POESIA

Climério Ferreira reúne em livro versos publicados diariamente nas redes

Climério Ferreira lança, no Beirute da 109 Sul, a coletânea A carta lírica, que reúne poemas elegantes sobre o silêncio, a solidão, o amor, a finitude e a alegria de viver

Climério Ferreira:
Climério Ferreira: "A poesia vem de tudo, até dos pilotis" - (crédito: Rafael Ohana/CB/D.A Press)

A veia lírica do poeta Climério Ferreira continua forte e bem irrigada. Quase todos os dias, ele publica um poema no Facebook, aguardado, ansiosamente, por uma respeitável turma de leitores, que lhe cobra livros. Por isso, ele reuniu poemas e compôs o livro A carta lírica (Fundação Quixote/Teresina), coletânea que passeia por vários temas, mas com uma unidade de tom e de forma. São trovas modernas, em verso livre, nos quais, podem, no entanto, repontar rimas internas, vício do letrista autor de Enquanto engoma a calça, Conflito e Por um triz.

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Climério lança A carta lírica nesta segunda-feira, às 19h, no Beirute da 109 Sul. Em seguida, ele autografará o livro em Teresina, numa feira literária. Em 2021, a Fundação Quixote fez uma homenagem a Climério e ela consistia na publicação dos livros do poeta. O primeiro foi A música imóvel do tempo, o segundo, Poemas reunidos, e o terceiro, A carta lírica. Com a agilidade mental de um repentista, ele publica, quase todos os dias, um poema no Facebook. Apesar de Climério ter enfrentado uma dura batalha contra um câncer e resistido bravamente, os poemas de A carta lírica irradiam sabedoria, leveza, alegria de viver e elegância espiritual. E, nesta entrevista, Climério fala sobre a veia lírica, os ensinamentos da finitude e a força da poesia: “Rapaz, eu acho que é a poesia que me segura”.

Entrevista//Climério Ferreira

Qual é a origem de A carta lírica?
Sonhei com uma carta lírica. Os poetas paulistas falavam muito em uma poesia concreta. De concreto, eu só tenho o sonho. Estou mais para lírico. Cada poema quer conquistar o leitor. Cada poema meu busca colo, como dizia Salgado Maranhão. O fato é que os meus leitores sempre cobram um novo livro.

Em que consiste essa veia lírica para você?

Eu imagino que é uma coisa mais próxima, não de igualdade, mas de aproximação de sensibilidade, com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, no sentido de ser uma poesia romântica, apaixonada. Os concretos reprovam as dores e os arroubos românticos do lírico. Gosto quando a poesia toca na alma do leitor. O poema concreto toca na inteligência. Você lê e comenta: “Eu entendi aquilo”. Eu continuo percebendo as coisas de maneira parecida com a dos poetas dos quais eu gosto. Vejam o exemplo do Ferreira Gullar. Ele tentou fazer poesia concreta, implodiu a linguagem e terminou no nada. Aí, ele escreveu o Poema sujo, que evoca a história dele em São Luís do Maranhão, o cheiro das bananas apodrecendo na quitanda do pai. É maravilhoso. Quase tudo já foi feito, para conseguir um jeito novo de fazer é difícil.

E como você resolve esse desafio de encontrar um jeito novo de fazer poesia?
Eu gosto dessa dificuldade. E gosto também quando um poeta jovem e desconhecido se inspira no meu poema para escrever o dele. A coisa não fica presa no livro. Recebo muitos versos de quem se inspirou em minha poesia. É muito boa essa comunhão criativa.

 

É possível esse diálogo entre as gerações?

Certa vez, eu estive na mediação de uma mesa de debates do CCBB sobre os radicais e os consagrados na poesia. O consagrado ou clássico era visto como coisa ruim, segundo os prafrentex. Eu e o Antonio Cicero, irmão da Marina, enfrentamos um batalhão de prafrentex. Ele e eu dissemos que admitíamos e admirávamos os consagrados. Aliás, leio muito Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Drummond. Porque sinto ali um projeto de comunicação poética. E tem uma turma da pesada que vem a partir da Bossa Nova e do Tropicalismo, que também tem muito dessa veia lírica. Torquato Neto escreveu a letra de A rua, bela canção com Gil, que é lembrança da infância da Rua São João, onde eu também vivi.


