Cultura

Novo Sesc da 511 Norte realiza seminário para pensar a vocação do espaço

Seminário reúne 23 artistas e pensadores para refletir sobre como levar a diversidade e a decolonialidade à programação do Sesc da 511 Norte

Novo SESC 511 norte -  (crédito: Divulgação)
Novo SESC 511 norte - (crédito: Divulgação)

Pensar as estruturas e a vocação de um centro cultural é o objetivo do seminário Cultura para quê? Centros de arte, decolonialidade e Futuros Possíveis, que o Sesc realiza na unidade da 511 Norte a partir de hoje. Ao reunir 23 convidados para refletir sobre o lugar dos centros de arte na sociedade, o Sesc dá início ao projeto de reforma e ocupação da unidade, inaugurada em outubro de 2025, mas com um longo caminho pela frente para se tornar uma referência na Asa Norte. 

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Segundo Leonardo Hernandes, gerente cultural do Sesc-DF, esta será uma unidade dedicada aos hibridismos artísticos e espaços pensados para o encontro e o convívio. "Será o lugar do encontro das artes com as tecnologias e esse seminário busca trazer um aspecto seminal do ponto de vista curatorial. Essa unidade vai ter uma forte vocação para as artes visuais. O Sesc é forte nos teatros, temos grandes e bons teatros", explica Hernandes. 

Com curadoria do espanhol Manuel Borja-Villel, que foi curador da 35ª Bienal de São Paulo e ex-diretor do Museo Reina Sofía, na Espanha, e de Micaela Neiva, responsável pelas relações internacionais e Institucionais do Rio2C, o seminário foi idealizado para apontar caminhos que investem em ideias como reinvenção de modelos tradicionais e decolonização dos espaços artísticos. A intenção, explica Micaela, é imaginar o futuro do espaço a partir de  como ele pretende existir e que função desempenha. "O seminário é o ponto de partida dessa conversa, e Brasília é o local ideal para essa discussão partir, colocando o tema no centro de um debate internacional sobre o futuro das instituições culturais", garante. "O seminário nasce de uma pergunta direta: para que serve a cultura? E, na sequência, o que os centros culturais estão de fato fazendo, ou deixando de fazer, quando respondem a essa pergunta".

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Manuel Borja-Villel explica que repensar simultaneamente os centros de arte e os desafios contemporâneos como o crescimento de fronteiras, o extrativismo, a exploração, o racismo e a violência é fundamental, sobretudo quando parte desses problemas nascem de um passado colonial e se reproduzem no presente. A partir daí, ele sugere que é possível sonhar um futuro diferente para as instituições. "A  instituição da arte e o androcentrismo surgem de uma mesma matriz moderna vinculada ao capitalismo, baseada na ideia de um sujeito universal que domina e objetifica o mundo. Os museus e centros de arte tradicionais reproduzem essa lógica ao legitimar narrativas nacionais homogêneas e formas únicas de apropriação cultural", explica. Nesse sentido, sociedades com instituições excludentes fortalecem os nacionalismos fechados e identitários, que reforçam fronteiras e rejeitam as diferenças. 

A consequência é o aprofundamento das desigualdades e o silêncio de alguns grupos em detrimento de outros. "Como consequência, produz-se um crescente distanciamento e uma desafeição em relação às instituições culturais, percebidas como alheias e pouco representativas da diversidade social", acredita o curador. Micaela lembra que instituições plurais, que acolhem a diversidade, são mais comprometidas com a equidade e mais representativas. É sobre essa ideia que os convidados do seminário devem se debruçar numa espécie de plano para a construção do novo Sesc. "Na prática, significa repensar quem toma as decisões curatoriais, de onde vêm os conteúdos que circulam, quais linguagens são legitimadas e quais corpos são efetivamente acolhidos e sustentados nesses espaços. Reconhecer desigualdades históricas e agir de forma intencional para enfrentá-las, criando mecanismos concretos de acesso, permanência e visibilidade", diz MIcaela.

