Cinema

Sanguinário best-seller de Galera vira filme pelas mãos de Aly Muritiba

Feito no mesmo sistema de produção de Ainda estou aqui, Barba ensopada de sangue conjuga talentos do diretor Aly Muritiba e do ator Gabriel Leone na transposição do famoso livro de Daniel Galera para a telona

Gabriel Leone: trabalho caprichado na maquiagem -  (crédito:  O2 films)
Gabriel Leone: trabalho caprichado na maquiagem - (crédito: O2 films)

Um "observador de outra natureza", atingido pela prosopagnosia (o que dificulta o reconhecimento de pessoas), Gabriel ganha interpretação de Gabriel Leone no mais novo filme de Aly Muritiba, Barba ensopada de sangue. "No fim das contas, o filme traz a história de um rapaz, professor de natação, em crise com sua existência, tentando entender como seguir adiante, depois da morte anunciada do seu pai. É também um filme sobre luto. Sobre o processo de superação dele", entrega Muritiba, reconhecido por filmes como Jesus Kid, Para minha amada morta, Ferrugem e Deserto particular.

Original Globoplay, o novo filme seguiu o mesmo modelo de produção do irmanado Ainda estou aqui, também coproduzido por Rodrigo Teixeira (via RT Features). "Com o filme do Walter Salles (Ainda estou aqui), feito um pouco antes, aconteceu a coisa maravilhosa (de vencer prêmios no Festival de Veneza e no Oscar), de modo que todas as energias dos produtores, obviamente, ficaram voltadas para o filme do Walter", conta Aly, que teve que botar barba de molho por um ano para a mecânica de lançamento do novo filme.

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Obediente e super dócil, a cadelinha Texas (intérprete da personagem Beta) foi vital para o longa. "Gabriel Leone e ela fluíram super bem, formaram uma bela dupla, contracenando lindamente. Tive o desafio muito grande que era encontrar essa cadela, porque, no livro, ela é da raça boiadeiro australiano, descrita como uma cadela velha e que acompanha o personagem para todo canto. Me ofereceram uma border collie, uma labrador, mas fiz questão que fosse da raça do livro", conta Muritiba. "Trabalhar com o Gabriel Leone foi um deleite — ele é, sem sombra de dúvida, um dos grandes atores de sua geração. Muito comprometido, estudioso, disponível. Havia desafios como os da caracterização, ele chegava duas horas antes, só pela maquiagem, por causa da barba que usou", completa.

Queridinho do público de Brasília, depois de estrelar produções de José Eduardo Belmonte (como Carcereiros e Alemão 2) e de René Sampaio (Eduardo & Mônica), o coadjuvante de O agente secreto (2025) Leone, para Baraba ensopada de sangue dependeu até de uma equipe especializada em filmagem subaquática. Uma cena, em especial, gerou a dúvida em Muritiba de rodar em mar aberto ou num tanque seguro. A opção foi a de ocupar tanque de alta profundidade, em São Paulo, na qual os bombeiros treinam.

"Aquela cena inicial (de segundos) traz ele mergulhando com baleias. Completamente pelado, num tanque, filmando à noite, em água fria, e ele lá, disponível, em apneia e atuando", destaca. Confira a entrevista, em que, para além de tratar do filme, Muritiba trata da regulação do VoD e da apreensão do setor cultural, "uma indústria que gera capital, com dividendos e emprego", passar pelo risco de ser sucateada pela ação da extrema direita. Desgarrado da Bahia, ele ainda fala de questões regionais para o cinema nacional.

Entrevista // Aly Muritiba, cineasta

Qual a dentificação do espectador com teu filme, adaptado da obra Barba ensopada de sangue, do Daniel Galera?

O Galera tem escrita muito universal, por isso é autor de vários best-seller aqui no Brasil. O Barba ensopada de sangue é o seu maior best-sellers. O filme fala sobre questão que conversa com todos nós, pelo menos em algum momento da vida: 'quem é que nós somos?'. Somos o fruto dos aprendizados ao longo de nossa vida ou o que nos constitui são os nossos laços consanguíneos, são as coisas que os nossos antepassados fizeram e que, de alguma maneira, ficaram registrados em nosso DNA? 'Sou o que minha família é ou o que me tornei ao longo de minha existência...?'. Afora o filosófico, muito mais prosaico do que parece.

Você lida sempre com faroeste, com thriller, com  ideia do forasteiro... Aspectos de violência sempre permeiam teus filmes. O público tira proveito da violência? Ter sido agente penal influenciou o teu cinema?

Nós somos uma espécie marcada por disputas violentas. Nos agrupamos em comunidades, vilarejos, mas sempre sobre o signo da violência. Talvez porque a sociedade tenha sido constituída pelos machos e não pelas fêmeas. A história da humanidade é também a história da violência. Apesar das guerras que existem aqui e acolá, nós vivemos um período de exceção, que é um período de paz desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A história da humanidade, entretanto, é a história da guerra. Quem é agora o Aly historiador, de formação. Isso transparece nos meus personagens: a violência mesmo quando não está, ela ronda, tem um estado de tensão que nos ronda todo o tempo. Oxalá não precisasse eu filmar violência. A depender de como se encena, a violência serve como catarse e, assim, nós satisfazemos certas necessidades. Quando vemos um filme ultra violento como Bacurau ou os filmes do Tarantino, a gente vibra, a gente urra, a gente tem descargas de adrenalina e sai da sessão de cinema aliviado. No campo da fantasia, vivemos o reprimido do dia-a-dia — talvez seja boa saída para a gente não exercê-la. Isso não tem muita relação com o meu passado como agente penitenciário, profissão exercida por sete anos. A vida aqui, fora das grades, está bem mais próxima a um thriller policial, por você não saber a origem do perigo. Na cadeia, a vida é mais previsível.