Do ponto de vista da forma, os poemas de Carta lírica parecem trovas, mas escritas em verso livre, quase em prosa. Você concorda?

Exatamente, é isso mesmo. Às vezes, até me assusto com a rima que aparece no mesmo verso. Não estou perseguindo isso, mas parece que a rima te laça, principalmente, a quem faz letra de música, como é o meu caso.

Embora seja constituído por poemas muito diversos, A carta lírica tem uma certa unidade de temas. Como conseguiu isso?
Eu publico poemas em minha página do Facebook quase todos os dias. Juntei os que tinham a ver com a ideia do livro. No caso, optei pelos que são, inegavelmente, líricos, inegavelmente, românticos.

Você é o último romântico?

Deus queira que não (risos). Estava ouvindo as músicas antigas de Chico Buarque. A letra de A banda é de um incrível riqueza lírica. A janela é o espaço para ver as coisas. O tempo passa na janela e Carolina não o vê passar. O Chico Pontes dizia que Chico Buarque gostava mesmo era de palavras cruzadas. Não é verdade, tudo nele tem um sentido poético.


Apesar de todas as dificuldades que você viveu nos últimos tempos, com problemas de saúde, os poemas do livro passam um sentimento de afirmação da vida e de alegria de viver. Nos poemas, há uma busca da sabedoria de viver. É uma coisa de Buda piauiense ou do Buda da Asa Norte?

Não tenho a menor ideia, na verdade, eu fico feliz com pequenos acontecimentos, como a vitória do Botafogo. Não tem o menor sentido e eu vibro com isso. Claro que gosto dos sambas que Zeca Pagodinho canta. Mas aprecio muito, também, a parte em que ele tira alegria da vida. O jeito deixa a vida me levar, vida leva eu. Fiquei comovido quando ele comprou uma moto de quatro pneus e salvou muita gente naquela chuva terrível sobre o Rio de Janeiro. Levou comida para quem precisava. Ele tem soluções que a gente nem imagina. Quando foi se casar, a mulher pediu para ele fazer uns convites. Zeca tomou umas cervejas e perdeu os convites. A mulher ficou brava e o Zeca deu a solução: “Não tem problema, a gente se casa de novo”. 


Como é esse lance de publicar um poema a cada dia? Qual é o lugar da poesia em sua vida?

Rapaz, tenho a impressão de que é a poesia que me salva. Sinto que estou fazendo alguma coisa que tem sentido. Principalmente, quando publico a poesia em livro.

E você sempre lança os livros no Beirute. Qual é a relevância do Beiras em sua história?
Eu tenho uma ligação com o bar, inclusive, comecei a fazer poesia no Bar do Pedro, em São José dos Campos, quando eu estudava no Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Quando voltei a Brasília, fiquei um sem bar. Aí, surgiram os lançamentos no Beirute. Fiquei amigo da Foguinho, que organiza os lançamentos. Frequentei o Beirute a vida toda. Houve uma época em que quase tudo passava pelo Beirute. Era um ponto de encontro, lá, se faziam as peças que nunca seriam encenadas, os filmes que nunca seriam filmados. A gente via o filme ou a peça e ia lá para debater. Levei o Celso Duarte, meu parceiro na canção São Piauí, para almoçar no Beirute. Ele achou fantástico e musicou o meu poema sobre o Beirute.

A finitude é um tema que apareceu de maneira muito forte nos poemas a partir dos problemas de saúde que você teve?
Sim, a partir dos problemas de saúde, eu passei a me preocupar com a finitude. Eu tenho 83 anos, tenho pouco tempo para viver se estiver saudável. A mãe do Ney Matogrosso viveu 103 anos. De repente, um dia, ele chegou lá e ela perguntou: “Quem é você?”. Isso pode ocorrer.

Que aprendizado a finitude te proporcionou?

Acho que se a vida acaba, temos de aproveitar, ao máximo, cada instante. Não faço mais projetos muito longos. Tenho de fazer logo ou não fazer.

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postado em 03/05/2026 06:00
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