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Além disso, lembra Manuel,  os museus tradicionais baseiam-se na posse e na acumulação de objetos considerados valiosos que, muitas vezes, foram obtidos de forma ilegítima. "Esses objetos constroem narrativas nacionais e identitárias que apagam a violência exercida pelas classes dominantes, tanto sobre outros povos quanto sobre os seus próprios", diz o curador. "Nesse sentido, os museus tornam-se espaços centrais na construção de imaginários, não apenas no que diz respeito à narrativa nacional, mas também na definição do que é considerado valioso: quais corpos, tempos e matérias importam e quais são excluídos." Analisar criticamente esse relato e propor alternativas constitui um desafio fundamental e vital, na visão do curador. 

Diretor regional do Sesc, Valcides de Araújo lembra que o papel da instituição é atuar como uma ponte entre a excelência artística e a transformação social. "Entendemos que repensar um centro cultural não é apenas uma questão de arquitetura ou curadoria, mas de função pública: o Sesc assume a responsabilidade de ser um agente ativo na democratização do acesso, transformando espaços que historicamente poderiam ser vistos como excludentes em territórios de acolhimento e convivência", explica.

O seminário tem uma programação multidisciplinar dividida em quatro eixos:  À Margem do Mundo: Políticas de Passagem e Fronteiras Culturais, Partir permanecendo: êxodos para um outro fim possível. Ambientes para a Vida: Driblar os mapas e Caminhar com o Passado à Frente. Entre os convidados há nomes emblemáticos do pensamento contemporâneo, como Ailton Krenak,  Suely Rolnik e o arquiteto Paulo Tavares, mas também convidados de países latinoamericanos, como Chile, Bolívia, Guatemala, Argentina e Equador, além de Alemanha, França e Indonésia. 


Três perguntas//Manuel Borja-Villel

Por que é importante discutir a descolonialidade das instituições culturais?

Hoje, em um momento em que o planeta se encontra exaurido e as tensões e violências se intensificam, torna-se urgente construir coletivamente uma nova sensibilidade, capaz de reencantar a vida. Trata-se de uma sensibilidade na qual a natureza, em sua totalidade, ocupe o centro e na qual os seres humanos se reconheçam como parte de uma rede dinâmica de relações recíprocas, interdependentes e em constante transformação.

Do que falamos quando falamos de territórios culturais?

De espaços nos quais se disputa uma ou outra forma de compreender a sensibilidade humana.

Como essas estruturas se inserem no mercado da economia criativa?

As instituições culturais contribuem significativamente para o desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que estimulam a circulação de ideias, saberes e práticas criativas. No entanto, é fundamental lembrar que essa criatividade implica aquilo que Françoise Vergès, seguindo Frantz Fanon, denomina "desordem absoluta", isto é, o questionamento constante da própria instituição. Um museu ou centro cultural não pode ser avaliado exclusivamente em termos de eficiência econômica ou de mercado.

Três perguntas //Valcides de Araújo

Para o Sesc, como devem ser moldadas essas instituições? 

Acreditamos na necessidade de transcender modelos tradicionais para conceber instituições mais plurais, inclusivas e conectadas às urgências do território. As instituições devem se tornar mais permeáveis à vida social, funcionando como espaços de conexões e experimentação de novas formas de subjetividade e cuidado. É fundamental que os centros de arte se reinventem, superando estruturas históricas excludentes.

Como integrar diversidade cultural e acesso às produções? 

Entendemos que a verdadeira democratização da cultura vai muito além da gratuidade ou da facilidade de entrada nos espaços; ela começa na raiz, ou seja, na curadoria. Não basta abrir as portas se o que está lá dentro não reflete a pluralidade da nossa sociedade. Para o Sesc, integrar diversidade e acesso significa promover espaços de qualidade para as mais variadas manifestações e dar palco a quem historicamente não o teve. No Sesc Cultural, nossa proposta é descentralizar o olhar curatorial, integrando saberes de povos originários, comunidades periféricas e produções diaspóricas ao mesmo nível de excelência das artes canônicas.

Qual o papel das políticas públicas nesse cenário? 

