Crítica

Uma pista de dança aberta para o risco: confira 'Sirât', candidato ao Oscar

Concorrente aos Oscar de melhor filme internacional, 'Sirât' trata das lacunas de um possível reencontro entre familiares ligados pelas trilhas de festas rave

Crítica // Sirât ★★★★

Uma forte consciência da materialidade do som, numa paisagem em que a consistência visual cede espaço para o alcance de uma sensibilidade apoiada por camadas sonoras: tudo isso habita o drama Sirât, filme na disputa no Oscar, destacado na categoria de longa internacional. Publicamente, o diretor do filme Oliver Laxe acentuou o vínculo da sinopse com a chamada tanatofobia, o tal medo da morte ou do processo do fim da vida. Vulneráveis, personagens tentam se reconectar com um passado que parece ter diluído, e que, aparentemente, pouco diz respeito ao presente deles. Filmada ao sul do Marrocos, numa jornada Saara adentro, a produção reafirma o cinema de Laxe como explorador de rincões diferenciados como antes registrado no cinema em que captou imagens da Serra dos Ancares e da cordilheira do Atlas.

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Caminhões, carros, caminhonetes e um deserto a ser vencido. Não bastaria um grupo com alma gitana para dimensionar as barreiras geográficas a serem vencidas no longa. Alternando fluidez da estrada e a falta dela, os protagonistas são Luis (Sergi López) e o filho dele Esteban (Brúno Nuñez) — ambos empenhados no resgate de Mar (a filha de Luis), sumida há cinco meses na rota das raves distribuídas pelo deserto. Quando o espectador se liberta da familiaridade à la Mad Max de algumas imagens, ele começa a despertar para identidade de Laxe junto ao consagrado Michelangelo Antonioni (morto há quase 20 anos) e que cunhou clássicos como Zabriskie Point (1970), A aventura (1960) e ainda Profissão: Repórter (1975).

Integrados a um comboio, pai e filho tentam ultrapassar as barreiras de um mundo que desconhecem, mas, gradualmente, tal qual em A aventura, o sumiço da personagem Mar vai esmaecendo e por consequência alternando propósitos de Luis e Esteban. Sirât designa a ponte que liga o inferno ao paraíso. Feridas e a vulnerabilidade de pai e filho, forçosamente, serão demarcadas.

Ao lado de completos desconhecidos, entre os quais Josh (Joshua Liam Henderson), Bigui (Richard Bellamy), Stef (Stefania Gadda) e Jade (Jade Oukid), a dupla sai da perspectiva de interagir com formiguinhas, e nota sutilezas e individualidades, avançando num espaço antes percebido como operante para uma massa indiferenciada.

A perdição adquire um sentido amplo e, a cada incerto passo, Luis, em especial, depois de confrontar a realidade de militares e abraçar noções fronteiriças, vai caminhando rumo a uma dolorosa libertação. A visão bastante egoísta se dissolverá e, num rigoroso tempo, vai reaprender a compartilhar e, relutante, perceber um atravessamento inesperado: o da solidariedade.

 

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