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Rodrigo Garcia compõe personagens vilões com foco na denúncia social

Bandido carismático em "Três Graças", Rodrigo Garcia celebra momento na tevê e defende personagens que delatam a masculinidade tóxica. "Há anos que, por meio desses personagens, eu tento retratar e delatar essas atitudes", afirma

Aos 41 anos, o ator Rodrigo Garcia vive um dos papéis de maior repercussão de sua carreira na novela das 21h da TV Globo, Três Graças. Como o capanga Macedo, ele conquistou o público ao equilibrar a frieza de um assassino com camadas de patetismo e humor, um desafio que, segundo ele, só foi possível graças à troca com os diretores e o colega Murilo Benício, intérprete do chefe, Ferette. "Não quis fazer o tempo todo aquele capanga chato que só faz cena tensa. Foi bom porque acabou que nosso núcleo pediu muito a diversão. A novela quase toda pede", revela o pernambucano.

A construção de Macedo, no entanto, não abriu mão da pesquisa. Antes das gravações, Rodrigo mergulhou no universo dos seguranças particulares pelas redes sociais. "Mais para entender o lado profissional mesmo do personagem, mesmo sendo um trabalho de fachada", explica. Apesar da periculosidade, o roteiro escrito por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva anunciava a veia cômica: "O texto mostrava que Macedo também é patético e que permeia a comédia".

Essa habilidade de transitar entre o trágico e o cômico é uma marca registrada de Rodrigo, que já viveu figuras densas e sombrias, mas sempre buscando uma fresta para a complexidade. Foi assim com o porteiro Elvis, na série Os outros (Globoplay), que ele descreve como uma "válvula de leveza" em meio ao hiper-realismo pesado da trama ao lado de Drica Moraes. E também com o contraventor Baixinho, em Volta por cima, para quem se inspirou no lendário bicheiro Castor de Andrade. "Eu tentei nunca pesar, fazer de uma maneira onde o personagem estivesse sentindo algum tipo de prazer. Entendi que ele teria que ser um pouco sádico para estar se divertindo com a miséria dos outros", detalhou, sobre o papel na novela das sete.

Escola e linguagem

Natural de Recife e formado na Inglaterra, Rodrigo Garcia vê seu trabalho como um constante aprendizado de linguagens. Seu "batismo" na tevê aberta foi como o violento Vicente, marido abusivo de Isis Valverde em Amor de mãe (2019). "Minha escola meio que acabou sendo o hiperrealismo", admite. Por isso, entrar no tom de uma novela das sete foi um desafio inicial. "Fiquei um pouco engatinhando no começo, até entender qual era, e aí eu caminhei. No final das contas, comecei a aprender essa nova linguagem, que pode vir também a ser outra nova escola", reflete.

A versatilidade também exigiu domínio de sotaques. Em Volta por cima, viveu um carioca da gema, enquanto em Guerreiros do Sol (Globoplay) ele encarnou o cangaceiro Hildebrando Cheiroso. "Um personagem lindo de coração e puro — para alegria da minha mãe, que esperava por esse personagem bondoso", diverte-se, ele que construiu uma carreira com figuras rudes, como o capanga Jurandir (Onde nascem os fortes) e o traficante Beto (Onde está meu coração). 

Arquivo pessoal - Rodrigo Garcia, ator de "Três Graças"

Sem redenção à vista

Para o ator, por trás da fama e do jogo de cena, há um propósito claro em sua escolha de papéis. Ele enxerga nos vilões que interpreta uma oportunidade de discutir questões sociais, em especial os padrões nocivos da masculinidade. "Eu cresci observando bem os conflitos sobre a masculinidade tóxica. Sempre foi algo que achei muito estranho, tanto o fato de ter que observar, quanto o fato de ter tido que aprender inconscientemente alguns padrões de comportamento nocivos", desabafa. "Há anos que, por meio desses personagens, eu tento retratar e delatar essas atitudes", completa.

Essa visão crítica se reflete em seu julgamento sobre o próprio Macedo. Apesar de o personagem ter ganhado uma camada mais humana com o início de um romance com Xênica (Carla Marins) e de sofrer constantes humilhações do chefe Ferette, Rodrigo não vê salvação para ele. "Relacionando à questão da masculinidade tóxica, acredito que a função de certos personagens seja realmente espelhar os erros na sociedade. Não sei ainda o que vai acontecer, mas não vejo salvação para o Macedo. Apesar do tom às vezes cômico e das humilhações, no final das contas ele faz as mesmas coisas horríveis que o Ferette faz", sentencia.

A sombra da morte, então, é uma presença constante. "É o tipo de personagem que pode morrer a qualquer momento", dispara, ressaltando que ainda não sabe o destino final do capanga. Mas o ator já especula sobre desfechos simbólicos: "Apesar de eu acreditar que ele não mereça salvação, o Macedo poderia ter pequenas redenções, como, por exemplo, se virar contra o Ferette e/ou até mesmo ser morto pelas próprias mãos dele. Seria um acontecimento interessante, porque Macedo é a única pessoa leal ao vilão".

Seja qual for o fim de Macedo, Rodrigo Garcia segue consolidando um dos trajetos mais interessantes da atual dramaturgia brasileira: a de um ator que, vindo do cinema autoral (sua estreia foi no aclamado Tatuagem, de Hilton Lacerda, em 2013) e passando por séries de prestígio, agora domina a linguagem popular da tevê sem abrir mão da densidade e da crítica social em suas composições. "Quem está assistindo tem que olhar em algum momento e dizer: 'Nossa, mora uma coisa estranha aí dentro desse personagem'", acredita. 

Manoela Mello/Globo -
Manoela Mello/Globo -

 

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