. Então, as críticas que às vezes vêm de gente que só pensa diferente, às vezes nem é crítica. A gente tem que entender isso, que as pessoas podem pensar diferente. Pode falar, mas eu não me importo com a aparência. Eu não faço isso para alguém que se importa. Eu faço isso para mim mesmo e para que eu me sinta bem. E para que eu me veja bem, para que eu me olhe no espelho e fale, ok, está correspondendo o meu corpo, a minha cara, o meu jeito, corresponde à minha pulsão interna. Isso eu acho principalmente que a gente deve fazer. Por exemplo, como eu sou um cara de 62 anos, eu não posso mais usar o tipo de roupa que eu usava quando eu tinha 30. Então, as coisas vão se adequando. Você tem que estar de acordo com aquilo que você se sinta bem. Não que seja proibido. Ah, não quero uma camiseta com logos, estampas. Quero usar uma camiseta do Mickey. Depende. Depende de como você está por dentro, do que você vê por dentro. Mas eu tenho tentado sempre, principalmente isso tudo, é adequar o meu externo, a minha parte externa com o meu interno. Então, você sabe que eu vou por dentro. Então, aqui eu vou muito para o meu externo. Eu vou fazer o meu externo. Então, vindo a minha parte externa e meu software, eu te dou a minha parte externa. Eu vou ver.
O desejo aos 60 anos é um dos temas que você aborda. Em um mundo que sexualiza quase exclusivamente os jovens, como é ressignificar e vivenciar o desejo nesta fase da vida?
Você tem que entender e retrabalhar algumas coisas. Primeiro que você não passa a ser imediatamente desejável. A juventude tem essa coisa, ela te promove um desejo imediato, você deseja outro e você é desejado quase que imediatamente. Não sei se é uma questão hormonal, se também é uma questão estética, é uma questão de imagem. E tem a questão objetiva, que é o sexo. Quando você está com uma pessoa, isso também depende da sua pulsão particular. Quando você faz 60 anos, a sua libido não acaba. Você fala, não, aposentei o sexo. O sexo, inclusive, é bom. Melhora com o decorrer da idade. Você sabe melhor como é que a tua sexualidade funciona, como é que o teu prazer funciona, o que te dá claramente prazer, os teus limites onde você pode ultrapassar, o que você quer fazer. A sexualidade para as pessoas de mais idade, ela existe, ela é possível. A gente deseja e a gente é desejável.
Você disse que falar de longevidade é “falar com quem ainda tem tempo”. Que conselho ou insight você gostaria de ter recebido aos 30 ou 40 anos sobre o processo de envelhecer?
Olha, talvez o insight que eu acho que eu deveria ter tido, e se puder dividir esse insight, eu acho que é principalmente ter mais liberdade, ter uma compreensão melhor de que as coisas são perecíveis, de que as coisas, naturalmente, elas terminam. Eu acho que é isso. E que, às vezes, as coisas terminam antes do tempo. Então, eu acho que... Eu tive uma vida em que fiz muita coisa, aproveitei muito, mas acho que, se pudesse, teria aproveitado ainda mais. Eu poderia ter tido um pouco de irresponsabilidade em algumas questões, mas eu sempre fui um camarada meio comprometido.
Com quatro décadas de carreira, de Castelo Rá-Tim-Bum a projetos atuais, como você vê a relação entre o artista que você era e o que você é hoje? O que a experiência te deu que a técnica sozinha não dava?
É uma loucura isso, porque o Castelo Rá-Tim-Bum, são quatro décadas de Castelo Rá-Tim-Bum, mas só que para mim não foram quatro décadas. Para mim foi um pequeno período da minha vida que abriu uma aba da minha vida, um lado da minha vida, que foi muito produtivo, que foi muito rentável, que foi muito bacana, tanto no sentido de que as pessoas me conhecessem, da divulgação do meu trabalho, da divulgação da minha pessoa, como frutos de realização pessoal, de frutos no sentido de você encontrar uma pessoa, ainda ontem estava no ensaio da escola de samba, você encontra gente que te abraça e fala você mudou a minha infância. Isso é uma coisa que você vai coletar felizes para o resto da vida. Isso é um patrimônio pessoal para mim. Mas quanto ao Castelo Rá-Tim-Bum, eu não parei, nem quando eu fazia o Castelo Rá-Tim-Bum, de avançar em outras áreas. Eu fiz sempre muito teatro, fazia coisas, aliás, que eu absolutamente contra aquela figura, aquele personagem do Castelo Rá-Tim-Bum. Eu fazia um espetáculo na época, chamado Angels in America, do Tony Kushner, que era na década de 90, e a gente estava falando sobre os terrores da aids, um espetáculo superpesado, e que foi um sucesso de público, me deu prêmio e tudo mais. Então, eu nunca parei. Então, essa coisa, eu acho engraçado, que parece que me divide em um outro lugar, um portal que às vezes eu passo, que está sempre ali, uma vida paralela, que eu construí, fazendo uma carreira consistente no teatro, fazendo televisão, de volta, de vez em quando, no cinema. Mas é isso. Foram 40 anos neste mundo paralelo, sem abrir mão da minha produção artística em outros setores durante esse período todo.