As políticas públicas são fundamentais para estimular o debate crítico sobre o funcionamento das instituições culturais contemporâneas. Elas devem apoiar a construção de narrativas históricas e identitárias que considerem a colonialidade e as dinâmicas migratórias. Além disso, têm o papel de garantir que a arte seja reconhecida como prática capaz de transformar o mundo e produzir relações sociais.

Serviço

Cultura para Quê? Centros de Arte, Decolonialidade e Futuros Possíveis

De hoje a sábado, no Sesc Cultural Asa Norte (511 Norte)

 

Programação completa

22 de abril | Dia 1

10h às 17h — Oficina com Olivier Marboeuf


23 de abril | Dia 2

9h — Apresentação institucional Sesc
10h — Abertura do encontro
Com Manuel Borja-Villel e Irene Valle Corpas

10h45 às 12h45 — Mesa de Abertura
Com Leda Maria Martins e Adriana Guzmán Arroyo (Jalliu Kipa)
Reflexões sobre corpo, território e memória como formas de compreender o presente e construir outras temporalidades.

14h45 às 16h — Mostra Audiovisual
Exibição de obras que abordam feminismo, território e resistência, com foco em experiências comunitárias e relações com a terra.

16h15 às 18h15 — Mesa 1: À Margem do Mundo
Com Claudio Alvarado Lincopi, Raquel Rolnik e Jota Mombaça
Mediação: Dilton de Almeida
Debate sobre fronteiras, desigualdade e os desafios de pensar instituições culturais que não reproduzam exclusões.

18h30 — Intervenção artística
Paulo Nazareth
Performance inédita criada especialmente para o seminário.

24 de abril | Dia 3

9h — Mostra Audiovisual
Exibição de filme brasileiro sobre memória, identidade e luta dos povos indígenas.

10h50 às 13h20 — Mesa 2: Partir permanecendo. Êxodos para um outro fim possível
Com Farid Rakun, Gladys Tzul Tzul, Suely Rolnik e Verónica Gago
Mediação: Keyna Eleison
Discussão sobre capitalismo contemporâneo, subjetividade e possibilidades de resistência e reinvenção da vida.

15h20 às 16h10 — Mostra Audiovisual
Filmes que abordam colonialismo, meio ambiente e memória histórica.

16h25 às 18h25 — Mesa 3: Ambientes para a vida. Driblar os mapas
Com Saphiya Abu Al-Maati, Yuderkys Espinosa-Miñoso e Paulo Tavares
Mediação: Thiago de Paula
Debate sobre extrativismo, racismo ambiental e saberes indígenas como alternativas às lógicas de exploração.

18h40 — Intervenção artística
Jamile Cazumbá
Performance que investiga memória, corpo e experiências negras a partir de linguagem interdisciplinar.

25 de abril | Dia 4

9h — Mostra Audiovisual
Exibição de obra experimental que questiona formas tradicionais de representação.

10h às 12h — Mesa 4: Caminhar com o passado à frente
Com Fatima El-Tayeb, Marco Baravalle e Ana Longoni
Mediação: Sandra Benites
Discussão sobre o papel dos museus e instituições culturais na construção de novas formas de sensibilidade e conexão com a vida.

14h — Mostra Audiovisual
Filha Natural, de Aline Motta, com narração ao vivo da artista
Experiência que combina cinema e performance em tempo real.

14h16 — Aline Motta fala sobre “Filha Natural”
descrição: A diretora, Aline Motta, conversa com o público sobre o filme que acaba de ser exibido.

14h55 às 16h55 — Mesa de Encerramento
Com Rosane Borges e Ailton Krenak
Diálogo sobre outras formas de existir e pensar o mundo a partir de diferentes cosmovisões.

17h10 — Intervenção artística (instalação)
Olivier Marboeuf — Wall Drawing

 

 

  • Novo SESC 511 norte
    Novo SESC 511 norte Foto: Divulgação
  • Valcides de Araújo e Manuel Borja-Villel
    Valcides de Araújo e Manuel Borja-Villel Foto: Divulgação
  • Valcides de Araújo e Manuel Borja-Villel
    Valcides de Araújo e Manuel Borja-Villel Foto: Divulgação
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postado em 22/04/2026 11:23 / atualizado em 22/04/2026 11:24
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