
Se Marcelo é o protagonista humano de O agente secreto, Recife é personagem principal quando se trata de referências e espaço simbólico. A capital pernambucana é central no filme de Kleber Mendonça Filho, uma escolha deliberada que revela a relação do diretor com a cidade, detalhe presente em praticamente todos os filmes do cineasta. O longa que chega hoje à competição do Oscar é também um convite para mergulhar na cultura pernambucana. As referências estão todas lá: da perna cabeluda à camisa da Pitombeira, nada é por acaso nas cenas de O agente secreto.
O primeiro sinal de que o público está em terras pernambucanas aparece logo no início: é carnaval, e o fusca do protagonista é atacado pela La Ursa, uma figura tradicional da brincadeira no estado. A fantasia com a cabeça de uma ursa é instituição icônica do carnaval nordestino e, pelas ruas, ela sai em busca de uns trocados e avisa: "a la Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro". A
inda na temática carnavalesca, um pequeno detalhe no momento em que o protagonista deixa o Cine São Luiz em meio à folia chamou a atenção de quem conhece bem a festa de rua da capital pernambucana: um grupo de foliões vestidos de garçons carregando bandejas. É uma tradição: quem trabalhou no carnaval brinca quando a festa acaba, na quarta-feira de cinzas.
Outra referência muito conhecida de quem nasceu e cresceu em Recife é a perna cabeluda. A lenda urbana assustou muitas gerações de crianças e nasceu graças a um texto do romancista Raimundo Carrero sobre uma perna encontrada em uma cidade na década de 1970. Carrero era repórter do Diário de Pernambuco e fez a matéria. "Quem cresceu nos anos 1970 morria de medo", conta Cleodon Coelho, jornalista e pesquisador que fez parte da equipe responsável pela reconstituição de época em O agente secreto.
"Essa perna ganhou, com o tempo, ares de lenda. Quando uma matéria era censurada, na época da ditadura, vinha uma matéria da perna cabeluda, que vendia jornal e alimentava a loucura das pessoas". Há décadas os ataques de tubarão fazem parte do cotidiano dos banhos de mar dos recifenses, mas essa particularidade conhecida nacionalmente se junta ao sucesso do filme Tubarão, dirigido por Steven Spielbierg e que chegou aos cinemas em 1975. A obra é uma fixação do filho de Marcelo, o pequeno Fernando.
O Cine São Luiz também faz parte da lista de referências tipicamente recifenses. "É a questão do cinema de rua, que Kleber criou a partir do São Luiz, que está vivo e passa, inclusive, O agente secreto. A paixão dele pelos cinemas de rua do Recife é tão grande que fez disso um personagem do filme", aponta Coelho. Ainda no plano da arquitetura, o edifício Ofir, no qual Marcelo desembarca para viver uns dias escondido com uma turma de perseguidos do regime, não chegou a ser um ícone da cidade antes do filme, mas acabou por tornar-se um ponto turístico. "O Ofir não era como o prédio da Clara, em Aquarius. Ofir é mais numa área central", avisa Coelho, ao lembrar de outro edifício icônico e, aqui sim, protagonista de um longa de Mendonça.
O pesquisador deu suporte à reconstituição de detalhes do filme, uma área em que Mendonça costuma ser minucioso. "Fiz um levantamento de todos os filmes que estavam em cartaz entre abril e março de 1977, da cor do ônibus elétrico naquele ano, porque tem uma cena em que passa o ônibus elétrico. E tinha muita sutileza. Nem tudo aparece, mas tudo foi usado para o público sentir que está naquele universo", garante o pesquisador. O diretor tinha uma lista de referências que queria para o filme, segundo Coelho, e a La Ursa e a perna cabeluda estavam incluídas, mas houve também muitas contribuições da equipe. "É bonito isso do filme não se fechar nele, não se fechar numa ideia, Kleber estava montando e entendeu o que podia montar", aponta.
Uma referência que veio direto de 1977, ano em que o filme se passa, para 2026 foi a camisa do bloco da Pitombeira, usada por Wagner Moura em uma das cenas do filme. Fez tanto sucesso que, este ano, houve fila para comprar a camisa do bloco para o carnaval. A ideia foi da pesquisadora Karina Nobre, que fez parte da equipe de pré-produção de Rita Azevedo, responsável pelos figurinos do longa. Karina mergulhou em centenas de álbuns de família para pesquisar os estilos de vestimentas mais comuns e populares naquele final de década de 1970, mas foi uma foto do próprio pai que a levou direto para o Pitombeira.
"A gente visitou acervos de mais de 40 famílias diferentes para buscar pessoas que tinham afinidade com o personagens", conta a pesquisadora, que também teve acesso a acervos de instituições importantes como a Fundação Joaquim Nabuco e o Museu da Eletricidade. Veio desse trabalho de pré-produção também a camisa da cachaça Pitu, usada pelo personagem do estivador. "Se usava muita camiseta de propaganda, era muito comum. E é uma coisa que você normalmente não vê em filmes de época. É uma coisa muito da vida real, que Kleber lembra muito e queria no filme", conta Karina.
O Ginásio Pernambucano, no qual estudaram nomes como Clarice Lispector e Ariano Suassuna, é outro personagem de O agente secreto. A instituição, que já foi um convento e completou 200 anos em 2025, abriga, no filme, o Instituto de Criminalística, no qual Armando vai trabalhar disfarçado de Marcelo. Esse, sim, é um prédio icônico, que hoje abriga o Museu de História Natural, ainda é um colégio estadual e faz parte da coleção de cartões-postais de Recife.
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