Seus próximos projetos, O avarento e Distopia Hughie, parecem espelhar suas inquietações atuais: etarismo e inteligência artificial. Como essas peças dialogam com o seu momento de vida e de reflexão pública?
Bom, o Distopia Hughie, para mim, é um desabafo e uma angústia muito grande a gente entender como é que, neste mundo da inteligência artificial, a minha profissão vai sobreviver, o meu trabalho continuará existindo e como é que a gente lida com a tecnologia, onde ninguém sabe mais o que é verdade e o que é mentira, o que é real e o que é uma coisa fabricada por uma máquina, por uma tecnologia. Onde é que ficam os afetos? Onde é que fica o lugar da imaginação? Onde é que fica o desejo? Isso me angustia muito como artista. Uma das soluções que eu entendo é que não adianta você fugir de uma coisa que é inevitável. Você vê uma maré, não adianta se debater, você tem que saber nadar. Então, eu acho que a gente tem que aprender a lidar com tudo isso. E para que isso seja uma ferramenta a mais para que a gente tenha controle da nossa profissão. Ou algum controle. Em O avarento, eu estou falando sobre etarismo, sobre terceira idade, sobre pulsão sexual na terceira idade. Eu estou falando sobre circuito econômico. O avarento, ele reúne tudo isso. Então, é muito... Um texto da mulher é um clássico. E a gente vai trabalhar com uma linguagem bastante diferente, se tratando de um clássico. A gente traz... Não é que a gente vai modernizar o texto, mas a gente levanta aspectos do texto que são interessantes para este momento. Com foco, com luz nesse lugar. Não é um velho ridículo. É um velho que, pela força do dinheiro, ele ainda, e por uma potência física, ele ainda pode ser um velho desejado, independente do dinheiro que ele tem. Mas isso é uma somatória. Enfim, é um pouco o que vive a nossa sociedade.
Você afirma que agora quer “inspirar”. O que significa, na prática, assumir esse lugar de inspiração para outras gerações?
Quando eu digo inspirar, é justamente por um processo terapêutico, porque eu faço terapia há bastante tempo, por um processo terapêutico eu comecei a entender que o percurso que eu fiz de vida pode ser útil para outras pessoas, pode servir para alguma coisa, para alguém. Quando eu falo, às vezes, da arte, eu acabo de fazer um espetáculo, estou com um espetáculo de bolso, que chama Noel Rosa, malandro e erudito, que a gente conversa sobre isso, do trânsito social através da arte, através do samba. O Noel era um homem de classe média, morreu muito jovem, mas ele transitava da malandragem a essa classe média, essa classe burguesa, através do samba, que foi crime até 1945, se eu não digo besteira, mas ele fazia esse trânsito através da arte e da cultura. Então, isso foi uma coisa que aconteceu comigo, eu vivi na prática. Eu venho de uma classe média baixa, aliás, uma classe pobre, na verdade, e se não fosse a cultura, não teria tido as várias possibilidades que eu tive na vida. Então, eu acho que isso é um ponto bacana para que as pessoas entendam que eu tive praticamente a minha vida misturada com o meu trabalho, com a minha arte, não me entendo e não me percebo em outro lugar e como outra pessoa, eu não teria existido. Então, eu acho que a arte é, sim, um lugar onde as pessoas ainda podem ter um conforto e uma possibilidade de existência mais interessante.
Ao compartilhar sua jornada com tanta abertura, você também se depara com as vulnerabilidades e medos dos outros. Como essa troca tem impactado você pessoalmente?

Pois é, às vezes eu recebo retorno das pessoas quase falando particularidades delas, falando coisas pessoais, falando angústias pessoais, e eu não tenho resposta para dar para ninguém. A única resposta que eu posso dar é que é continuar a pensar, continuar a existir, continuar a resistir. Isso, às vezes, me impacta muito, porque às vezes vem coisas emocionantes, muito emocionantes, que mexem comigo e dão vontade de abraçar a pessoa, e eu tento fazer isso sempre neste retorno, quando eu escrevo para a pessoa, quando eu falo com a pessoa, eu leio os comentários e quando eu acho necessário e acho importante, eu tento dar um feedback para a pessoa dentro da minha experiência. Eu não sou terapeuta ainda, eu não posso dar um aconselhamento emocional, um aconselhamento espiritual, não sou eu, eu só conto, falo de mim, para a pessoa, eu dou um retorno afetivo para a pessoa, para que ela se sinta amparada, confortada, e fala, olha, tu não está sozinho, as coisas estão difíceis, vai melhorar, calma, enfim, isso é o que eu posso e tento fazer.

