
No palco do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o filme A Voz de Hind Rajab, da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, foi anunciado como o “longa mais valioso” da edição. O que era para ser a celebração de um prêmio, no entanto, acabou se transformando em um gesto político. A cineasta rejeitou a homenagem em protesto contra o que classificou como omissão do festival diante da guerra na Faixa de Gaza.
Ao explicar sua decisão, Hania afirmou que não poderia aceitar qualquer reconhecimento enquanto as mortes retratadas na obra não forem acompanhadas de responsabilização. “Recuso-me a permitir que suas mortes se tornem pano de fundo para um discurso educado sobre a paz; não enquanto as estruturas que as possibilitaram permanecerem intactas”, declarou.
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Juntamente de Hania, mais de 80 profissionais do cinema assinaram uma carta pedindo que o festival se posicione oficialmente sobre o conflito, lembrando que a Berlinale já se manifestou publicamente em crises como as do Irã e da Ucrânia. Em contraponto, vozes influentes defendem que a arte deve manter distância da política. O presidente do júri deste ano, o cineasta alemão Wim Wenders, afirmou que o cinema deveria ser “o oposto da política”, declaração que provocou forte reação entre realizadores que consideram impossível separar criação artística e posicionamento social.
O longa reconstitui a história de Hind Rajab, menina palestina de seis anos assassinada em Gaza pelas forças israelenses, junto a seis familiares e aos paramédicos que tentaram socorrê-los. A produção incorpora o áudio real da criança antes de sua morte, recurso que intensifica o impacto emocional da narrativa.
“A essência deste filme é algo muito simples e muito difícil de conviver. Não consigo aceitar um mundo onde uma criança clama por socorro e ninguém vem. Essa dor, esse fracasso, pertence a todos nós”, explicou Hania. “Esta história não é apenas sobre Gaza. Ela fala de uma dor universal. Acredito que a ficção (especialmente quando se baseia em eventos reais, dolorosos e verificados) é a ferramenta mais poderosa do cinema. Mais poderosa do que o barulho das notícias de última hora ou o esquecimento da rolagem da tela. O cinema pode preservar uma memória. O cinema pode resistir à amnésia”.
Após a exibição em Berlim, o filme também foi requisitado por festivais em Toronto, San Sebastian, Busan e Londres neste outono, ampliando seu alcance internacional. A repercussão atravessou o circuito europeu e mobilizou nomes de peso em Hollywood. Brad Pitt liderou um grupo de artistas que ajudaram a financiar a produção. Sua produtora, a Plan B Entertainment, aparece nos créditos finais. Também colaboraram financeiramente com o projeto Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Alfonso Cuarón e Jonathan Glazer, que decidiram apoiar o longa após assistirem a um corte recente e se impressionarem com o resultado na tela.

Diversão e Arte
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