Crítica // Pai mãe irmã irmão ★★★
No novo filme de Jim Jarmusch, a passagem do tempo reside nas fotografias, naquilo que não é dito, nos distanciamentos e ainda nas ausências. Um personagem destaca o quão aleatório e frágil é o destino. Filmada em locais como Irlanda, França e Estados Unidos, a produção adota o caráter de crônica e investe nas transformações nas relações de parentesco de muitos personagens.
No lugar de esperados locais de aconchego, os núcleos familiares evocam formalidades e alguns temas se repetem: deslocamentos físicos, discussão da qualidade da água (a ser consumida), promoção (em funções no trabalho), o tic-tac de um relógio Rolex e rituais, em nada reveladores de intimidade real entre os personagens. Pai mãe irmã irmão traz o peso de um nome, Jarmusch, numa narrativa episódica repleta de frivolidades e gentilezas que acusam falta de naturalidade nos personagens sofisticados, frios, por vezes, toscos e que usam uma linguagem muito explicativa.
Três blocos dão norte ao enredo em que, no primeiro, Tom Waits assume o papel de pai quebrado e de difícil comunicação com os filhos, o que inclui a boa performance de Mayim Bialik. Noutra trama, há, em torno de uma impecável mesa de chá, o encontro da mãe (Charlotte Rampling, uma real presença) com as filhas interpretadas por Vicky Krieps e Cate Blanchett (impecável, como de costume). E, na história mais objetiva e mais palatável, uma casa vazia reúne os gêmeos interpretados por Luka Sabbat e Indya Moore.
As pontuações em cinema do diretor — improvável, mas vencedor do Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza — esbarram em sutilezas e nas escolhas de ângulos: flores dispostas num vaso encobrem rostos, numa cena, noutra, a dualidade e a fusão de identidades entre gêmeos está refletida no uso de espelhos. A cadência particular, mas corriqueira (na filmografia), do cineasta não é de ampla apreciação.
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