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Romulo Estrela reflete sobre a profundidade do que é ser homem

Ao Correio, o ator Romulo Estrela fala sobre o dilema moral de seu personagem em "Três Graças", a revisão da masculinidade em meio à paternidade e o aprendizado de envelhecer com mais escuta e vulnerabilidade. "Ser homem é mais profundo", afirma

Romulo Estrela vive Paulinho em
Romulo Estrela vive Paulinho em "Três Graças" - (crédito: Victor Pollak)

Quando o policial Paulinho Reitz aparece em cena em Três Graças, não é apenas mais um personagem que age em nome da lei e do amor romântico na teledramaturgia brasileira. Há, nele, um homem em permanente tensão, dividido entre o dever e os afetos, entre o peso da justiça e a fragilidade da vida privada. É nesse território de conflitos que o ator Romulo Estrela prefere caminhar. 

Aos 42 anos recém-completados, o maranhense nascido em São Luís construiu uma trajetória que atravessa duas décadas de televisão, teatro e cinema. Desde as primeiras participações na televisão, ainda nos anos 2000, até chegar ao protagonismo em produções recentes, ele se consolidou como um dos rostos recorrentes da teledramaturgia brasileira. Em Três Graças, novela da TV Globo, interpreta um policial civil que, ao longo da trama, vê-se diante de uma escolha devastadora: cumprir a lei ou proteger a mulher que ama.

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Para o ator, o personagem se constrói menos na superfície da profissão e mais nas fissuras que ela provoca. Já tendo interpretado policiais em outros momentos da carreira, ele diz que, desta vez, o desafio não está em repetir gestos ou códigos da autoridade, mas em compreender o que acontece com um homem quando as fronteiras entre o dever e a vida íntima começam a ruir.

"O que me interessa de verdade é o conflito. Ele não é uma figura de autoridade, é um homem atravessado por escolhas difíceis", afirma ao Correio Romulo, que, no streaming, deu vida a Ramiro, em Ilha de ferro, e Cristiano, em Verdades secretas 2, ambas do Globoplay. "Um cara como ele desafia um estereótipo, tanto na imagem quanto na maneira de se relacionar. É aí que fica interessante para mim", completa.

Essa tensão ganha forma em um dos principais momentos da trama: Paulinho precisa prender a própria companheira, Gerluce (Sophie Charlotte), envolvida no roubo da escultura que dá nome à trama criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva.

O dilema moral, segundo o ator, estava previsto desde o início da construção do personagem e orientou toda a sua trajetória dentro da história. "Todo mundo gosta de imaginar que faria sempre a coisa certa. Mas a vida coloca a gente em situações em que o certo tem um custo. E, às vezes, o custo é afetivo", diz o pisciano, com a visão de que personagens revelam quem realmente são quando submetidos a esse tipo de pressão: "Não tem saída limpa", define.

Conversas coletivas

A novela também aborda temas sociais que extrapolam o drama individual. A saúde pública é um dos eixos narrativos da história, e Estrela fala sobre o assunto com a memória de uma experiência pessoal marcante. Aos 24 anos, enfrentou um problema cardíaco grave, ainda que não tanto quanto o de Ligia das Graças (Dira Paes).

Hoje, ao ver o tema aparecer na ficção, enxerga a relevância do alcance popular da novela. "Novela, no Brasil, ainda é uma das maiores conversas coletivas que a gente tem. Pouca coisa chega a tanta gente ao mesmo tempo", observa. Para ele, produções como Três Graças ajudam a expor a vulnerabilidade de uma população que depende do sistema público de saúde e sofre quando ele falha. "Se isso ajuda alguém a prestar mais atenção no próprio corpo, já valeu", assinala.

Orgulhoso de suas origens, Estrela também acompanha com atenção as mudanças no audiovisual brasileiro, especialmente no espaço conquistado por artistas fora do eixo tradicional de produção. Filho do Maranhão, ele defende que o país é grande demais para caber em uma única paisagem cultural. "Hoje, você pode criar a partir do lugar de onde você é, com a cultura que carrega", diz ele, que, sempre que possível, retorna ao estado natal, onde permanece parte de sua família e de sua identidade.

"O Maranhão tem uma cultura muito viva que vai além do que as pessoas costumam enxergar. Quando essa diversidade começa a aparecer no audiovisual, a gente sente. É bom poder sonhar mais alto", defende o ator, que, como o hacker Oto, de Travessia, teve a oportunidade de atuar em uma produção ambientada em seu habitat.