Se “existir com plenitude é uma arte”, como você pratica essa arte no seu dia a dia? Existe algum ritual ou pensamento que te âncora?
Parece uma resposta maluca, mas eu tenho cachorro. Eu tenho dois cães. E ter cachorro é uma coisa muito interessante. Eles acordam. Quando você acorda, ele está feliz porque você acordou. Como ele não tivesse te visto durante um mês, ele te acorda e se acorda feliz. Então, isso é uma coisa muito interessante, que não tem tempo quente. Você imediatamente se conecta com alguma coisa que é existir de uma maneira plena. Você só existe. Já é um grande começo. Acho que o maior ritual que tenho é isso. É o... Jean-Jacques Rousseau falava que não existe nada que substitua a sinceridade do olhar do meu cão. Então, isso, para mim, eu levo como uma verdade. E tento viver, porque a arte também tem isso. A arte, às vezes, está na simplicidade. A arte está numa alegria pequena. A arte está em... Como é que você enfrenta as agruras todas, essas tempestades todas, com um olhar fresco para a vida. com um olhar fresco para a vida, com um olhar fresco para a vida
Olhando para os 60 anos recém-completados e para os projetos de 2026, qual é o sentimento que predomina: é mais sobre celebrar uma trajetória ou sobre a energia do que ainda está por vir?
Olha, o sentimento que me toma neste completar 62 anos, na verdade, eu tenho, é que, impressionantemente, as coisas têm caminhado muito lentamente e repetitivamente dentro da questão quando você quer produzir cultura no país. A gente conseguiu algumas melhoras, mas é sempre uma guerrilha. Eu tenho esses dois projetos e a função é essa. Primeiro, você tem a guerrilha de realizar o projeto. Não é fácil realizar um projeto no Brasil, não é fácil produzir no Brasil, principalmente quando você não está no mainstream. Então, quando você quer produzir e realizar uma coisa que não é exatamente o que o mercado almeja, ou o grande mercado de consumo almeja, que é um entretenimento e diversão imediata, sem consequência, então isso fica mais difícil. Então, aos 62 anos, a pulsão que eu tenho é de levantar e batalhar. Porque não, para quem faz uma determinada levada, tem uma determinada pulsão no país, não é fácil.

Em um de seus textos, você diz: “Percebi que as perguntas que eu levava para a análise eram perguntas que muita gente fazia, mas não tinha com quem falar.” Das muitas perguntas que você já fez a si mesmo, qual foi a mais difícil de formular e, talvez, de responder?
Eu acho que a pergunta sempre mais difícil, e ela é recorrente, é como você lidar com alguma perda. A perda de um amor, a perda de uma vida, a perda de um amigo, a perda de uma relação. Como é que você elabora esse desligamento, e um dia a perda de você mesmo, o desligamento de você mesmo, a tua morte, a tua finitude. Eu acho que essa é a coisa nos 60 anos que eu acho que eu tenho mais me indagado. Nessa trajetória, já aconteceram muitos desligamentos, muitos nascimentos também, mas muitos desligamentos. E isso te leva a pensar no teu próprio desligamento. Às vezes você dá uma paradinha para pensar e fala, o relógio começa a ocorrer ao contrário. Isso já foi até um quadrinho do Divã. Porque você se dá conta que o relógio começa a correr ao contrário. Você não sabe, mas depois de um determinado período, de uma determinada idade, quantos anos você terá. Se você tiver a longevidade de uma Fernanda Montenegro, de um Othon Bastos, com a energia e a potência de trabalhar até os 90 anos, você não sabe como o teu corpo vai corresponder. Você trabalha para que o teu corpo reaja bem, para que o teu cérebro reaja bem, para que você seja uma pessoa produtiva. Ou você não sabe se o seu desligamento vai ser imediato. Se você tem mais 15, 20, 10, 5, 2, 1 semana. Você não sabe mais. Você começa a pensar nisso. E isso, para mim, tem dado uma vontade muito grande de estar vivo. Mas não por medo. Por desfrutar. Eu não tenho medo da morte. Eu acho que a pergunta que fica é que eu acho que eu não consigo me livrar dessa pergunta. E aí, será que era só isso? Enfim, esta é uma coisa. E depois, será que era só isso mesmo? Veremos ou não.
Você fez poucas novelas e sua última participação em uma foi entre 2017 e 2018. O que faz com que não esteja mais presente no gênero?
A última obra de teledramaturgia que eu fiz foi Independências, do Luiz Fernando Carvalho. Eu acho que estamos em 2026, acho que foi em 2024. Foi a última obra de teledramaturgia bastante arrojada, bem experimental, como é do perfil do Luiz Fernando Carvalho, feito pela TV Cultura. Olha, não sei, essa é uma pergunta que você tem que perguntar para quem faz os elencos e para quem produz e para quem contrata. Eu não sei a resposta.

 


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