Alguns encontros nascem da ficção, mas carregam a intensidade de algo vivido. Em Ruas da Glória, novo longa de Felipe Scholl lançado em abril, essa sensação atravessa a tela com força crua e delicada ao mesmo tempo. O filme acompanha as trajetórias de Gabriel e Adriano, dois homens que se cruzam em meio a desejos, carências e sobrevivência, construindo uma relação marcada por entrega, tensão e afeto em um universo raramente explorado com tanta franqueza no cinema brasileiro.
Interpretados por Caio Macedo e Alejandro Claveaux, os personagens ganham densidade a partir de um processo criativo que mistura investigação de campo, escuta sensível e uma imersão emocional profunda. Longe de estereótipos, o longa aposta em um olhar humano sobre experiências marginalizadas, propondo uma narrativa que vai além de rótulos e desafia o espectador a encarar suas próprias percepções.
Em entrevista conjunta ao Correio, os atores detalham os bastidores dessa construção, revelando os desafios das cenas mais intensas, o impacto pessoal do processo e as reflexões que o filme pretende provocar.
ENTREVISTA | Caio Macedo e Alejandro Claveaux
Como foi o processo de construção da relação entre Gabriel e Adriano? Houve algum período de preparação ou convivência antes das filmagens para estabelecer essa confiança?
CAIO: Nós tivemos uma preparação e um laboratório bem intensos, foram quase dois meses contando com a seleção de elenco. Durante esse processo fizemos visitas de observação em lugares onde havia trabalhadores do sexo, como saunas gays, cinemas pornôs e praças pelo centro do Rio, como a Cinelândia. Também entrevistamos vários garotos de programa em diferentes contextos sociais, o que nos fez perceber o quão complexa é essa realidade, já que são histórias únicas e cada um carrega justificativas muito específicas. Tivemos ainda o acompanhamento de uma preparadora de intimidade, a Clarisse Zarvos, e, junto ao Felipe Sholl, realizamos muitos exercícios de construção de memórias regressas, criação de química e coreografia das cenas de sexo. Ao mesmo tempo, havia uma abertura muito grande para a criação em conjunto durante o set, o que foi fundamental para nos conectarmos às sensações do momento.
ALEJANDRO: Sim, tivemos aproximadamente um mês de preparação e foi um processo muito rico. Além dos ensaios com o Caio, entrevistamos alguns profissionais do sexo e visitamos cinemas e casas noturnas que oferecem esses serviços, para entrarmos nesse universo que o filme propunha. Junto com a direção, desenhamos as coreografias das cenas e as possibilidades que os personagens poderiam atingir para contar a história de Ruas da Glória.
Qual foi o maior desafio em "trocar" com o outro durante as cenas mais intensas?
CAIO: Eu tive um parceiro de cena incrível, com quem conseguimos criar algo realmente bonito, nossa conexão foi imediata. Nos identificamos como “estrangeiros” dentro da própria cidade do Rio de Janeiro, e isso nos aproximou emocionalmente. As cenas mais difíceis, para mim, foram as de sexo com grande carga dramática, porque além da exposição natural da intimidade, precisávamos entregar densidade psicológica e verdade corporal, tudo isso dentro de um set com muitas pessoas trabalhando. Era uma situação complexa que exigia uma imersão profunda nos sentimentos. Sustentar tantas cenas desse tipo, que são numerosas no filme, foi realmente desafiador.
ALEJANDRO: A troca acontece quando existem profissionais interessados em trazer o mais próximo da realidade para a cena, entendendo que tudo é uma grande dança. O Caio foi um grande parceiro e se colocou muito aberto desde o início para as criações em conjunto. O Felipe, diretor, também foi uma peça importante nesse processo, pois nos deu muita liberdade de criação.
Seus personagens possuem trajetórias distintas que se cruzam. Como vocês trabalharam para que as energias de cada um se complementassem sem que um se sobrepusesse ao outro?
CAIO: A principal chave foi a parceria construída fora das cenas, quando não éramos Gabriel e Adriano, mas artistas trocando experiências e entendendo as dores um do outro. Trabalhamos muito a partir de materiais internos, usando nossas próprias questões como referência para os personagens. Isso nos levou a um lugar muito particular e real, exigindo uma parceria que ultrapassa o campo profissional e se torna afetiva.
ALEJANDRO: Isso já estava muito definido no roteiro. Essa trajetória do Adriano, que desaparece em determinado momento do filme, desencadeia a busca do Gabriel por essa paixão. O filme vai revelando aos poucos que a grande busca dos personagens era por si mesmos.
O filme aborda realidades muito específicas; quais foram as principais referências, sejam visuais, literárias ou de observação real, que vocês buscaram para dar vida a esses homens?
