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Bukassa Kabengele fala sobre o orgulho de possuir o DNA da africanidade

Congolês de nascimento e vivendo um nobre africano em novela, Bukassa Kabengele tem visibilidade tripla com outras duas produções no streaming. "Minha criança interna e educação são africanas. Carrego esse DNA da africanidade e consciência negra"

Bukassa Kabengele vive um dos momentos mais produtivos e emblemáticos de sua trajetória de quase quatro décadas dedicadas às artes. Atualmente, o ator de 53 anos ocupa espaços de destaque em diferentes plataformas, consolidando sua presença no audiovisual brasileiro com personagens que transitam entre a realeza africana, a elite rural e o drama histórico de sobreviventes urbanos. 

Na plataforma HBO Max, Bukassa interpreta o Coronel Paulo Sampaio em Dona Beja, novela escrita por Daniel Berlinsky. O personagem é um homem rico e determinado a manter a estrutura de sua família, mas que precisa lidar com a desintegração de seus laços em um período histórico turbulento. Um dos pontos centrais de sua trama é o casamento com Ceci, vivida por Deborah Evelyn, uma mulher branca guiada pelas aparências e que odeia a protagonista (Grazi Massafera) por enxergar nela a liberdade que combate e atua para afastar o filho. Além disso, ela é racista, apesar de ter marido e filhos negros. 

"Isso é muito mais comum do que imaginamos. As violências do racismo estão também dentro das famílias de casamentos interraciais, tal qual o machismo nos casamentos entre homens e mulheres. Isso precisa ser debatido e confrontado", defende Bukassa.

Já na Netflix, o ator integra o elenco da série Emergência radioativa, que reconta o trágico acidente com o Césio-137 ocorrido em Goiânia em 1987. Ele interpreta Evenildo, o dono do ferro-velho onde a contaminação tem início. O personagem é descrito como um homem ambicioso que desejava o melhor para os seus, mas que acaba enfrentando perdas irreparáveis junto à sua família.

Para Bukassa, a produção é uma oportunidade de reforçar a pluralidade do elenco negro no mercado. "Precisamos ser plurais e múltiplos nessa saga que é colocar atores a atrizes negras dentro das visibilidades do mercado no audiovisual", argumenta.

MAURO MOTTA - Bukassa Kabengele, ator

Origens

Na trama das 18h da Globo, A nobreza do amor, ele dá vida a José dos Santos, que é Zambi de nascimento e tio da protagonista vivida por Duda Santos. Após uma visita ao Brasil, o nobre africano se apaixona por uma mulher plebeia nordestina e abdica do trono de Batanga. "É um homem íntegro, altivo, engenheiro e entusiasta da ciência", complementa o ator, que se inspirou em seu passado. Ele é africano legítimo da República Democrática do Congo, nascido em Bruxelas, e chegou ao Brasil aos 10 anos. "Minha criança interna e educação são africanas. Carrego esse DNA da africanidade e consciência negra", acrescenta ele, que, quando chegou ao Brasil, com 10 anos, morou em Natal — a produção assinada por Duda Rachid, Julio Fischer e Elisio Jr. é ambientada no Rio Grande do Norte.

Essa onipresença nas telas é vista pelo ator como um reconhecimento de sua excelência e de sua história pessoal. Ele observa que a indústria audiovisual passou a reconhecer seu espaço conquistado e ressalta: "Excelência é um caminho individual e coletivo para nossas lutas e conquistas para o povo negro".

Além das séries, ele poderá ser visto em breve no filme Narciso, de Jeferson De, que trata da realidade de crianças em abrigos. Segundo o ator, o filme mostra "camadas profundas e complexas dos olhares desse menino em relação como o mundo se apresenta para pessoas negras", contribuindo para a construção de um imaginário mais justo e igualitário.

 

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