Romulo Estrela, ator
Romulo Estrela, ator (foto: Vertical conteúdo)

O debate sobre masculinidade também atravessa a narrativa da novela e se conecta à vida pessoal do ator. A história aborda o abandono masculino — um tema que, segundo ele, nasce de uma cultura que ensinou aos homens que a responsabilidade afetiva seria opcional. "O que eu acho mais perigoso é o conhecimento equivocado do que é ser homem. Isso faz muito estrago. O primeiro passo é olhar para os padrões e ter coragem de quebrá-los, ter coragem de rever o que você aprendeu, mesmo quando essa revisão é desconfortável", defende. 

"Eu fico muito feliz de viver o Paulinho nessa trama, porque estamos dando ao espectador a oportunidade de ver um homem existindo de outra maneira. Ele é um policial civil, enrijecido pela atmosfera do trabalho, mas é um cara que não tem medo de cuidar, de dizer que ama, de se vulnerabilizar. Isso tem valor", observa Romulo.

Estrela acredita que figuras públicas têm o dever de participar da revisão desses padrões. No cotidiano, essa reflexão se traduz principalmente na educação do filho Theo, de 10 anos. Em casa, o ator tenta desmontar expectativas antigas sobre o que significa "ser homem". Conversa com o menino sobre respeito, sobre emoções e sobre a importância de não confundir força com agressividade. "Ser homem é muito mais profundo do que isso", afirma.

Para ele, ensinar escuta e autocontrole é tão importante quanto qualquer outro valor. E há um ponto que considera especialmente urgente: a influência das redes sociais sobre meninos e adolescentes. Segundo o artista, muitas das mensagens que circulam ali, embaladas em tom de humor ou ironia, reforçam exatamente os comportamentos que a sociedade tenta superar.

Se a vida profissional lhe trouxe reconhecimento, a experiência pessoal também deixou marcas que redefiniram suas prioridades. Depois do problema cardíaco na juventude, o cuidado com a saúde ganhou uma dimensão ainda mais ampla. Estrela sempre manteve hábitos ligados ao esporte e à alimentação, mas, hoje, inclui também a saúde mental nesse processo. Já enfrentou crises de pânico e faz terapia regularmente — algo que, segundo ele, raramente fazia parte do repertório masculino das gerações anteriores.

Esse olhar mais atento sobre o próprio corpo e sobre o tempo ajuda a explicar a serenidade com que encara a casa dos 40 anos. Enquanto muitos homens de gerações passadas chegavam a essa idade já próximos da imagem social de avô, ele prefere pensar no envelhecimento como um projeto construído ao longo da vida. "De alguma maneira, eu internalizei cedo a responsabilidade de cuidar de mim mesmo. E acho que esse cuidado é o que mais reflete no envelhecimento", avalia. 

Presença ampliada

Paralelamente à televisão, o ator tem ampliado sua presença em outras linguagens. Em 2022, voltou aos palcos com o espetáculo O alienista, inspirado na obra de Machado de Assis, e intensificou os trabalhos no cinema. Entre eles está o longa Por um fio, adaptação do livro de Drauzio Varella. O filme percorre momentos históricos que incluem a ditadura militar e o surgimento do Sistema Único de Saúde, temas que, segundo o ator, ajudam a compreender o Brasil contemporâneo. "Retratar esse período importa", frisa Romulo. 

O processo de preparação para o papel foi longo. Durante quase um mês de ensaios e imersões, ele buscou descobrir qual corpo e qual voz caberiam naquele personagem, diferente de todos que já havia interpretado. Entre relações familiares complexas e dilemas éticos da profissão médica, o filme se tornou, para ele, um exercício profundo de transformação. 

Mesmo com uma carreira consolidada, Estrela ainda fala do futuro com curiosidade. O tipo de personagem que deseja explorar está longe dos arquétipos previsíveis da dramaturgia. Não o vilão absoluto nem o herói impecável, mas um homem bom capaz de escolhas terríveis — alguém que o público reconheça com desconforto, como se estivesse olhando para o próprio espelho. 

Talvez, por isso, ele mencione, com entusiasmo, o desejo de, um dia, mergulhar no universo de Nelson Rodrigues. Ali, nos labirintos morais criados pelo dramaturgo, vivem justamente esses personagens imperfeitos, contraditórios e humanos demais. É nesse território, em que a ficção encontra as zonas mais ambíguas da vida, que Romulo Estrela parece mais interessado em permanecer. "Sou fascinado pelas relações humanas e pelas histórias que mostram como nos transformamos dentro delas", conclui. 

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    3 - Com Gerluce (Sophie Charlotte): casal de mocinhos de Três Graças Divulgação/Globo
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postado em 22/03/2026 08:00
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