Cinema

Com raízes em Brasília, profissionais do cinema ganham destaque mundial

Seja pelo reconhecimento com prêmios ou mesmo pela ampla exposição por meio de festivais, profissionais que tiveram a Capital Federal como decisiva na vocação profissional falam dos êxitos no Audiovisual

Imerso na cultura alemã, há 15 anos, morador de Berlim, o coprodutor de cinema Fred Burle traz no currículo o extenso  impacto internacional de O agente secreto. "Sinto-me bem integrado à Alemanha, diria que entendo bem a cultura, mas não quero nunca deixar de sentir-me brasileiro", conta ele, ao Correio, tratando do retorno às raízes propiciado pelo filme candidato a quatro prêmios Oscar. Mineiro de Pirapora, Fred tem lastro de formação candanga, com diploma de arquivista pela Universidade de Brasília e vasto background no Cine Brasília e ainda na Academia de Tênis. Fred puxa o bloco de profissionais do segmento do audiovisual brasilienses que se destacam no exterior, numa lista que inclui nomes como a editora Flávia de Souza e a cineasta Janaína Marques.

"Eu, que já fiz pesquisas de arquivo em ambientes bem parecidos com os que aparecem no filme O agente secreto, fiquei muito alegre em participar de uma produção cujo tema central é a memória (e/ou a falta dela). Me deu orgulho pela profissão de arquivista", reforça Fred. O endosso de raízes brasilienses desponta ainda no currículo da carioca (de formação) Flávia de Souza, editora recém-premiada pelo Festival de Sundance, há 32 anos inserida na sociedade de Nova York, mas que nunca esquece os laços com a capital em que mora a mãe e na qual trabalhou como fotógrafa.

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"Minha conexão com o abstrato e com a utopia vem das minhas próprias vivências", conta ainda, em entrevista ao Correio, a diretora Janaína Marques, à frente da produção cearense Fiz um foguete imaginando que você vinha — título que mobilizou a atenção dos espectadores do Festival de Berlim, em mais um exemplo do alcance da semente do cinema em profissionais agora reconhecidos pelo mundo.

Entrevista // Fred Burle, coprodutor de O agente secreto

Você foi um coprodutor muito ligado à criatividade de O agente secreto, pela One Two Films, ou se limitou ao financiamento?

A contribuição criativa de um coprodutor varia de projeto a projeto e depende muito do estágio em que entramos para o projeto. No caso de O agente secreto, tive as primeiras conversas com a Emilie (Lesclaux, produtora principal do filme) pouco tempo antes de a equipe brasileira iniciar a preparação das filmagens. Ou seja, o roteiro já estava finalizado. Então, a contribuição criativa foi um pouco menor do que em outros projetos, dessa vez mais concentrada durante a edição e o restante da pós-produção, quando fizemos, entre outras partes, a correção de cor do filme em Berlim. Trocamos ideias também sobre trailer, poster, etc, e também sobre questões estratégicas de posicionamento do filme em festivais, data de estreia no cinema (decidimos lançar o filme na Alemanha na mesma data que o Brasil, para possibilitar o diálogo da comunidade brasileira com seus amigos e familiares à distância). Contamos com o apoio importante dos festivais de Hamburgo, que também fez uma pequena retrospectiva de Kleber (Mendonça Filho, o diretor); o festival de Colônia, que o celebrou com o prêmio do Hollywood Reporter, juntamente com o diretor alemão Werner Herzog; trouxemos Kleber para outra pré-estreia em Berlim. Eu mesmo fiz uma pequena turnê em algumas cidades alemãs e a recepção foi muito positiva e curiosa, tanto pela comunidade brasileira, quanto pelo público alemão.

Algo te liga ao Jose Carlos Burle (cineasta e compositor)? Acho incrível, ele tratar de frevo (presente em O agente...) e cafezal (ainda que, em O agente, despontem canaviais); numa similitude...

