O pintor e escultor Antonio Poteiro tinha o dom de enxergar a realidade com olhar, ao mesmo tempo, crítico e afetuoso. Ter fé e, ao mesmo tempo, levar para os quadros questionamentos sobre a prática religiosa não era problema. Transformar em cenas alegres pintadas a óleo sobre tela a tristeza que escorria das esculturas também não causava estranheza. Essa combinação é uma das que fizeram a obra do artista goiano conquistar o Brasil, e aparece com propriedade nas 50 obras reunidas na exposição Antônio Poteiro - A luz inaudita do cerrado, que celebra o centenário do artista na Caixa Cultural.
Com curadoria de Marcus Lontra, a exposição reúne duas séries importantes da trajetória do artista, que nasceu em uma família de ceramistas em Portugal, mas radicou-se em Goiás e ganhou de Siron Franco o nome de Poteiro. Considerado um dos artistas naifs — embora muitos historiadores e críticos tenham preferido evitar a denominação pelo tom pejorativo que, às vezes, traz — mais importantes do Brasil, Poteiro morreu em 2010 e deixou uma obra extensa de pinturas e esculturas em cerâmicas.
As duas séries mostradas em Brasília — Via Sacra e uma sobre o Descobrimento e os 500 anos do Brasil — pertencem ao acervo do Instituto Poteiro, tocado pelos filhos e responsável por administrar a obra do artista. "É um conjunto muito bacana, muito forte, de um artista importante para Brasília e um grande nome da arte do Centro-Oeste. De uma série de 18 quadros, cinco se referem a Brasília", avisa Lontra. Para o curador, a obra de Poteiro tem uma ligação profunda com a região, sobretudo quando se trata de opções estruturais. "Ele tem uma identificação de espaço, trabalha com horizontais muito curiosas, que é essa a história que a gente tem em Brasília dessa linha de horizonte plana. Isso é muito presente nele, tem pinturas que ele constrói como se fatiasse na horizontal", explica. Nas esculturas, é possível reconhecer as formas dos cupinzeiros tão presentes nas paisagens do cerrado.
A primeira série selecionada por Lontra é um conjunto de 18 telas grandes sobre os 500 anos do Descobrimento do Brasil. Segundo o curador, Poteiro tirou um ano inteiro para trabalhar apenas sobre essa temática, e desenvolveu toda uma narrativa que se espalha por várias pinturas. O primeiro quadro traz a chegada dos portugueses, o segundo fala sobre a riqueza e, dali pra frente, o país vai sendo espoliado aos poucos, mas também vê a própria identidade ser construída a partir de múltiplas referências. "Tem também coisas muito referenciais dos estados, como, por exemplo, o Maranhão com o bumba meu boi, a Bahia com a capoeira e as religiões de matriz africanas, o Pernambuco com o frevo, o Rio Grande do Sul com a gauchada", avisa Lontra.
Nessa sequência também entra a visão política de Poteiro para o sonho de Brasília. "Ele tem sempre uma espécie de deboche com essa questão do poder, sempre esse caminho sobre o impacto do Centro-Oeste na trajetória dele", explica o curador. Catedral, Congresso Nacional e Brasília retratada como capital da esperança estão nessa série de pinturas.
Em Via Sacra, Poteiro explora um olhar ao mesmo tempo crítico e reverente para com as referências religiosas. "A religião e as festas populares são muito marcantes no trabalho do Poteiro", lembra Lontra. "Ele tem esse clima religioso mais barroco e sofrido dos potes e esculturas e, o que é curioso, na pintura quase não tem sofrimento, mas tem um olhar crítico. É uma religião mais voltada para a festa, uma pintura é mais alegre. Dentro de uma forma naif, é um trabalho muito sofisticado de cor e, principalmente, de interpretação da realidade. A abordagem que ele faz da realidade não é ingênua, é um comentário crítico."
- Antônio Poteiro - A Luz Inaudita do Cerrado
- Visitação até 21 de junho, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural Brasília (SBS Quadra 4, Lotes ¾). Entrada gratuita. Não recomendado para menores de 12 anos