A partir deste ano, o cinema, em relação a outros anos, diante do aparato governamental, pode murchar?

O cinema deu uma florescida mais uma vez nos últimos anos e, obviamente, é reflexo direto de mudança de governo que aconteceu. Nós vivemos um hiato, fruto do período anterior e do governo que acabou com o Ministério da Cultura e que, de certa maneira, estava sucateando todo o aparato público que se ocupava das políticas públicas para cultura e para arte. Isso canaliza a diminuição na quantidade de produção e na qualidade. O momento atual do cinema brasileiro, reconhecido e premiado, tem a ver com o Estado cuidando da cultura. Neste ano eleitoral, existe a possibilidade de a extrema direita voltar ao poder, e a insegurança se instala novamente, porque a última das prioridades de um governo de extrema direita é cuidar de cultura e arte. Na verdade, o governo anterior enxergava fazedores de cultura como inimigos; o que era mais danoso ainda.

Como roteirista, como deu fluidez cênica para a literatura do Galera e onde buscou a integridade máxima?

Há uma coisa muito rica na literatura do Galera, que é uma literatura bastante visual. Ele já tem uma escrita bastante cinematográfica. Nosso primeiro trabalho de edição foi escolher o que ficava de fora. Depois da escolha, várias lacunas, vários buracos, apareceram. Jessica Candal e eu trabalhamos na reconexão dos pedaços do texto. Nisso, vem o trabalho de criador — transformar o livro em filme. Tomei notas e copiei coisas que me interessavam. No roteiro, abandono o livro e nunca mais olho para ele. Na última fase de escrita, chamei o Galera para ler o roteiro e para tirar algumas dúvidas. Teve hora em que eu falei: "Galera, afinal, o que que passou pela tua cabeça, quando escreveu isso daqui?", e ele: "Mas eu não escrevi isso". Tava tudo tão simbiótico. 

Você é um baiano, morador do Paraná. Trânsitos acirram teu cinema regional?

Saí da Bahia aos 17 anos e fui morar em São Paulo. Morei oito anos em São Paulo, depois vim para Curitiba. Moro em Curitiba há 20 anos e agora fico transitando entre São Paulo e Curitiba. Sou um brasileiro típico, em termos de constituição do país. A gente é bem migrante. Temos leis e regras unificadas. O deslocamento, o desenraizamento faz muito parte de mim. Acho que por isso eu crio tantos personagens assim, em deslocamento, sempre em busca de algo. Filmei no Sul a maioria do que fiz. Faço quase que como um cinema subtropical e não tropical (risos). Um cinema mais denso, esse cinema mais cinza e menos solar, menos vibrante e tal. Não considero o meu cinema regional. A gente colabora e colaborou com a economia, com a cultura brasileira. O cinema feito em qualquer região do país é cinema brasileiro, não é regional. Quando se fala que um filme feito em Pernambuco é regional, a gente está partindo do pressuposto de que existe uma outra região que produz uma cultura e arte que não é regional, que é a universal. E as pessoas acham que essa região é o Sudeste. Eu discordo, veementemente. Acho que o cinema do sudeste é tão regional quanto o nordestino, e é tão brasileiro quanto o sulista. Somos produtores de cultura e arte brasileiros. O sudeste não é a universalidade — não vejo a pontuação do 'brasileiro natural' no Sudeste.

A condição física do Gabriel no filme é algo extraído da realidade ou ficção?

É uma condição neurológica que existe mesmo. E é mais ou menos do jeito que está lá (no filme). A prosopagnosia é uma condição neurológica, às vezes a pessoa, por falta de oxigenação no cérebro durante a gestação, nasce com ela, às vezes por algum trauma, a pessoa adquire e, normalmente, quem possui prosopagnosia enxerga o rosto próprio ou das pessoas, mas não consegue formar a imagem completa. É como se fosse impossível juntar o quebra-cabeça, boca com olho, com nariz. Então, é como se visse sempre uma imagem meio disforme. E aí, para reconhecer as pessoas, é preciso criar outras estratégias.

Como você vê a parceria com os streamings e a lida deles com a criação de conteúdo nacional? 

Barba é um filme original Globoplay, que é um baita parceiro. Há streamings que investem em filmes para cinema e querem que esses filmes tenham uma cauda longa no cinema para, depois, irem para a plataforma. O que acontece, só que exceto com a Globoplay, é que empresas internacionais têm explorado o mercado nacional, e é preciso que esses players retornem algo para o nosso mercado. Sou completamente a favor da regulamentação dos streamings. Está demorando muito, aliás, mesmo
com o projeto, antes aprovado, estar longe de ser o ideal. É o que foi possível de se fazer. Espero que seja logo colocado em prática, porque há uma grande evasão de dividas. O espectador brasileiro assina três, quatro, cinco streamings; essa grana é toda enviada para o exterior, porque essas empresas são empresas comumente norte-americanas e é preciso que deixem uma parcela desse dinheiro aqui no Brasil para ser investido na produção nacional, na consolidação de uma cadeia produtiva que se retroalimente.

 

 

 

  •  Barba ensopada de sangue: reflexão e instrospecção
    Barba ensopada de sangue: reflexão e instrospecção Foto: Fotos: O2 films - lema / Divulgação
  • O diretor Aly Muritiba no set do longa-metragem Barba ensopada de sangue
    O diretor Aly Muritiba no set do longa-metragem Barba ensopada de sangue Foto: lema + / Divulgacao
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postado em 06/04/2026 14:36 / atualizado em 06/04/2026 14:37
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