Cinema

Jornal revela o destino final de Armando em O Agente Secreto; entenda

Sem mostrar a cena de forma explícita, o filme de Kleber Mendonça usa um recorte de jornal para expor a morte do personagem vivido por Wagner Moura

*Matéria contém spoilers do filme

No final de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, o público finalmente descobre o destino de Armando, personagem interpretado por Wagner Moura. A revelação, porém, acontece de maneira discreta e carregada de significado. Em vez de mostrar a violência na tela, o filme escolhe um recorte de jornal que aparece rapidamente em cena.

Quem encontra o documento é Flávia, jovem historiadora vivida por Isadora Ruppert. A personagem investiga episódios pouco conhecidos da ditadura militar brasileira e decide ir além das buscas rápidas na internet. Seu mergulho em arquivos antigos acaba revelando o que aconteceu com Armando anos depois de sua tentativa de desaparecer.

O recorte mostra uma reportagem publicada em 1977 no Diário de Pernambuco. A notícia relata que Armando foi encontrado morto a tiros no Recife após ser perseguido. O homem, que tinha 43 anos, vivia sob o nome falso de Marcelo, mas sua identidade verdadeira era Armando de Melo Solimões. Segundo o delegado Marcos Porto, responsável pelo caso, ele era acusado de corrupção e desvio de recursos públicos destinados a pesquisas. Para o delegado, tratava-se de uma típica “queima de arquivo”.

Reprodução - jornal diario de pernambuco

No universo da trama, Armando tentava reconstruir a vida no Nordeste após deixar Brasília. De acordo com dona Sebastiana, administradora do edifício Ofir, interpretada por Tania Maria, onde ocorreu a emboscada, ele havia se mudado para o Recife poucos dias antes. Para ela, Armando era um homem de bem, e a acusação de corrupção não fazia sentido. “Ele veio para cá para começar uma nova vida, perto do filho”, disse, ainda em estado de choque.

O delegado na reportagem também reforça sua versão, afirmando que Armando estava envolvido em crimes graves em Brasília. “Esse aí não valia muita coisa não. Essa história de cidadão do bem não existe. O cabra tava envolvido em coisa feia por lá”, declarou Marcos Porto.

A reportagem também mostra que usando a identidade de Marcelo, Armando havia conseguido emprego como arquivista no Serviço de Identificação da Secretaria de Segurança Pública, no Centro do Recife, logo após o carnaval, como é mostrado no filme. Uma colega de trabalho contou que ele parecia desconfiado, evitava contato com os outros funcionários e, no dia do crime, ficou visivelmente agitado ao perceber que alguém o procurava na recepção, dando indícios de que poderia ser a personagem Elisangela vivida por a triz Geane Albuquerque. 

Antes de viver em Brasília, Armando foi pesquisador do departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Viúvo, tinha um filho de oito anos, Fernando, que morava com os avós maternos na Zona Norte do Recife.

O filme não entrega respostas definitivas. Em vez disso, deixa que o espectador perceba como documentos, memórias e discursos oficiais podem construir versões diferentes sobre um mesmo personagem.

Segundo o próprio Kleber Mendonça Filho em entrevistas, a decisão de não mostrar a morte de forma explícita foi intencional. A intenção era evitar transformar a violência em espetáculo e ao mesmo tempo, reforçar a ideia de que muitas histórias da ditadura permanecem escondidas em registros dispersos.

O recurso do jornal funciona como “símbolo” desse processo. Em poucos segundos de tela, ele mostra o fim de Armando e também sugere o quanto da história brasileira ainda depende de arquivos esquecidos, relatos incompletos e investigações tardias.

À medida que a personagem Flávia tenta reconstruir os acontecimentos, o filme transforma a busca por Armando em uma reflexão sobre como o passado continua vivo nos documentos e nas memórias que resistem ao esquecimento.

*Estagiária sob supervisão de Paulo Leite

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