
Erika Januza pede desculpas pelo áudio longo, mas está no intervalo das gravações e quer responder a entrevista com calma. Aos 40 anos recém-completados, a atriz vive o que chama de "uma virada" na carreira e na vida pessoal. Está no ar em Dona Beja, na HBO Max, como Candinha, personagem que tem a reputação destruída publicamente e encontra no prostíbulo não apenas sobrevivência, mas uma forma de reconstrução.
Grava como Niara, rainha africana do reino fictício de Batanga em A nobreza do amor, novela das seis da TV Globo que estreia nesta segunda-feira (16/3), em que dá vida à mãe da protagonista Arika, interpretada por Duda Santos. Também podendo ser vista em Arcanjo Renegado, no Globoplay, e no Disney com A magia de Aruna, Erika ainda assumiu, em 2025, a apresentação do Saia Justa, no GNT, e se despediu do posto de rainha de bateria da Unidos do Viradouro após quatro anos de avenida. "Estou vivendo muitas coisas ao mesmo tempo", começa ela, aos risos, tentando organizar os pensamentos.
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Sotaque à mostra
Mineira de Contagem, Erika encontrou em Dona Beja uma oportunidade rara: poder usar o sotaque sem se preocupar em escondê-lo. "Adoro quando posso deixar minha mineirice solta. Não forcei, mas pude falar como eu falo, que todo mundo fala que meu sotaque ainda é supervivo." A novela, ambientada no século 19 em Minas Gerais trouxe, também, a chance de revisitar as cidades históricas que tanto ama, como Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina, e de se conectar com uma história que, apesar de ambientada no passado, ecoa fortemente no presente.
"Candinha foi injustiçada pelo fato de ser mulher, uma mulher negra e pobre, arrastada em praça pública, sem direito de defesa, sem direito de prosperar e ainda assim lutando para sobreviver, como dá. Depois de tanta violência, um assunto que é de novela de época, mas tão atual. Todo dia, inclusive ontem, anteontem, mais uma notícia de violência contra a mulher e abuso. Minha personagem também foi estuprada ali naquelas condições", disserta a atriz.
Simbolismo na nobreza
Se em Dona Beja a personagem enfrenta o preconceito e a marginalização, em A nobreza do amor o caminho é inverso. Niara é uma rainha, e isso, para Erika, carrega um significado profundo. "É um contraponto muito grande com Niara, que é uma rainha, tendo a oportunidade de contar uma África que a gente não tem a chance de ver na televisão. A gente não está contando dilemas de racismo, a gente está contando um dilema de um reino, uma luta pelo poder ali", celebra.
Na novela, Erika interpreta a mãe de Duda Santos, que tem 23. A atriz recebeu a questão com naturalidade e uma reflexão sobre o tempo e a maternidade: "O jeito de envelhecer mudou muito. Uma mulher de 40 anos, hoje, é completamente diferente do que a gente via e pensava há anos atrás". Ela aproveita para falar sobre a própria relação com a maternidade, ainda não vivida, mas presente na ficção. "Ser mãe de uma adulta é você saber que é um ser humano que está formado, que tem opiniões e livre vontade de fazer e acontecer. Você tem que observar, mas não se esquecendo que é mãe, que quando precisar tem que puxar a orelha e tem que respeitar, independente da idade do filho, porque mãe é mãe", disserta.
Personagens que denunciam
A trajetória de Erika na televisão é marcada por personagens que abordam feridas sociais. Em O outro lado do paraíso (2017), era uma quilombola que se torna juíza. Em Verdades secretas 2, em 2021, viveu uma modelo destruída pela pressão estética. Em Arcanjo renegado, é uma policial enfrentando o feminicídio. A atriz reconhece o padrão e o abraça: "Todas as minhas personagens, de alguma forma, me deram esse presente de poder discutir assuntos. Eu gosto muito de personagens que dão a oportunidade de fazer denúncias, de contar histórias que, ao mesmo tempo, fazem as pessoas pensar".
A chegada ao Saia justa, em 2025, veio em um momento de muitas mudanças: a saída da Viradouro após quatro anos como rainha de bateria, os 40 anos, a mudança de casa, transformações no relacionamento. "Quando eu saí da Viradouro, fiquei com aquela lacuna, porque estava há quatro anos me dedicando, sendo muito feliz. Porque eu amo o carnaval mesmo. Me dediquei. Saio com a missão cumprida", garante.
O convite para o programa surgiu depois de uma participação sua no especial Rainhas, também do GNT. "Eu me lembro que quando recebi o convite para o Saia justa, eu ouvi: 'A gente gostou muito do trabalho que você fez no Rainhas'. E fiquei muito feliz, porque o Rainhas foi um projeto muito de coração. Mas o Saia eu tive um pouco de medo, porque eu falei: 'Ai, meu Deus, é emitir minhas opiniões. O que as pessoas vão pensar do como eu penso?'", reconhece.
O medo deu lugar a uma entrega genuína. "Eu tento ser o mais transparente possível. Realmente digo o que estou sentindo. Pode ser que nem todo mundo concorde, mas eu tenho sido muito verdadeira com as coisas que falo ali e penso. Quando não entendo, não entendo; quando não sei, não sei. E quando é alguma vivência, gosto de compartilhar, não porque minha vivência seja melhor que a dos outros, mas é minha vivência, que talvez possa conectar com alguém", defende.
Altos e baixos, sem desistir
Olhando para trás, Erika lembra de quando estreou como protagonista em Suburbia, em 2012, e do medo de que o trabalho fosse um ponto fora da curva. "Quando saí do meu trabalho como secretária da escola, falei com a minha ex-patroa: 'Quando acabar o mundo, eu posso voltar?' Porque eu não sabia se mais alguém ia me dar oportunidade. Era meu primeiro trabalho como atriz na vida, e eu não sabia o que me esperava, se ia dar certo, se não ia", recorda-se.
A carreira que veio depois, com altos e baixos, consolidou uma característica que Erika reconhece em si mesma desde os tempos de concurso de beleza em Contagem: a insistência. "Por muitos anos, eu participava de concurso de beleza em Contagem e recebia não, e dava errado, e tentava e tentava e dava errado, eu nunca desistia. Eu ia aqui, ia ali, todo mundo olhava para mim e falava: 'Cara, está dando tudo errado, já chega'. E eu não desistia, sempre fui muito insistente", avisa a atriz.
Hoje, aos 40, Erika Januza segue insistindo. Entre uma personagem de época e outra, entre o palco do Saia Justa e a avenida, entre a timidez e a exposição, ela tenta se manter fiel a uma máxima simples. "A Érika, no mundo, vai dançando conforme a música, mas nunca sem perder quem eu sou e de onde eu vim, que é muito importante. Muita gente se perde, muita gente acha que é melhor que os outros, que pode maltratar os outros por causa de posições, cargos, lugares que ocupa. Isso me irrita muito. Então é uma coisa que tento e pratico muito, nem é muito esforço para mim, mas pratico e peço a Deus para que eu nunca seja essas pessoas que acham que são melhores que os outros por qualquer motivo que seja", finaliza.

Diversão e Arte
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