O que sempre escutei é que só existe uma linhagem da família Burle no mundo, que iniciou-se na França e chegou ao Brasil por Recife, espalhando-se, mais tarde, para o Rio, Minas, Brasília. Então, sim, existe algum parentesco com o José Carlos Burle, mas não sei te dizer o grau. Engraçado que eu sempre achei que só havia um famoso na família, o Carlos Burle, surfista (também de Recife), que entrou para o Guiness Book por surfar a maior onda do mundo. Foi só mais tarde, quando estudei História do Cinema Brasileiro na UnB, é que tive a boa descoberta do José Carlos Burle e de seus filmes. 

Quais as estratégias de trazer visibilidade em Los Angeles e entre votantes da Academia?

As estratégias em Los Angeles ficam a cargo da distribuidora estadunidense, a Neon. Mas não é muito diferente do que fazemos na Alemanha e Europa. Por incrível que pareça, os membros da Academia, em sua maioria, assistem poucos filmes. Então, o objetivo é chamar a atenção para o filme, convidar as pessoas para o assistirem, conversar sobre o filme. Berlim é uma das cidades europeias com maior número de membros da Academia (cerca de 150), uma porcentagem pequena em relação aos mais de 10 mil votantes, mas que pode contribuir bastante em anos de competição tão acirrada como este.

Me fale da sua formatação como crítico e da fortuna crítica gerada na Academia de Tênis e no Cine Brasília?

Eu sempre quis fazer cinema e primeira forma que encontrei de fomentar essa paixão, foi escrevendo sobre filmes. Foi na Academia de Tênis que participei do meu primeiro festival como crítico, no Festival Internacional de Cinema de Brasília. Dois anos depois, tive meu primeiro curta-metragem, rodado em mini-dv com estudantes da UnB, exibido nesse festival. Um curta bem amador, mas aquela oportunidade me fez acreditar que eu podia, sim, seguir essa carreira. Também foi ali que descobri o cinema independente, que é o cinema que eu faço hoje em dia. Nunca esquecerei de quando assisti Réquiem para um sonho, do Aronofsky, e E sua mãe também, do Iñárritu, ali. Também frequentava muito o Cine Brasília, uma sala tão incrível, que até mantém a tradição do cinema de bairro e a preços populares, tão importante para o contato do grande público com o cinema. Minha sessão mais inesquecível ali foi do Chega de saudade, da Laís Bodansky, durante o Festival de Brasília. Era inimaginável que eu, um dia, me tornaria amigo dela, uma diretora tão maravilhosa e uma pessoa tão importante para o nosso cenário.

Como vê Karim Aïnouz internacional, em Berlim? Aliás, você e ele integrados pelos estudos na UnB... O que significou a Universidade na tua trilha, e Vladimir Carvalho teve muita influência?

Eu adoro Karim! Engraçado que nenhum de nós estudou cinema na UnB. Ele estudou arquitetura, eu estudei arquivologia (apesar de ter feito várias disciplinas do audiovisual como optativas). Ele mudou-se para Berlim pouco mais de um ano antes de mim, mas já com o reconhecimento pelos seus primeiros filmes no Brasil. Acredito que ele passou por um processo semelhante ao meu, de tentar aproveitar o melhor que a Europa podia nos oferecer, sem esquecermos nossa cultura e nossa essência. Sempre olhei para ele como uma inspiração de que construir uma carreira internacional seria possível. Hoje, existe um grupo grande de cineastas brasileiros morando e desenvolvendo projetos em Berlim. Tenho certeza de que grande parte deles sejam admiradores de Karim. Eu estou bem curioso para assistir Rosebush pruning, vindo do Festival de Berlim. Agora, Vladimir foi um mestre, talvez o primeiro com quem tive contato. Por ser muito consciente da conservação dos filmes e da memória do cinema brasileiro, ele deu uma aula no curso de Arquivologia e minha mestra e professora Miriam Manini nos apresentou. Ela dizia que eu podia até estudar Arquivologia, mas que meu lugar era no cinema. Vladimir abriu seu acervo particular, o visitei algumas vezes para escrever sobre isso e ele sempre foi tão generoso. Espero muito que a obra dele perdure por muito tempo ainda.

