CINEMA

"A vida secreta dos meus três homens": reflexão lenta da nossa sociedade

Exibido na Mostra de Tiradentes, filme de Letícia Simões estreia nesta quinta-feira

Cena do filme
Cena do filme "A vida secreta dos meus três homens", de Letícia Simões - (crédito: Gabriel Manes)

Há filmes que investigam o Brasil pela via do arquivo; outros, pela memória íntima. Em A vida secreta dos meus três homens, de Letícia Simões, essas duas trilhas se cruzam como se fossem a mesma estrada. Partindo da evocação de três figuras masculinas, o avô, o pai e o padrinho, a diretora constrói uma fábula histórica que mistura ensaio, documentário e imaginação poética para responder a uma pergunta que parece simples, mas é quase insuportável: como chegamos ao Brasil de hoje?

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Exibido na Mostra de Tiradentes e em festivais internacionais como o Hot Docs e o RIDM, o longa assume desde o princípio sua vocação ensaística. Não se trata de reconstituir fatos friamente, mas de interrogar imagens, silêncios e contradições familiares como quem apalpa uma ferida antiga. Entra em cartaz nesta quinta (5/3), em todo o território nacional.

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Cena do filme "A vida secreta dos meus três homens", de Letícia Simões
Cena do filme "A vida secreta dos meus três homens", de Letícia Simões (foto: Gabriel Manes)

O filme se organiza em três blocos bem definidos, em pouco mais de uma hora e 10 minutos que se dividem entre os retratos de Fernando, Arnaud e Sebastião. Essa estrutura segmentada é ao mesmo tempo virtude e limitação.

No primeiro movimento, emerge a figura do avô envolvido com um grupo de justiceiros. No segundo, o pai boêmio cuja proximidade com a ditadura militar e possível atuação como delator do SNI lança uma sombra moral sobre a genealogia. Por fim, o padrinho: fotógrafo negro e gay em um país estruturalmente racista e homofóbico, atravessado por perdas e silenciamentos. O que une esses três homens, como a própria diretora afirma, é a experiência da violência, ora exercida, ora sofrida, ora internalizada.

O roteiro opta por não oferecer catarse nem julgamento explícito. Em vez disso, aposta na dúvida, na fabulação, na hipótese. A narradora vivida por Nash Laila conduz essa travessia com uma presença que é menos dramática e mais meditativa, quase como se estivéssemos ouvindo um diário sussurrado. Há momentos em que essa escolha aproxima o espectador da intimidade da diretora; em outros, a cadência contemplativa ameaça transformar a experiência em algo excessivamente rarefeito.

Letícia Simões demonstra habilidade no uso de imagens de arquivo, registros em película e sequências animadas que ampliam a dimensão subjetiva do relato. Ao apresentar fotografias antigas, especialmente as feitas por Sebastião, o filme alcança seus momentos mais potentes. A ideia de que a imagem é silenciosa, mas pode ser provocada, tensionada, quase violentada pela pergunta, dá ao longa uma densidade conceitual rara.

Entretanto, essa atmosfera sensorial e investigativa cobra um preço. A narrativa pode parecer enfadonha para quem espera uma progressão dramática mais convencional. Os três blocos, embora claros, funcionam como compartimentos quase autônomos; falta, por vezes, um fluxo mais orgânico que costure as histórias com maior vigor emocional. O filme parece mais interessado em refletir do que em envolver. E essa é uma escolha estética legítima, mas que restringe seu alcance.

As atuações de Guga Patriota, Giordano Castro e Murilo Sampaio não buscam o realismo tradicional. São presenças que orbitam o simbólico, figuras que existem tanto como personagens quanto como espectros históricos. Essa ambiguidade é um dos achados do longa: não estamos diante de biografias, mas de arquétipos de um país atravessado por autoritarismo, masculinidades violentas e silenciamentos estruturais.

A vida secreta dos meus três homens é um filme de revelações. Algumas íntimas, outras coletivas. Ao expor que o avô foi justiceiro, que o pai pode ter sido delator da ditadura e que o padrinho viveu à margem por ser negro e gay, Letícia Simões transforma a árvore genealógica em metáfora nacional. O Brasil, parece dizer o filme, é feito tanto de perpetradores quanto de vítimas e, muitas vezes, os dois coexistem na mesma família.

Não é um filme de grande impacto popular, nem pretende ser. Seu alcance é mais reflexivo. Para espectadores dispostos a aceitar a lentidão como método e a fabulação como ferramenta política, a experiência pode ser profundamente instigante. Para outros, soará excessivamente entediante.

Não chega a ser um novo clássico do cinema ensaístico brasileiro, mas tampouco é uma oportunidade perdida. É um exercício honesto e esteticamente coerente de encarar o passado, mesmo quando ele devolve o olhar com desconforto.

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postado em 03/03/2026 16:48
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