Entrevista

'Há mais segurança e diversidade para gerações atuais', avalia produtor LGBT

Celebrando 40 anos de idade e 22 de atuação na cena LGBTQIAPN+ brasiliense, o produtor e empresário Ricardo Lucas afirma, em entrevista: "Com o passar dos anos e o avanço de direitos, as pessoas foram se sentindo totalmente seguras nesses ambientes"

A noite brasiliense se prepara para uma celebração dupla neste sábado (31/1). O Festival de Verão com Silva, fruto da parceria entre a Nova Birosca e o Lah no Bar, vai além da música: marca também os 40 anos de vida e mais de 20 de carreira de Ricardo Lucas, um dos nomes mais influentes na produção e curadoria de experiências culturais da capital.

Empresário e produtor, Ricardo Lucas é um arquiteto de memórias afetivas. Sua trajetória é um mapa afetivo da noite, passando por endereços icônicos que definiram gerações: da extinta Boate Garagem, onde iniciou, ao Glow Lounge Bar, da Blue Space Brasília à lendária Victoria Haus — projeto que comandou por 12 anos no SAAN e se tornou um marco, redefinindo a relação entre público, música e ocupação urbana. "Para muitas pessoas, o clube não era apenas um lugar de lazer, mas a única possibilidade de existência", relembra. "O clubismo representou, para essas gerações, um espaço de pertencimento, de reconhecimento, de ir pela primeira vez a uma boate e se ver ali refletido."

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Em entrevista, Ricardo Lucas reflete sobre a estrada percorrida: "Com o passar dos anos e o avanço de direitos, foi fazendo cada vez mais sentido que as pessoas se sentissem totalmente seguras nesses ambientes".

Entrevista | Ricardo Lucas

Você acompanhou a noite desde a época da Boate Garagem, passando pela consolidação da Victoria Haus. Qual foi a maior mudança na forma como o público LGBTQIAPN+ brasiliense ocupa a cidade?

Quando tudo isso começou pra mim, há cerca de 22 anos, quando eu tinha 18, um espaço como a Boate Garagem era, essencialmente, um gueto. Existia uma lógica de proteção muito clara: restrição ao uso de câmeras fotográficas, diferença de valor de entrada entre homens e mulheres, porque boa parte da comunidade que frequentava esses espaços ainda não era assumida. Com o passar dos anos e o avanço de direitos, foi fazendo cada vez mais sentido que as pessoas se sentissem totalmente seguras nesses ambientes. Esses espaços passaram a gerar elos muito importantes de comunidade e convivência. Para muitas pessoas, o clube não era apenas um lugar de lazer, mas a única possibilidade de existência. Havia quem não pudesse ser assumido no trabalho, em casa ou nas relações familiares. O clubismo representou, para essas gerações, um espaço de pertencimento, de reconhecimento, de ir pela primeira vez a uma boate e se ver ali refletido. Hoje, com mais direitos conquistados, os ambientes se tornaram mais fluidos, com diferentes formatos, shows e propostas. As gerações atuais conseguem transitar com mais segurança e diversidade pela cidade.

Brasília é conhecida por seu urbanismo setorizado. Como casas como a Blue Space e a Victoria Haus conseguiram criar um senso de comunidade em áreas tão distintas como o SOF Sul e o SAAN?

O Distrito Federal é muito grande e tem uma locomoção difícil. Escolher locais como o SOF Sul e o SAAN foi extremamente estratégico, principalmente por estarem em áreas mais isoladas. Isso traz uma segurança importante: a certeza de que você não está incomodando ninguém. Até hoje, muitos espaços enfrentam dificuldades para funcionar por conta da intolerância ao ruído e ao barulho, algo muito diferente de outras cidades do Brasil. Esses endereços permitiram que as casas se estruturassem, crescessem e criassem uma comunidade sólida, sem esse tipo de conflito constante.

A juventude atual parece buscar “curadoria de experiências” e ambientes mais instagramáveis — como a famosa escada do Lah no Bar. O que é mais importante hoje: o line-up de DJs ou a estética do local?

As pessoas são muito atraídas pelo novo, pela novidade, mas também pela constância. Saber como um lugar funciona, que tipo de público frequenta, que tipo de música toca. Isso transforma aquele espaço em uma opção segura e agradável. Eu faço isso há muito tempo, com casas que abrem todo fim de semana e, hoje, com o Lah que abre todos os dias. A constância é fundamental para alcançar públicos diversos. Sempre busquei diversidade nos meus projetos — de faixa etária, de gênero, de sonoridade. Quando você trabalha estrategicamente com mais de um ambiente, diferentes horários e propostas, consegue congregar públicos que normalmente não frequentariam os mesmos espaços. Em muitas cidades do mundo, as pessoas acabam se fechando em tribos que não se encontram. Tudo o que fiz ao longo da minha trajetória, cocriando com tantas pessoas importantes da cidade, tem essa característica: promover diversidade de propostas e de públicos.

O Dia da Visibilidade Trans é um marco de luta por dignidade e direitos. Como empresário, como você enxerga a responsabilidade das casas noturnas na empregabilidade e segurança de pessoas trans e travestis?

A visibilidade trans é um tema muito caro pra mim. Ao longo dos anos, sempre estive muito atuante na empregabilidade de pessoas trans, oferecendo treinamento e oportunidades, seja nas equipes de apoio, nas equipes artísticas ou em cargos gerenciais e de destaque. É fundamental educar sobre o uso de banheiros, o respeito ao prenome e ao gênero, e os direitos e segurança dessas pessoas. Sempre tivemos parcerias muito importantes nesse sentido, porque esse é também um lado meu dentro do ativismo. As casas noturnas têm, sim, uma responsabilidade direta na construção de ambientes seguros, respeitosos e inclusivos.

Suas produções já trouxeram ícones como Pabllo Vittar e Gloria Groove. Qual a importância de artistas que desafiam as normas de gênero para a formação da identidade dos jovens trans que frequentam seus espaços?

Essa diversidade de artistas cria a possibilidade de o público se enxergar. De pensar: “Eu quero conhecer esse som”, “Eu poderia ser essa artista”. É um ciclo virtuoso, que se retroalimenta de forma muito saudável. Quando trouxemos a Pabllo Vittar, por exemplo, foi no aniversário do meu sócio na Victoria Haus, o Thales Sabino, numa época em que ela ainda não tinha lançado o primeiro clipe. Tinha apenas alguns covers no YouTube. Ao longo dos anos, lançamos e acompanhamos diversos artistas, sempre com uma curadoria muito atenta. Trabalhar com noite é desafiador porque todo dia tem gente fazendo 18 anos. Enquanto as pessoas discutem gerações — baby boomer, millennials, geração Z —, a realidade é que surgem novos públicos o tempo todo, com gostos diferentes. Se renovar, se manter atualizado e atento a essas transformações é um grande desafio, mas também um talento necessário para quem escolhe viver da noite.

 

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