ROCK

Rush se prepara para fazer história em Brasília

A banda canadense de rock apresenta show em 4 de fevereiro de 2027 na Arena Mané Garrincha. Os ingressos já estão à venda

Um show do Rush sempre foi um acontecimento. Mas um show do Rush depois da semi-aposentadoria de Geddy Lee e Alex Lifeson, e com uma baterista no trono em que sentou-se um ícone do instrumento — a alemã Anika Nilles corajosamente substitui Neil Peart e se submete a comparações injustas por puro preconceito de gênero —, é bem mais do que um acontecimento. Tem tudo para ser histórico.

Quando Lee e Lifeson anunciaram a volta, em 2025, a primeira pergunta foi: quem substitui Peart? Nomes óbvios foram citados: de Mike Portnoy a Mike Mangini (ambos do Dream Theater), todos confessadamente influenciados pelo mestre canadense. A escolha de Anika surpreendeu. Líder do grupo fusion alemão Nevell, o ápice da alemã  foi com Jeff Beck, conhecido por colocar o sarrafo no alto quando se tratava de formar combos. Na banda do gênio inglês das seis cordas, Anika seguiu uma linhagem que tem, entre outros, Simon Phillips, Narada Michael Walden, Vinnie Colaiutta, Carmine Appice e Richard Bailey.

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Lee e Lifeson deixaram claro, em entrevistas, que Anika não tocará nota por nota do que foi deixado por Peart. Estará quase tudo lá, mas com espaço para alterações no roteiro. A dupla tem dado a entender que o gostoso é voltar ao palco. E que Anika os deixou à vontade.

Nesta "Fifty Something Tour", o que menos Lee e Lifeson querem é provar algo. Tanto que Lee deixará os teclados a cargo de Loren Gold e se concentrará no baixo e nos vocais.

De Rush, o disco homônimo de estreia, a Clockwork Angels, o último de estúdio com a participação de Peart, lançado em 2012, a banda teve três formações — contando a atual com Anika — e uma sequência evolutiva coerente.

No primeiro trabalho, com John Rutsey na bateria, o trio fazia um hard rock básico, nervoso e estridente. Mas formidável.

No segundo disco, Fly by Night, o avanço é abissal. Não só por causa da entrada de Peart, mas porque as composições crescem em complexidade. O ótimo Caress of Steel vem a seguir e serve, sobretudo, de pilar para a obra-prima 2112. Aqui, o Rush rompe os padrões com uma suíte de 20 minutos no lado um do vinil. Resultado: eleito o segundo melhor álbum de todos os tempos pelos leitores da revista Rolling Stone.

Um duplo ao vivo (All the World's a Stage) fecha a primeira fase. O Rush aumenta a complexidade das composições em A Farewell to Kings e Hemispheres, e diz: "OK, chegamos ao topo do Everest. Vamos descer".

Permanent Waves, Moving Pictures — outra explosão e cuja entrada de Tom Sawyer serviu de tema para a série McGyver, exibida pela Globo — e Signals são trabalhos mais enxutos. A qualidade? Estupenda.

Há espaço para escorregões — em Grace Under Pressure, a banda emula um The Police turbinado. Power Windows se afasta um pouco, e é bom por isso. Mas Hold Your Fire mostra a parede no fim do beco. A volta é para trás.

Presto, Roll The Bones, Counterparts — agressivamente brilhante —, Test For Echo, Vapor Trails, Snakes and Arrows e Clockwork Angels são a maturidade de um trio que atinge o status de incontestável.

Nesse caminho, há espaço para um excelente disco de versões (Feedback); lançamento de uma marca de cerveja; tragédias pessoais (a morte da filha e da primeira mulher de Peart, além do próprio); confusões de família (Lifeson e o filho se envolveram numa pancadaria num hotel, no réveillon de 2004); e gesto antirracista (fanático por beisebol, Lee doou mais de 400 bolas autografadas por estrelas negras do esporte — que até 1947 eram proibidas de jogar na liga principal, a dos brancos — para um museu em Kansas City).

É isso que os brasilienses terão a oportunidade de testemunhar em 4 de fevereiro de 2027, uma quinta-feira, na Arena Mané Garrincha. Rabisque a data na folhinha para não perder a história.

Uma banda organizada

O Rush é uma banda tão certinha, tão organizadinha, que de quatro em quatro discos de estúdio, lançavam um duplo ao vivo. O primeiro, All The World's a Stage, veio depois de Rush, Fly By Night, Caress of Steel e 2112. O segundo, Exit, Stage Left, resume o material de A Farewell To Kings, Hemispheres, Permanent Waves e Moving Pictures. O terceiro, A Show Of Hands, traz partes de Signals, Grace Under Pressure, Power Windows e Hold Your Fire. Different Stages é o quarto ao vivo — da fase que tem Presto, Roll The Bones, Counterparts e Test For Echo. Essa regra é quebrada com Rush in Rio, de 2003.

Apesar de ser considerada a obra-prima do Rush, 2112 foi uma cartada desesperada. A Mercury Records estava insatisfeita com o desempenho das vendas dos discos anteriores e deixou claro que o trio estava diante do "tudo ou nada" — e o contrato rescindido se desse errado. Quando os executivos da gravadora souberam que o lado um de 2112 seria uma suíte de 20 minutos, quase infartaram. Mas Lee, Lifeson e Peart dobraram a aposta. E ganharam. Apesar da extensão da faixa, tocou muito bem nas rádios e impulsionou o LP nas lojas.

Se Lee e Lifeson nunca demonstraram profunda admiração por músico ou grupo, Peart jamais escondeu que sua influência era o bandleader Buddy Rich. Ao ponto de ter participado de shows de tributo àquele que foi um dos grandes bateristas de jazz. Gravou os álbuns Burnin' For Buddy — Volumes 1 e 2.

Apesar da técnica incontestável, Peart ainda procurou formas de melhorar suas execuções. Já consagrado, foi aluno de Freddy Gruber, que o aprofundou na técnica Moeller — um jeito mais fluido de tocar e que, sobretudo, ajuda a reduzir o cansaço físico em longas turnês.

Até Signals, a dobradinha da banda com o produtor Terry Brown parecia inabalável. Os lados romperam a partir de Grace Under Pressure, em que Peter Henderson assume o controle e faz o único trabalho com Lee, Lifeson e Peart. Brown jamais escondeu a mágoa de a parceria com o trio ter sido desfeita.

Contam-se nos dedos os músicos convidados para um disco do Rush nesses 50 anos de estrada. O ilustrador Hugh Syme tocou piano em Permanent Waves; o violinista Ben Mink participou de Signals e Snakes And Arrows; o tecladista Andy Richards contribuiu em Power Windows e Hold Your Fire; Aimee Mann cantou em Hold Your Fire; o produtor Rupert Hine ajudou nos vocais em Presto e Roll The Bones; o tecladista John Webster somou em Counterparts; e Jason Sniderman colocou piano em uma das faixas de Clockwork Angels. (FG)

 *Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

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