Visão futurista

É com o legado da primeira infância vivida até os sete anos em Brasília, na primeira geração nascida na capital, que a cineasta Janaína Marques (foto), filha de nordestinos (a mãe, do interior piauiense e o pai, baiano), chegou ao Festival de Berlim para apresentar o experimental filme que marca a estreia dela em longas: Fiz um foguete imaginando que você vinha. "Moro no Ceará desde os oito anos: então sinto que pertenço a essa mistura, que considero bem potente. Minha conexão com o abstrato e com a utopia vem das minhas próprias vivências nestes territórios geograficamente distintos e da minha relação com a arte, especialmente com o cinema", conta Janaína, em exclusiva ao Correio.

Divulgação - Lua Arellano e Janaína Marques (atriz e a diretora do longa presente em Berlim)

Muito do que imprime no filme a ser mostrado no segmento Fórum de Berlim veio como estudante de cinema na Eictv (Cuba), até 2009. Verônica Cavalcanti e Luciana Souza (de Bacurau e da novela Coração acelerado) estrelam Fiz um foguete imaginando que você vinha, que tem roteiro de Taís Monteiro, Pedro Cândido, da cubana Xenia Rivery e do mexicano Pablo Arellano. "O que me move, com a obra, é o desejo de viver, mas viver com liberdade", conta, sobre o filme como contorno queer e no qual Rosa investe num mergulho, repleto de realismo mágico, permeado pela infância e pelo lúdico, ao lado da mãe. "Sou uma mulher cis, em uma relação heterossexual, então não falo a partir da vivência direta. Minha proximidade vem da escuta, da convivência e do desejo de compreender. Como mãe de uma adolescente, quero que ela possa amar livremente, sem os silêncios e limitações que marcaram a minha geração. Isso me coloca em constante aprendizado", comenta a cineasta.

Quinze anos depois do curta Los minutos, las horas (selecionado para o Festival de Cannes), Janaína, premiada em Clermont-Ferrand, Biarritz, Havana, San Sebastián e Bilbao, já aposta no longa de animação Os olhos do caranguejo, em coprodução do Chile e da Espanha. De mais concreta está a vibração com Fiz um foguete... "A essência do filme é o desejo de liberdade, de pensamento, de afeto, de corpo. Não se trata de uma obra que busca a reivindicação direta de representatividade queer, mas de um filme que se constrói a partir da afirmação, da escuta e do afeto. Nossa protagonista cria um espaço onde os corpos podem existir sem ter que pedir permissão ", conclui.

Atrelada ao Brasil

Recentemente premiada no Festival de Sundance, a editora Flávia de Souza tem celebrado com entusiasmo a atenção internacional que o cinema nacional tem recebido. "Gostei muito de O agente secreto e do Ainda estou aqui. Em Nova York, vou a todos os eventos que posso relacionados ao Brasil. Quando saí daí, nos anos 1990, não existiu uma fase muito prolífica para o cinema nacional por questões políticas, econômicas. Talvez, se o nosso cinema tivesse a força que tem agora, eu não teria vindo e ficado nos Estados Unidos", comenta em entrevista ao Correio.

Reprodução/ Internet - A editora de filmes Flávia de Souza

Chegada a Nova York aos 23 anos, ela fez mestrado na School of Visual Arts, unindo fotografia e mídia. Foi o encanto com o fotojornalismo que injetou o pendor para o ramo documental. "Ainda assim, tendo crescido no Rio, vejo ser impossível perder as raízes: tento ir, uma vez por ano, por família e amigos, para Brasília e para o Rio. O negócio é que nunca trabalhei com cinema no Brasil. Cursei desenho industrial num braço da Uerj. Trabalhei um pouco como fotógrafa, em Brasília, assim, a constituição do meu olhar talvez tenha sido afetada pelo pela luz e pelos espaços da capital. Foi depois da graduação, quando minha mãe (Maria Carmen de Souza, ex-diretora do Teatro Goldoni) se mudou para Brasília, que aí, em busca de definições. Adorei morar aí, gostei muito da natureza e da parte urbana. Gostei muito do Planalto Central, do céu amplo e da arquitetura do meio do século 20, que eu sempre adorei. Volto, às vezes, para visitar minha mãe e a cidade", conta a montadora.

 


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Reprodução/ Internet - A editora de filmes Flávia de Souza
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