CAIO: Além do percurso interno de cada um, especialmente do Felipe, que escreveu o roteiro a partir de vivências pessoais, nos apoiamos muito nas histórias ouvidas durante as entrevistas com trabalhadores do sexo. Uma referência importante para mim foi o livro e o filme Eu, Cristiane F. - Drogada e prostituída, que dialoga com o drama do Gabriel ao tratar de jovens que se desviam de caminhos socialmente aceitos e vivem intensamente o presente. Essa obra me ajudou a enxergar a dor do personagem de forma poética, como se sua queda também carregasse um aspecto de redenção.
ALEJANDRO: Conversei com alguns profissionais, ouvi muitas histórias difíceis de serem reproduzidas, e isso tudo foi me alimentando desse universo subversivo. De fato, não é algo que passa perto da minha realidade e, para mim, o ponto de junção entre esses mundos estava em trazer humanidade para o Adriano, que é uruguaio e chegou ao Brasil com uma expectativa frustrada de uma realidade melhor.
Qual característica do seu personagem mais te tirou da zona de conforto?
CAIO: O luto, principalmente porque eu também estava vivendo um naquele momento. Perdi meu pai no início do filme, e como nossa relação era complicada, isso me aproximava muito do que o Gabriel enfrenta. Esse sentimento de perda e distanciamento mexia profundamente comigo, e muitas vezes a linha entre o personagem e a minha experiência pessoal ficava difusa. Ao mesmo tempo que isso me oferecia recursos emocionais valiosos, também tocava em questões muito dolorosas.
ALEJANDRO: Talvez o fato de ele usar muita droga como fuga da realidade. O filme retrata isso em vários momentos, inclusive quando ele introduz essas substâncias para o Gabriel.
O título do filme carrega uma dualidade interessante; o que “glória” significa para os seus personagens e como isso mudou ao longo da narrativa?
CAIO: “Glória” pode assumir vários significados dentro do filme. Inicialmente, ela pode ser vista na entrega a um amor cego e visceral, quase como uma transgressão aos valores sociais. Mas, ao longo da trajetória, essa percepção se transforma: o que parecia prazer pode se tornar sofrimento. É interessante como o termo é trabalhado, porque o percurso do Gabriel é doloroso e provoca reflexão, mostrando que a “glória” pode surgir de lugares inesperados.
ALEJANDRO: Ruas da Glória foi um mergulho profundo que me rendeu um prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival do Rio. Embora eu percebesse que estava completamente envolvido no processo do filme, não esperava essa repercussão. Para mim, e por todo o meu envolvimento no projeto, não há título mais apropriado. Glória, para os personagens, é algo relativo. No caso do Adriano, acredito que ele viveu a intensidade dessa paixão caótica, porém libertadora para ambos.
Como foi o diálogo com a direção para encontrar o tom realista e cru que o filme propõe e quanto espaço houve para o improviso?
CAIO: O diálogo com o Felipe sempre foi muito empático. Desde o início ele compartilhou que o filme era inspirado em experiências pessoais, o que abriu um espaço de troca muito íntimo. Trabalhamos com a intenção de acessar emoções reais, incorporando vivências pessoais nossas aos personagens de forma intuitiva. O tom documental foi uma diretriz constante, reforçada pelo laboratório de observação e entrevistas. O improviso também teve um papel essencial, tanto nas provocações da preparadora quanto nas propostas do próprio Felipe, permitindo que as cenas ganhassem uma crueza e uma verdade mais visceral.
ALEJANDRO: Foram muitas pesquisas e conversas com o Felipe Schöll, com a equipe técnica e, claro, as trocas nos ensaios com o Caio. Queríamos o máximo de realismo, pois, embora o filme aborde uma história de diversidade, sempre acreditei que deveríamos tratá-la com a mesma naturalidade e verdade com que histórias de casais heterossexuais são retratadas.
Ruas da Glória toca em temas sociais e humanos profundos. Qual diálogo vocês esperam que o filme abra com o público brasileiro neste momento?
CAIO: Espero que o filme consiga ir além da bolha do chamado “romance gay”. Não porque esse espaço seja menor — pelo contrário, é extremamente importante —, mas porque acredito que a história pode sensibilizar públicos diversos. A ideia é que pessoas que não pertencem à comunidade LGBTQIAPN+ também consigam se conectar com a narrativa, criando empatia por um universo que talvez lhes seja distante. Todos enfrentam momentos difíceis, e acredito que essa identificação humana pode contribuir para a construção de redes de apoio, informação e compreensão mais amplas.
ALEJANDRO: Precisamos elevar os debates em torno de pautas diversas. Levar um projeto como esse para uma sala de cinema e ouvir relatos de pessoas que passaram por situações parecidas e se emocionaram com a história não tem preço. Mais uma vez, a arte cumpre sua função de abrir canais de diálogo sobre um tema marginalizado e pouco explorado.
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